Tenho pensado muito sobre minha vida de leitora. As coisas que gosto e não gosto, os livros que sempre evitei, os livros trash que amo, os que abomino, os livros de menino do meu marido, os livros comunas da minha mãe, a quantidade assombrosa de livros lidos só porque meu irmão mandou, os que roubei do meu pai, os que roubei da minha mãe, os que roubei do ex-namorado, os que roubei pela vida (o Dr. Plínio, líder espiritual do meu bem torneado corpo jurídico, está aí para me defender dos processos por usucapião literário e dos pedidos de reintegração de posse). Tenho mexido neles todos, feito pilhas no criado-mudo, discutido sobre eles. Tenho pensado nos livros, todos ou quase todos, que passaram por mim. Tenho falado sobre eles. Escrito sobre eles. Escrever essa coluna sobre minha vida de leitora tem me feito vasculhar estantes, as minhas e as alheias, num frenesi muito do esquisito, durante o qual eu procuro... o quê? Sei lá (adoro dizer “sei lá”, acho uma graça).

Procurando sabe-se lá o que, cheguei aos meus volumes do O tempo e o vento. Os “para valer”, com a encadernação bonita. Comprei um sobressalente do volume 2 — que se chama O retrato — para andar na minha bolsa, porque não quero estragar minha bela coleção e, né, como vou enfrentar o mundo lá fora sem um Verissimo na bolsa?

Essa trilogia me é muito cara porque eu amo, ponto. Porque o Verissimo é o cara mais lindo do mundo. Porque li exatamente na dolorosa passagem entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta (de 19 para 20 anos). E porque essa trilogia foi uma lição importante para mim, a maior de todas: Fabia, você não está sempre certa, aliás, quase sempre você está errada. E tudo, tudo, tudo, pode mudar. Inclusive seu gosto por um livro.

Acontece que eu não gostava da Ana Terra. Sim, Ana Terra, a matriarca. Não, não é só que eu não gostava: eu odiava a Ana Terra. Ganhei o primeiro volume de O tempo e o vento aos 12 anos. Dado por uma mãe que não tinha nenhuma fé religiosa, cujas crenças políticas começavam a desbotar e que só acreditava, de coração, na salvação através da arte.

Detestei. Não entendi nada daquele começo, do Liroca na torre da igreja. Depois veio a parte dos padres, da Missão, aquilo tudo me cansava. E depois veio a pobre da Ana Terra, que virou o símbolo máximo de toda a opressão que eu, mártir, sofria nas mãos daquela mãe déspota e autoritária. Adolescentes, essas criaturinhas malas.

Quase uma década depois, o livro reapareceu na minha vida. E nunca mais fui capaz de deixá-lo de lado. Li a trilogia sem fôlego, siderada, semanas do mais profundo assombro, do mais intenso encantamento.

E o que foi que descobri de mais importante?

Que existe um negócio, uma instituição, na verdade, que se chama narrador.

É o narrador que nos apresenta ao livro. É ele que explica ou esconde a trama, que anuncia romances, que detalha tragédias. Ele nos dá as boas e as más notícias, ele nos comove, ou deveria. Aprendi isso lendo o narrador do Verissimo, que entrega o mundo psicológico da Ana Terra para o leitor, que a apresenta para nós. Seus gostos e seus medos, a secura e a doçura dos seus pensamentos, tudo que ela quer, tudo que ela teme, esse narrador nos mostra. No último livro da trilogia vamos entender os motivos do narrador, mas ainda no começo da trama, quando a Ana Terra se apresenta, nós nos comovemos com o gostar que o narrador nutre por todas aquelas pessoas. Pelo entendimento profundo que ele evidencia ter do universo deles. O narrador do Verissimo ama todas as personagens, mesmo as más, mesmo as que erram. E é tão lindo ver como ele ama a Ana e entende a Ana e o pai da Ana e a mãe dela. Esse narrador entende o lado de todo mundo e torce por todo mundo, sem ficar dividido ou ser dúbio em nenhum momento, porque o que ele mais conhece é aquela história e o que ele mais deseja é contá-la para nós. É um dos mais maravilhosos narradores da história da literatura.

O narrador do O tempo e o vento pega a todos, autor, personagens e leitores pela mão, e pela mão ele nos leva pra lá e pra cá, como um amigo que na hora da aflição ou da dor convida: “Vamos fumar lá fora?”. O narrador do Verissimo vive me levando para fumar lá fora.

Ele descreve os arredores da casa da família Terra e você quer mudar de vida. Já. “Por favor”, diz você para o narrador, “me leva para lá”. A rudeza do lugar só se equipara à beleza do lugar, os verdes do Verissimo me invadem desde sempre, as pedras, o riacho, a Ana lavando a roupa e cantando, a água limpinha, gelada, onde ela pode se olhar e se perguntar se é bonita, se é bonita, se é bonita. Nós nos encantamos pelas pessoas, por sua rudeza, pela coragem que cada um deles tem, por essa força de clã. O narrador nos informa que os Terra permanecem juntos, trabalham juntos, vivem aquela vida dura e incerta juntos e juntos cuidam uns dos outros, são bons uns para os outros, são maus uns para os outros.

Minha vida mudou quando me dei conta de que tudo isso me alcançava por obra e graça do narrador do Verissimo. Nunca mais deixei de procurar pelos narradores, nunca mais deixei de me interessar por eles.

E hoje, em dias incertos de escrita e vida civil, onde as coisas parecem que simplesmente não estão em lugar nenhum, fico aqui me perguntando se o que me falta não é um bom narrador, sólido, seguro, dono da história e gentil. Gentil comigo, principalmente.

“Naquela manhã ao acordar, Fabia sabia, antes mesmo de colocar os pés no chão, que tudo haveria de se resolver”.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com)

*Imagem: Danilo Paes