Entrevista com Nathalia Cury e Alexandre Lindenberg, do Estúdio Margem, e com a fotógrafa Elizabeth Lee

 

“O objetivo desta obra”, diz o escritor Herman Melville, já no primeiro parágrafo de Jaqueta Branca, “é dar uma ideia da vida no interior de um navio de guerra. ”  Melville cumpriu a tarefa: seu livro, de mais de quatrocentas páginas, relata minuciosamente a história de um marinheiro que viaja de Honolulu até Boston a bordo de uma fragata – um tipo de embarcação de guerra – durante mais de um ano. O protagonista foi apelidado de Jaqueta Branca por causa da peça de roupa que ele sempre usava e ele mesmo confeccionou.

 

Em harmonia com a pretensão do autor, a ideia era que o projeto gráfico do livro também ilustrasse as experiências do marinheiro Jaqueta Branca em alto-mar. Esse foi, portanto, o desafio lançado ao Estúdio Margem, convidado para elaborar o design do segundo lançamento da CARAMBAIA de 2017: interpretar, em termos visuais, a oceânica obra de Melville, dando vida ao personagem que estava sempre rodeado pela água salgada – estivesse ela envolvendo o exterior do navio, estivesse ela adentrando os poros da sua jaqueta que nunca secava.

 

Formado pelos designers gráficos Nathalia Cury e Alexandre Lindenberg, arquitetos graduados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, O Estúdio Margem mergulhou nas águas de Jaqueta Branca e deu conta do recado. Da capa ao miolo, o projeto gráfico baseou-se no conceito de viagem marítima e atentou especialmente para o movimento de ondulação do mar.

 

Inicialmente, Nathalia e Alexandre estudaram métodos de impressão que pudessem se relacionar com o universo da obra. Após testar várias possibilidades, decidiram-se por uma técnica bastante trabalhosa e unusual na edição de livros: a cianotipia, que possui a água como elemento chave.

 

Responsável pelo tom de azul profundo da capa de Jaqueta Branca, a técnica consiste na junção de duas soluções químicas, uma feita com citrato férrico amoniacal e a outra com ferricianeto de potássio. A mistura deve revestir o papel em que se deseja obter o efeito, que será então colocado para secar em lugar escuro; após a secagem, este papel é exposto à luz ultravioleta com certos objetos sobrepostos de modo a formar o desenho desejado, adquirindo assim a coloração azul e branca.

 

A escolha pela cianotipia foi corajosa: além do processo ser manual, os componentes químicos necessários para a técnica não seriam fáceis de serem encontrados em grande quantidade. Foi assim que, entre as tentativas de design para a capa e a busca pelos kits de químicos, a dupla chegou até a fotógrafa Elizabeth Lee. Ela se interessou pelo projeto e embarcou com o Estúdio Margem na produção gráfica de Jaqueta Branca.

 

“Usar a cianotipia para impressão das mil capas manualmente nos pareceu uma ideia muito maluca a princípio”, conta a designer Nathalia Cury; “o processo seria demorado, precisaríamos de um ateliê com infraestrutura e, além disso, teríamos que tocar outras demandas gráficas ao mesmo tempo. A melhor solução seria procurar alguém que dominasse essa técnica e topasse esse trabalho antes de apresentar um projeto tão ousado para os editores da CARAMBAIA. Achamos algumas pessoas, mas todos pareciam se assustar com a ideia, pois a cianotipia geralmente é usada para replicar poucas cópias. Foi então que eu me lembrei da Elizabeth. Ela respondeu com muito interesse, tinha achado o projeto lindo e topou! ”

 

Fotógrafa desde 1999, Elizabeth Lee desenvolve técnicas manuais para produção de imagem e dá aulas sobre o processo da cianotipia. Ela conta que “muitas vezes, as pessoas não conseguiam praticar a cianotipia porque precisavam fazer uma compra de produtos químicos que sempre se tornava inviável pela quantidade mínima que as empresas vendem. Resolvi, então, montar esses kits e vender. ”

 

Nathalia, Alexandre e Elizabeth bateram um papo com o blog da CARAMBAIA. Na entrevista transcrita a seguir, saiba mais sobre a parceria entre os designers e a fotógrafa, a técnica da cianotipia e as influências artísticas que orientaram o trabalho.

 

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CARAMBAIA: A história desse livro gira em torno de uma aventura marítima. Como foi o processo para incluir elementos desse cenário na arte gráfica, mais especificamente na elaboração do desenho da capa?

Estúdio Margem: Baseamos todo o projeto no conceito da viagem no mar – mais especificamente, na ondulação marítima. Outro gancho também foi o fato do personagem Jaqueta Branca passar por diversos problemas com o casaco que ele mesmo confecciona. O casaco vive encharcado de água. 

Inicialmente, para criar alguma textura, tentamos emulsionar o papel com diferentes pincéis. Tentamos também revelar com sobreposição de gaze e fios finos de tecido em forma de ondas, mas, ainda assim, queríamos mais contrastes e texturas diferentes. Pensamos que o papel vegetal daria uma boa translucidez e, por existir diversas gramaturas, poderia gerar texturas interessantes. Com o processo dando certo, começamos a incluir até sacolinhas de supermercado transparentes. Por serem bem finas, criaram um outro tipo de “onda” mais sutil na capa.

Esses papéis amassados seriam nossas matrizes. Geraríamos oito matrizes diferentes, mas cada capa acabaria tendo uma personalidade, pois todas teriam que ser executadas manualmente. Dependendo do tempo de exposição à luz e de como a emulsão (o kit de químicos) é passada, as capas seriam sempre um pouco diferentes.

Depois de solucionado o conceito e o processo da capa, pensamos como completaríamos o projeto do miolo, visando o projeto como um todo. Para nós, era importante passar essa sensação de ondulação da água do mar também para o miolo. Outro ponto importante era que o texto tivesse a mesma cor do azul profundo da capa. Pensamos, então, em travar as linhas dos parágrafos para que o bloco de texto nunca se separasse. Dessa forma, o livro criaria uma ondulação natural, dependendo do tamanho dos parágrafos que caberiam em cada página.

 

CARAMBAIA: A fotografia tem um papel importante como registro histórico. A obra se encontra também em um contexto histórico, retratando a realidade dos navios de guerra americanos no século XIX. A escolha do processo da cianotipia tem alguma relação com essa importância documental?

Estúdio Margem: Sim, pensamos nessa relação. A cianotipia, descrita em 1842 pelo seu inventor, Sir John Herschel, foi um dos primeiros processos de impressão fotográfica em papel. Durante a segunda metade do século XIX, enquanto os processos de impressão fotomecânica ainda estavam surgindo, a impressão fotográfica por contato foi usada para reproduzir mapas em baixas tiragens.

Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865), ambos os lados no conflito faziam cópias fotográficas rápidas dos mapas pela impressão do contato. A ideia de que mapas e, possivelmente, até cartas náuticas, eram duplicados dessa maneira em uma época muito próxima aos relatos de Melville, fez tudo parecer se encaixar.

 

CARAMBAIA: Elizabeth, sua pesquisa está também relacionada aos processos históricos. Para você, qual a importância da fotografia, desde seus processos manuais e analógicos?

Elizabeth Lee: Para mim, a fotografia é o que complementa a realidade. As técnicas tradicionais de fotografia envolvem o manuseio de materiais sensíveis à luz. O que acho mais poético na fotografia é justamente essa reação da matéria, capaz de formar uma imagem que pode despertar algum sentimento, sentido ou memória. Tratando-se de processos manuais, essa é a relação mais importante que considero.

A formação da imagem, a construção de câmeras e a compreensão de como a química fotográfica funciona me fazem pensar na produção da imagem de uma forma distinta do que seria somente se eu a obtivesse apenas ao apertar um botão. A relação com o tempo e com a própria forma de enxergar a imagem se altera. 

A fotografia nos mostra e nos lembra de algo que existiu, e o mais importante é que ela pode deixar registrado os fatos para que não esqueçamos de questões sobre nós mesmos, tanto sobre a nossa identidade quanto sociologicamente. Muitas vezes, só podemos provar nossa existência a partir de nossas fotografias.

 

CARAMBAIA: Elizabeth, como se dá a construção de ferramentas para a realização destes processos analógicos?

Elizabeth Lee: Na minha área de pesquisa, acaba-se fazendo necessária a produção de boa parte dos equipamentos e acessórios. Ou mandamos fazer, ou aprendemos a fazer.

Muitas vezes não é algo complicado de montar e me parece mais difícil explicar do que eu mesma tentar produzir uma mesa de luz ou uma câmera. Meu pai sempre montava os acessórios que precisava por não encontrar no mercado algo já pronto, então quando precisei montar estruturas para fotografia resolvi me arriscar a fazer o mesmo, uma vez que eu sempre fui curiosa demais e gosto muito de ferramentas.  Na área de processos alternativos, quase todo fotógrafo é induzido a montar algo para realizar uma determinada técnica.

 

CARAMBAIA: Como funcionou o processo de parceria criativa entre vocês, designers e fotógrafa?

Estúdio Margem: Antes de fazer a capa para valer, passamos vários dias no estúdio da Beth fazendo testes juntos de tempo de exposição, sentindo como papel iria se comportar depois de seco e amassando os papéis vegetais para criarmos oito versões bem diversas de capas. O processo requer grande dose de paciência, mas a Elizabeth foi sempre muito tranquila e muito parceira, mesmo com um prazo de apenas um mês para realizar as mil capas!

 

CARAMBAIA: E, como dupla (Estúdio Margem), como se dá a dinâmica entre vocês? Existe alguma metodologia? Quais são as referências dentro do design gráfico, das artes e da arquitetura que conversam com o trabalho do Estúdio? Quais são as referências, especificamente, para o livro Jaqueta Branca

Estúdio Margem: Nós nos conhecemos na faculdade de arquitetura da USP, fazíamos trabalhos juntos e fundamos o estúdio há mais de três anos. Já temos uma dinâmica muito fluída, trabalhamos lado a lado, os arquivos sempre trocam de mãos e muitas vezes produzimos os dois no mesmo computador.

Para esse livro, combinamos um prazo para lermos o texto em inglês que recebemos dos editores e discutir os conceitos que gostaríamos de trazer para o projeto. Também demos um tempo para cada um buscar referências. Nós vamos salvando em uma pasta compartilhada e depois olhamos juntos e conversamos.

 

Nossas referências estão muito ligadas ao design da Bauhaus, Escola de Ulm e à Escola Suíça, como Josef Muller Brockman, e também aos brasileiros Aloísio Magalhães e Alexandre Wollner. Além disso, trabalhamos muito com tipografia e estamos sempre pesquisando sobre. Também somos muito ligados às técnicas de impressão. O trabalho final de graduação do Alexandre foi desenhar uma família tipográfica que depois foi cortada manualmente na madeira e impressa em prelo tipográfico. Eu pesquisei e fiz experimentos com tipos móveis, serigrafia e risografia. Há dois anos, ganhamos uma bolsa para estudar técnicas de impressão em Londres, e foi aí que conhecemos a cianotipia.

 

Especificamente para Jaqueta Branca, em termos de referência, olhamos bastante os cartazes do concurso Kieler Woche, uma competição anual de vela que se tornou uma das mais prestigiadas competições europeias de design, e foi marco crucial na carreira de muitos designers como Wim Crouwel e o Brockmann.

 

Também passamos pela pesquisa das técnicas que envolviam água. Além da cianotipia, passamos pelo suminagashi japonês, tye dye, intervenção com água na impressão offset e um método de separação de misturas de cor pela água, chamado cromatografia.

 

CARAMBAIA: Qual a procedência da imagem da fragata que encontramos no interior do livro? Como chegaram até ela? 

Estúdio Margem: A Graziella Beting, editora da CARAMBAIA, que a encontrou e nos perguntou se gostaríamos de usar. Achamos muito pertinente que a imagem entrasse. Ela diz muito sobre a época, possui texturas e manchas que também trazem a ideia de documento histórico e replicação manual.

 

CARAMBAIA: Como foi receber o convite para a realização deste trabalho?

Estúdio Margem: Ficamos muito felizes em sermos chamados para o projeto. Já conhecíamos o trabalho e os livros lindos que a CARAMBAIA estava fazendo, e após o fechamento da Cosac Naify, foi muito bom ver uma editora preocupada em trazer textos interessantes em forma de livros tão bem pensados graficamente e produzidos de forma primorosa.

 

Assista abaixo como se deu o processo de cianotipia nas capas de "Jaqueta Branca", de Herman Melville: