A CARAMBAIA lança em dezembro Arquipélago Gulag, obra-prima do russo Aleksandr Soljenítsyn. Leia abaixo o texto do historiador Pietro Sant'Anna a respeito da vida do escritor e a repercussão do lançamento do livro em 1973. 


 

Aleksandr Soljenítsyn nasceu em dezembro de 1918 na cidade de Kislovodsk, entre os mares Negro e Cáspio, perto da fronteira da Geórgia, um ano depois da eclosão da Revolução Russa. Veio ao mundo enquanto a Primeira Guerra Mundial se encerrava e passou a primeira infância no fogo cruzado da Guerra Civil russa, que só terminaria com a vitória do Exército Vermelho em 1921. No dia 20 de dezembro de 1922, quando Lênin assinou a fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, fazia pouco mais de uma semana que Aleksandr completara 4 anos de idade.

 

Soljenítsyn tinha origem social mujique (camponesa), não operária. Sua mãe, Taisiya, tinha ascendência ucraniana – uma das nacionalidades que menos aceitou o jugo soviético, considerado uma roupagem nova do velho imperialismo russo. O pai, Isaakiy, morto em um acidente de caça poucos meses antes do nascimento de Aleksandr, era um agricultor rico e oficial do extinto Exército czarista.

 

Soljenítsyn foi um estudioso do marxismo e admirador de Lênin até a idade adulta. Confessou que “durante muito tempo não quis conhecer nada além do marxismo”. Entretanto, nunca se entusiasmou com Stálin. Aliás, acompanhou de perto o caso do pai de um colega de escola, condenado de maneira fraudulenta durante os expurgos da década de 1930, desenvolvendo, assim, uma profunda e inextirpável suspeita para com o “czar vermelho”.  

 

Apesar de formado em física e matemática pela Universidade de Rostov em 1941, nunca escondeu que sua paixão verdadeira era a literatura. Conciliou a graduação com alguns cursos à distância no Instituto de História, Filosofia e Literatura de Moscou. “De maneira incompreensível, desde os 8 ou 9 anos de idade, por algum motivo achava que devia ser escritor”, declarou. Desde muito jovem, sonhava em escrever uma epopeia sobre a Revolução, ao estilo do Guerra e paz, de Tolstói.

 

Seu rompimento definitivo com o governo socialista viria só na época da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Soljenítsyn foi convocado para o Exército Vermelho em 1941. Lutou a “guerra de inverno” na Frente Noroeste, que defendeu os arredores de Leningrado (São Petersburgo), e serviu na fronteira de Belarus. Um ano depois, tornou-se tenente. Em 1945, somava quase quatro anos sem sair do campo de batalha.

 

Sua vida mudou radicalmente em fevereiro daquele ano. Já desiludido com o rumo político da URSS, escreveu uma carta a um amigo criticando o governo de Stálin – chamado por ele, ironicamente, de “Chefão”. A correspondência foi interceptada. De acordo com o código penal soviético de 1924, Soljenítsyn era uma “pessoa socialmente perigosa”. Foi preso e condenado a oito anos de reclusão e trabalho forçado.

 

Parte da pena foi cumprida na charachka, setor onde eram alocados criminosos com formação científica, como Soljenítsyn. A amizade com os colegas intelectuais serviria de base, anos depois, para o romance O primeiro círculo (1968) – uma alusão ao estrato do Inferno de Dante habitado pelos sábios pagãos da Antiguidade.

 

Porém, quase dois terços da pena foram pagos de fato em um campo do Gulag, onde foi pedreiro e trabalhou com usinagem. Soljenítsyn quase morreu de fome e exaustão. Diante da violência, das privações e da corrupção que presenciou, perdeu qualquer resquício de admiração pelo marxismo-leninismo e retomou a fé cristã. Também foi no Gulag que enfrentou o primeiro câncer. Tirou daquela experiência a matéria prima do romance O pavilhão dos cancerosos (1968). Sua pena terminou em 1953, quando passou a viver no Cazaquistão como exilado.

 

Beneficiado pela abertura política e pela “desestalinização” promovida por Khrushchev, Soljenítsyn regressou do exílio em 1956. Passou a viver na província de Riazan, a cerca de 200 quilômetros de Moscou. Em maio de 1959, começou a colocar no papel ideias guardadas desde o tempo de prisioneiro e, em 1962, finalmente publicou Um dia na vida de Ivan Deníssovitch, um relato árido do cotidiano no Gulag.

 

O romance provocou uma comoção nacional e Soljenítsyn se tornou ícone instantâneo da nova literatura pós-stalinista. Foi o escrito decisivo para que o autor recebesse, em 1970, o Prêmio Nobel de Literatura. Sem Ivan Deníssovitch, não haveria o Arquipélago: depois da publicação dessa primeira história sobre o Gulag, dezenas de outros ex-prisioneiros passaram a procurar o autor, pessoalmente ou por correspondência. Queriam compartilhar seus relatos pessoais, que acabaram servindo de fonte documental para Soljenítsyn conceber, ao longo da década de 1960, sua trilogia sobre os campos de prisioneiros. De “pessoa socialmente perigosa”, passou a ser voz coletiva dos oprimidos russos.

 

O período Brejnev, iniciado em 1964, foi de recrudescimento do regime soviético. Consequentemente, Soljenítsyn precisou montar uma verdadeira operação secreta para conceber os três volumes da sua próxima obra, o Arquipélago Gulag. Passou duas temporadas em um sítio na Estônia, longe da vigilância soviética e isolado do mundo. Lá escreveu a maior parte do texto. Com o manuscrito pronto, aquartelou-se em uma casa de campo próxima a Moscou, onde revisou, datilografou e microfilmou cada página. Uma cópia foi entregue a uma amiga francesa, que naquele mesmo ano contrabandeou o livro para fora da cortina de ferro. A primeira edição do Arquipélago Gulag saiu em dezembro de 1973, em russo, pela editora da cristã YMCA (Young Men’s Christian Association), de Paris.

 

A obra caiu como uma bomba no Ocidente. A URSS vivia o início da sua crise terminal, e Soljenítsyn oferecia uma arma ideológica poderosa para os inimigos do “socialismo real”. Arquipélago Gulag era o livro certo na hora certa.

 

A tiragem inicial de 300 exemplares esgotou, literalmente, em algumas horas. O livro prontamente começou a ser traduzido para dezenas de línguas, recebeu críticas positivas, vendeu milhões de cópias. Rádios europeias como a BBC de Londres ou a alemã Deutsch Welle passaram a transmitir a leitura de trechos da obra. Em Munique, a Rádio Liberdade, bancada pelos EUA, obteve autorização para ler o Arquipélago Gulag na íntegra. O sinal saía da Alemanha Ocidental e atravessava a cortina de ferro, chegando em regiões como Polônia, Tchecoslováquia, Romênia, Hungria.

 

O Arquipélago Gulag é um testemunho íntimo e épico. É narrativa histórica detalhista e, ao mesmo tempo, um ensaio político-filosófico ambicioso. Sua originalidade não está na denúncia dos campos de trabalho forçado, pois dezenas de ex-prisioneiros já haviam publicado memórias na década de 1970. Como estudo histórico, também não era exatamente uma novidade temática – basta pensar que os livros anticomunistas de Robert Conquest, por exemplo, que também denunciavam o funcionamento do Gulag, já eram bem difundidos naquela época.

 

O que distingue o livro de Soljenítsyn é a escala da empreitada (mais de duzentos relatos enviados ao autor serviram de fonte documental), a forma (uma “investigação artística”) e a qualidade literária. Seus personagens têm vida, profundidade. O relato histórico é pano de fundo para uma reflexão sobre o bem e o mal. O humanismo do Arquipélago Gulag é adversário não apenas do comunismo, mas de toda ideologia que justifica a imoralidade – da inquisição ao colonialismo. O “socialismo real”, para Soljenítsyn, é uma concretização e consequência lógica do projeto secular e materialista da modernidade.

 

A repercussão do Arquipélago Gulag foi grande e imediata também no Brasil. O jornal O Globo dedicou uma página inteira ao livro no dia 3 de janeiro, menos de um mês depois do seu lançamento em Paris. O Estado de São Paulo fez o mesmo um pouco depois. No dia 14 daquele mês, o prestigiado semanário Opinião, onde escreviam grandes autores brasileiros como Antonio Candido, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Millôr, dedicou duas páginas inteiras ao novo trabalho de Soljenítsyn. Pouco mais de um ano depois, em 1975, uma versão resumida do livro ganhou sua primeira edição nacional pela Difel (Difusão Europeia do Livro).

 

O Arquipélago Gulag é um monumento forjado no calor da disputa política. Por isso, desde a década de 1970 se tornou prisioneiro de uma caricatura: ser visto apenas como “literatura anticomunista”. O próprio Soljenítsyn alertou: “Que largue o livro quem espera que ele seja uma denúncia política”. Lamentavelmente, ontem como hoje, parte do público fez ouvidos moucos à recomendação do autor. O texto do Opinião já revela um pouco disso. O jornal anuncia que fará uma “análise serena de uma obra tão polêmica”, buscando evitar controvérsias. Aparentemente, mesmo em 1974 já era preciso pisar em ovos para criticar ou elogiar o Arquipélago Gulag, sob o risco de ser confundido, respectivamente, com um sequaz do regime stalinista ou um anticomunista alucinado.

 

Obviamente, a repercussão do livro foi gigantesca na URSS. A agência oficial de notícias emitiu um comunicado afirmando: “Talvez o interesse no Arquipélago Gulag deva-se aos seus méritos literários? Claro que não. Os autores dos comentários sobre o livro nem mesmo mencionam isso. O novo panfleto político antissoviético foi enviado pelo sr. Soljenítsyn ao mundo como um presente de Ano Novo aos inimigos da mãe pátria”.

 

Soljenítsyn foi deportado e perdeu a cidadania russa. Em fevereiro de 1974, desembarcou em Frankfurt, na Alemanha Ocidental, e rumou para a minúscula vila de Langenbroich, no oeste do país, perto da fronteira com a Bélgica. Ele, a esposa, Natália, e três filhos foram hospedados alguns dias por Heinrich Böll, também vencedor do Nobel de Literatura. O vilarejo de pedra, cercado pela floresta e por rebanhos de ovelha, foi abarrotado por cerca de 250 jornalistas que cobriam a chegada do escritor no lado de cá da cortina de ferro.

 

Soljenítsyn passou um tempo na casa de Böll e foi morar em Zurique, na Suíça. Dois anos depois, em 1976, mudou-se novamente, agora para a área rural de Vermont, nos Estados Unidos. Viveu cercado por pinheiros e bétulas, como na Rússia. Dedicou os anos seguintes à criação de A roda vermelha, coleção de romances trágicos sobre a Revolução Russa. Curiosamente, Soljenítsyn copiava em Vermont a rotina da época em que escreveu o Arquipélago: isolava-se numa cabana nos fundos da propriedade e passava dias trabalhando. Um repórter que o visitou conta que o primeiro andar da cabana era praticamente uma “Igreja Ortodoxa privada”. De resto, apenas estantes com centenas de livros para consulta.

 

Políticos norte-americanos estavam ansiosos para capitalizar em cima da imagem de Soljenítsyn. No entanto, bastaram algumas aparições públicas – como, por exemplo, um pronunciamento ao Senado em julho de 1975 – para isso se mostrar impossível. Os princípios que norteavam a recusa de Soljenítsyn ao comunismo eram os mesmos que o faziam criticar a cultura ocidental materialista, secular, permeada pelo “liberalismo individualista”. Ele defendeu abertamente o ressurgimento da Rússia como um “Estado eslavo”, incorporando a Ucrânia e Belarus. Acreditava no excepcionalismo russo, país “nem ocidental nem asiático”, cuja unidade deveria se assentar na fé cristã ortodoxa – a “espinha dorsal do povo russo”.

 

A URSS caiu em 1991 e Soljenítsyn encerrou seu exílio três anos depois. De volta à terra natal em 1994, criticou pesadamente o governo “ocidentalizante” de Boris Iéltsin. Nos anos 2000, causou ainda mais polêmica com suas posições pró-Vladimir Putin. Nunca foi um apoiador “oficial” do presidente (que, reciprocamente, nunca renegou a memória da União Soviética), mas as posições eurasianas e pan-eslavistas de Putin combinavam mais com a visão de mundo de Soljenítsyn.

 

Assim, ao longo das décadas de 1980 e 1990, o entusiasmo inicial com o “Homero do mundo subterrâneo” foi sendo gradualmente substituído pelo ceticismo, pela indiferença e, para alguns, pela repulsa. No Brasil, por exemplo, uma das poucas reportagens que saíram após o frenesi do Arquipélago Gulag data de 1982, no jornal O Globo. No título, Soljenítsyn é caracterizado como “órfão de ideologias”.

 

Em 2008, quando o escritor faleceu, nada de grandes comoções. O historiador Ângelo Segrillo comentou em um artigo que ficou “impressionado com a pouca reverberação” da morte do outrora “cronista de confiança” do povo russo. “Alguns jornais no dia seguinte noticiaram o fato sem destaque. Soljenítsyn merecia mais”.

 

Como figura pública, o escritor foi vítima do seu nacionalismo “nostálgico”. Soljenítsyn era um homem deslocado do seu tempo. Até fisicamente ele se parece com alguém saído do século XIX. Na esteira de Tolstói, a obra de Soljenítsyn recupera e atualiza o realismo histórico russo, herdando também, inevitavelmente, parte de seu substrato filosófico, de seus predicamentos morais, de sua desconfiança em relação à modernidade ocidental. Como todo gigante literário daquele país, foi um misto de romancista e guia espiritual. Ou, como escreveu certa vez um de seus leitores, “para nós [russos] não é suficiente um escritor ser bom, ou até mesmo grande. Ele precisa ser alguém que possamos amar”.

 

Em 2010, dois anos após a morte de Soljenítsyn, a viúva Natália finalizou a edição resumida do Arquipélago Gulag, a pedido do próprio autor com o intuito de atrair mais leitores. Os três volumes originais foram reduzidos a um só, preservando a estrutura de capítulos da obra original de acordo com orientações de Soljenítsyn. Esta é a versão que a CARAMBAIA traz pela primeira vez ao público brasileiro, com tradução direta do original em russo feita por Lucas Simone, com Irineu Franco Perpetuo, Francisco de Araújo, Odomiro Fonseca e Rafael Bonavina.

 

Pietro Sant’Anna é historiador.