Sexta-feira. Vou ler esse aqui. Ótimo. Bem, a Verô disse que é ótimo. Capa bonita, bonita. Dedicatória fofa. A Verô garantiu que eu leio em dois, três dias. Livro de guerra, amo. A guerra alheia, de alguma forma, torna minhas batalhas gentis. Vou ajustar meu travesseiro chique e... na embalagem do travesseiro veio escrito que era “O travesseiro da NASA”. Juro. Pelo resto da vida útil do travesseiro hei de cantar a musiquinha de Star Wars enquanto me preparo para dormir (tãnã-nãããã-tãnãnã-tãnã-nãããã-tanãnã-nã-nã). Vamos lá, voltando. Introdução. Telefone. Quem? Não, não é daqui. Senhor, não é daqui, as linhas telefônicas da rua estão embaralhadas, tente outra vez. Água para o gato cinza. Introdução. Campainha. Farmácia. Travesseiro. Opa, capítulo 1. Checar a febre de Maliu. Maliu está respirando? Sim. Não. Mais ou menos. Senta, Maliu, vamos medir a temperatura. Quer medir, sim, como não quer? Tá. Vamos voltar para o capítulo 1. Sono. Sono. Sonzzzzzzz.

Dia. Cão-banho-café, a santíssima trindade do tradutor aguerrido, limpinho e que tem as coisinhas dele. Maliu tá respirando? Sim. Não. Mais ou menos. Senta, Maliu, vamos tomar boletas. Remédio amarelo. Remédio vermelho. Remédio da pressão. Vitaminas. Como não quer tomar o remédio? Maliu, quer tomar o remédio, sim. Trabalho. Trabalho. Leitura. Capítulo 1 no finalzinho, opa. Capítulo 2. Torta de ricota. Alô, Julia, socorro, quantas laudas faltam? Tá. Sono. Sono? Mas é nunca que eu acabo esse livro em três dias. Muito sono. Capítulo 3. O marido da moça do livro foi para a guerra. O amante também. Ela ficou sozinha. Olha, não tá fácil para ninguém, nem para a moça do livro.

Os dias, as horas, a necessidade do cão de percorrer a Joaquim Nabuco em busca do xixi perdido, o vizinho encrenqueiro, as intermináveis laudas do trabalho novo, o desespero miudinho se o tal trabalho novo não chega, a secadora fazendo um barulho esquisito, os amigos que chamam para um café (tão mais atraentes do que o travesseiro na NASA), a ida à costureira, o telefonema de duas horas com o amigo na França, a gata amarela que precisa de colo, a mãe (que não respira, não come direito e não quer voltar ao médico) e o amor – ah, até o amor – tudo conspira contra a vida do leitor.

A vida real, com suas pequenas birras de menina mimada, as demandas inacreditáveis, a angústia sem nome, o choro sem som da sua mãe porque o Leandro Konder morreu e todo aquele monte de coisas incríveis e detestáveis, fofas e amargas, gentis e tolas que tornam a vida tão boa, tão ruim, tão chata, tão enorme, afasta o leitor de sua primordial função: ler. Na rede, com a cabeça encostada no travesseiro da NASA, no metrô, na sala de espera.

E, ao mesmo tempo, não deveria ser assim.

Não deveria.

Que leitora marca barbante sou eu que qualquer dorzinha existencial, qualquer filisteu de olhos cinzentos acenando com um café serve para me afastar da moça, da guerra, da escolha, da catarse apoteótica da página 326?

Que leitora sou eu, sem caráter e nem força de vontade, apaixonada por um vídeo de gatinhos na internet, que larga a moça sozinha e infeliz num quarto de hotel, escrevendo para o amante que não vai voltar, enquanto o marido, que ela já não ama, dorme numa barraca, ouvindo a artilharia?

Ninguém disse que seria fácil essa vida de leitor. Ninguém prometeu o céu, unicórnios e silenciosos dias de 36 horas para que nós pudéssemos ler o novo Umberto Eco esparramados na namoradeira, pés apoiados no banquinho de Bali.

Ser leitor significa dormir menos para acabar o capítulo, se preciso. Perder a estação para não interromper a cena de batalha no meio. Deixar de ver o episódio da série de zumbis para descobrir com quem o mocinho vai ficar, afinal, para descobrir se o mago morreu ou não.

Numa semana confusa, sem tempo para quase nada, você acaba sim a leitura do livro-da-Verô em três dias e descobre do que você é feito: de nanquim, papel de trapos, douração na lombada à francesa e aço. Ora bolas.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).