Existe o cenário perfeito para a leitura? Existe. Está no Pinterest. Ou no Tumblr. Você vai esbarrar em centenas de imagens, mas, se olhar bem, pode perceber os denominadores comuns. Parece haver um consenso de que o ideal é ler ao ar livre. O sol incide de leve, nada que atrapalhe o virar das páginas. Você supõe (com razão, é claro) que o clima esteja fresco e agradável. Há um ninho fofo de almofadas e mantas, e ali, jogado displicentemente, como se tivesse acabado de ser abandonado, está o livro. Ao lado do ninho, um copo de bebida gelada. Perfeito.

Mas é preciso entender que há uma ameaça invisível nessa imagem de sonho — uma ameaça que ficará evidente quando você for transportado àquele cenário. Ela dará o bote quando você estiver concentrado na leitura. Quando você estiver vulnerável. Suscetível. E será tarde demais.

Então imagine que você está lá, no cenário ideal. Algumas árvores, uns arbustos, a relva macia — porque nesses cenários idílicos não há gramado, somente relva. Os galhos e folhas farfalham — porque nesses cenários idílicos os galhos e folhas não balançam, apenas farfalham. Você pode sentir uma leve brisa no rosto, e também o perfume das flores. Pode ouvir os pássaros chilrendo — porque nesses cenários idílicos os pássaros não cantam e não piam, apenas chilreiam. Se não for pedir demais, ouça também o som de um riacho — jamais um arroio, nunca um açude, porque nesses cenários idílicos há sobretudo riachos. Agora vêm as variáveis. Escolha um livro (Adalbert Stifter, que eu queria muito conhecer). Escolha um lugar para deitar (rede). Escolha uma bebida (chá gelado). Por fim, escolha uma comida, que estará bem segura em um cesto (nachos com guacamole).

Por que esse maldito cesto, afinal? Quem colocou o cesto aí?

Pense.

Você já sabe a resposta. O cesto é uma defesa contra eles. Sim, eles. Os Pequenos Emissários do Capiroto na Terra. Não importa quão idílico seja um cenário: escapar deles é impossível.

Você está lendo seu livro. (Pior para você se for A Metamorfose, já vou avisando.) De repente, possivelmente na passagem mais eletrizante do romance — porque os Pequenos Emissários do Capiroto na Terra (a) desconhecem limites e (b) têm um sexto sentido para farejar o pior momento para dar as caras —, o ataque surpresa. Ele chega com um ruído sutil. Um “plec” na página. E então lá está o besourão infernal caminhando de um lado para o outro do parágrafo sobre o qual, um milésimo de segundo atrás, seu olhar também deslizava.

Se você for como eu, vai, ao mesmo tempo, (a) jogar o livro longe (b) berrar (c) cair da rede. Em seguida, vai sair correndo, tropeçar, levantar, correr mais um pouco. Se a cena pudesse ser vista em câmera lenta e sem som, você estaria agitando os braços freneticamente, com a boca aberta e uma expressão do mais puro terror estampada no rosto. Você corre para salvar sua vida. Porque, na sua cabeça, você realmente está salvando.

Mesmo que você não tenha medo, você certamente se sente incomodado por abelhas, moscas, aranhas, mosquitos, vespas, cigarras, joaninhas, lagartas, libélulas, grilos, formigas, cigarras, besouros (especial horror pelos que se embolam nos cabelos), aranhas (especial horror pelas que pulam), centopeias (especial horror), todos os Pequenos Emissários do Capiroto na Terra. Eles e sua incrível capacidade de despencar na sua página, de voar direto para o seu olho, de surgir na sua visão periférica com um sorriso malévolo.

Você está no idílio. Mas a imersão na leitura é impossível. Ao redor, eles rastejam, voam, caminham, saltam. Espreitam. Conspiram. Salivam e esfregam as patas e/ou as antenas de expectativa.

Você decide ler Moby Dick. Ótima escolha. Deus do céu, Moby Dick apareceu do nada, a batalha pode ter início a qualquer momento, agora vai, Ahab!, veja só a baleia branca, Ishmael, cuid — PÁÁÁÁÁÁÁÁ, salta uma aranhinha de uma fibra da manta diretamente para a sua cara. Você se estapeia, cai na relva, se contorce e choraminga, bufa, sai engatinhando e grunhindo. Sabe que a concentração se perdeu. A rede que foi o lugar do seu descanso agora é o lugar do seu trauma.

O que é a pobre e indefesa Moby Dick perto de uma monstruosa aranhinha?

Você não precisa ler no seio de uma floresta tropical para sofrer com isso. Basta colocar uma cadeira de praia debaixo de uma árvore no verão. Você está com o livro aberto na frente da cara, e você nem desconfia que há mais um par de olhos grudado na página, alguém no seu ombro, não um papagaio de pirata, mas, horror dos horrores, um louva-a-deus de pirata.

Brás Cubas estava certo. Ele dedicou o livro para quem realmente incomoda. Grande Machado de Assis.

Não é frescura. É autopreservação. Quando os Pequenos Emissários do Capiroto vierem novamente, estarei preparada. Vou ler numa bolha.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.