Descoberta do escritor argelino definiu escolhas de jornalista e crítico literário

 

Por Paulo Jebaili

 

O jornalista Manuel da Costa Pinto chegou a Albert Camus por meio de uma biografia escrita pelo sociólogo argentino Horacio González. Ao mesmo tempo em que descobriu o gosto pelo texto crítico, aproximou-se de um escritor que definiria alguns de seus rumos profissionais. Manuel é autor de Albert Camus – Um Elogio do Ensaio (Ateliê), além de organizador e tradutor de A Inteligência e o Cadafalso e outros ensaios, de Albert Camus (Record). Mestre em teoria literária pela USP, Manuel é repórter, comentarista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura. É colunista da revista sãopaulo e editor do Guia Folha, do jornal Folha de S.Paulo. Foi curador da 9ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2011, e curador da programação literária da Feira do Livro de Frankfurt de 2013, ano que o Brasil foi o país homenageado. No escritório apinhado de livros do chão ao teto, em sua casa, em São Paulo, ele recordou episódios que marcaram sua relação com a literatura.

 

Qual a sua primeira lembrança que envolve livros?

MCP: As primeiras memórias são muito ligadas a livros por razões familiares. Minha mãe fez Letras e me levava para a faculdade, ela é tradutora para o italiano. E meu pai é psiquiatra, sempre teve muitos livros. Agora, lembrança dos primeiros livros, tem um que eu adoraria que alguém me dissesse qual é. Eu tenho as imagens de um livro ilustrado com um desenho muito bonito, com bico de pena, uma história infantil francesa, que eu não sei qual é, é uma espécie de Rosebud da minha vida. Um dia talvez eu descubra e vou ficar muito emocionado. Depois, como 99% dos brasileiros, eu lembro muito de Monteiro Lobato, que não é um escritor que me apaixonou. A minha leitura apaixonante quando eu era moleque era Asterix. É um quadrinho extremamente literário, cheio de referências à cultura. Eu já li cada álbum do Asterix dezenas de vezes. Eu só respeito Asterix até a morte do (René) Goscinny. Eram o Goscinny e o (Albert) Uderzo. O Goscinny morreu prematuramente, quando eu ainda era criança, e ele era quem escrevia as histórias. O Uderzo continuou fazendo e desvirtuou Asterix. Tanto que nos últimos 30 anos é uma porcaria. O desenho é o mesmo, mas as histórias funcionam de Asterix, o Gaulês até Asterix entre os belgas, que tem uma batalha em que o texto é do Victor Hugo. Tinha referências à literatura grega o tempo todo. Era um quadrinho, que tem um lado infantil, de identificação com o herói, o humor, mas também é uma coisa para adulto. Afinal, Asterix é uma grande metáfora da resistência da França na Segunda Guerra Mundial. É a França ocupada pelos nazistas e uns poucos resistindo, metaforizados por esses gauleses que resistem aos romanos. Asterix foi para mim um salto de uma coisa ingênua para “tem uma outra coisa aqui”. Até hoje eu descubro coisas novas.

 

Como Asterix chegou a você?

MCP: Eu ganhei. Foi uma coisa familiar, mas não me lembro exatamente como chegou à minha mão. Depois, tirando a leitura obrigatória da escola, todo mundo lê O gênio do crime (de João Carlos Marinho). Foi o primeiro livro que eu reli na vida. Eu li na escola porque fazia parte do currículo, você lê um monte de livros que não necessariamente vão te cativar, mas eu gostei tanto de O gênio do crime que o reli.

 

E você escolhendo os títulos, data de quando?

MCP: Dos 13, 14 anos. Eu comecei a ter duas paixões simultâneas: música e literatura, que estão muito conectadas, pelo transporte que ambas têm. Transporte do tempo, do espaço pela imaginação, que eu acho que é uma característica de quando o leitor descobre a literatura. Depois, principalmente se você trabalha com isso, acaba tendo uma leitura menos fantasiosa. Eu fazia relações entre a música do século XVII, música barroca, adorava ficar ouvindo Scarlatti e Vivaldi, e “o que tem a ver com isso na literatura?”. E o primeiro livro que eu li foi uma edição brasileira de O corsário negro, do Emilio Salgari, um escritor italiano de livros de aventura. Na época, nem ficou gravado na minha memória o nome do Salgari. Para mim, era simplesmente o autor de um livro da coleção da Abril, que tinha uma corujinha, eram adaptações. Li O conde de Monte Cristo, um monte de livro do Júlio Verne. Eram versões facilitadas, muito bem feitas, capas duras, com ilustrações. Meu padrasto me deu O corsário negro e aquela aventura me tomou. Aí comecei a gostar de literatura e a ler livros que não estavam no currículo escolar.

 

Como era sua relação com os livros da escola?

MCP: Sempre me desagradou muito o tipo de livro que me davam na escola. Até hoje acho errado. Poucos livros tiveram importância, quer dizer, têm importância como formação, mas como leitor não tiveram nenhuma. Ler José de Alencar aos 14 anos não cultiva um leitor. Quando li Memórias póstumas de Brás Cubas, aí sim, embora muitas vezes seja difícil a linguagem do Machado de Assis, exige um leitor mais obstinado, que saiba perceber esses diferentes registros do português. Mas eu já tinha isso e aproveitei muito a leitura. Eu ficava revoltado por não ter Clarice Lispector no currículo escolar. Hoje sei que caem autores vivos no vestibular, Milton Hatoum, Marçal Aquino. Na época que eu fiz colégio, ia no máximo até Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Clarice, que morreu nos anos 70, não teve na minha escola. Acho lamentável, porque a leitura contemporânea, para o leitor que ainda não aprendeu a ter esse apreço pela imaginação, pela alteridade radical que a literatura propõe, a literatura contemporânea e brasileira diz muito mais sobre a realidade, traduz muito mais ansiedades, angústias, esperanças, dramas do presente do que uma literatura do século XIX. Se você ainda não é um leitor, é muito mais fácil ser tomado por um livro do Fernando Bonassi do que por um do Alcântara Machado. Depois, você pode até achar que o Alcântara Machado é um antecessor direto do Fernando Bonassi. Mas você não chega a isso sem que tenha despertado em você a empatia, esse sentimento de que a literatura traduz o que você pensa, sente, os seus problemas, o que te representa. A literatura do passado nos representa, mas para entender por que ela nos representa, por que ela é universal, é preciso ter aprendido certas mediações que são difíceis ter quando você é um leitor iniciante.

 

Houve um autor ou obra que descortinou o universo da literatura, a dimensão que ele tinha?

MCP: Sem dúvida. A coisa mais importante foi a descoberta de dois autores, e continua sendo, porque inclusive marcam o meu trabalho. Dostoievski e (Albert) Camus. Não casualmente dois autores que são ligados, porque o Camus era um grande leitor de Dostoievski e fez a adaptação teatral de Os demônios, a peça Os possessos. Eu passei a ser um estudioso da obra do Camus. Meu pai me deu duas coisas muito importantes: uma coleção das obras do Freud e uma coleção das obras do Dostoievski, edição da José Olympio dos anos 50/60, que era uma preciosidade: prefácios do Otto Maria Carpeaux, Brito Broca, que eram grandes ensaístas, e ilustrações de gente como Oswaldo Goeldi, representando Raskolnikov. Uma edição incrível que fazia você penetrar naquele universo. Uma paixão que dura até hoje. O maior escritor que já li até hoje foi Dostoievski. Tudo o que eu li depois pode chegar perto, mas não chega ao mesmo patamar de densidade literário-existencial. Nesse ínterim, descobri o Camus de uma maneira meio fortuita. Tinha uma coleção chamada Encanto radical, da editora Brasiliense, que era de biografias. E eu li a do Camus, escrita por Horacio González, um grande sociólogo argentino. Nesse tempo, ele estava exilado aqui e dava aula na Escola de Sociologia e Política. Ele escreveu essa biografia literária do Camus deliciosa, pequena, sintética e magistralmente bem escrita. Esse livro definiu, de certa maneira, um traço da minha personalidade profissional. Eu cheguei ao Camus por um crítico. Aprendi a gostar muito de texto crítico a partir daí. Fiz minha tese de mestrado sobre Camus, traduzi livro do Camus, tenho um livro de ensaios sobre ele, participei de colóquios internacionais e nacionais, eu cheguei a ir para a Argélia por causa do Camus, escrevo sempre sobre ele. O maior autor para mim é Dostoievski e o autor com o qual eu mais me identifico é Camus.

 

O que te atrai especialmente em Camus?

MCP: Há tantas razões para você se identificar com um escritor e todas elas legítimas. Para mim, a literatura que mais interessou é a que tem uma densidade existencial, uma literatura que tem questões. Por exemplo, não tem autor que eu admire mais, do ponto de vista estético, do que (Marcel) Proust. Acho que foi o mais genial que existiu nesse aspecto, talvez Dante Alighieri na poesia, guardados os 600 anos entre um e outro. Embora um autor dessa envergadura do Proust esteja carregado de questões existenciais, não dá para comparar com o que encontro em Dostoievski, em que essas questões são muito mais pungentes, mais frontais, tem uma ideia da verticalidade trágica do homem, que é uma coisa que me agrada. E a partir de Dostoievski, passei a buscar isso em outros autores, e o autor em que eu mais encontrei isso depois de Dostoievski é Camus. Ele não é um discípulo de Dostoievski, digamos assim, mas trabalha questões dostoievskianas de uma maneira muito própria. A gente pode ver uma relação entre Crime e castigo e O estrangeiro. E uma relação muito mais profunda entre Memórias do subsolo e A queda, que é o livro de que eu mais gosto do Camus, porque tem essa densidade existencial-reflexiva que sempre me encantou e que eu busco em geral em outros autores.

 

Até que ponto o gosto pela literatura influenciou na sua escolha pelo jornalismo?

MCP: Totalmente, porque eu queria trabalhar com literatura e não queria ser professor.

 

Isso ficou claro logo?

MCP: De cara. Eu queria ser jornalista para trabalhar com literatura. Nunca me ocorreu trabalhar com economia, política ou outras editorias. Eu gosto de política internacional, adoro futebol, mas optei pelo jornalismo para trabalhar com literatura.

 

Com um pensamento assim em meados dos anos 80, você não teve receio de restringir a sua entrada no mercado de trabalho?

MCP: Tive. Mas eu tive sorte também, porque o plano deu certo. Ao longo da faculdade eu trabalhei muito com literatura. Fiz parte de uma turma em que muita gente foi trabalhar em jornais também. A gente conversava muito sobre literatura e muitos amigos que foram para jornais sabiam dessa minha relação com a literatura e isso criou um ambiente favorável. Quando eu estava na faculdade, pensava: “Quero fazer pós-graduação, em vez de ir para uma redação”. Não fiz isso por uma circunstância pessoal. Eu casei. Para casar, eu precisava trabalhar. Eu trabalhava uma parte do dia e na outra fazia pós. Ao fazer pós-graduação em Letras, em Teoria literária e Literatura comparada, conheci o professor João Alexandre Barbosa, um grande crítico literário. Ele me convidou para trabalhar com ele na editora da USP, a Edusp. A gente começou a fazer um jornal de literatura, chamado Caderno de leitura. O que eu queria, que era ser um jornalista da área de literatura, esbocei com ele ali numa editora. Quando acabou a gestão dele, ele saiu e eu fui trabalhar no jornal da USP, em 93, começo de 94. A Folha de S. Paulo abriu um concurso para o caderno Mais e eu passei. Saí de lá para acabar o meu mestrado sobre Camus, criei a revista Cult e fiquei nela 6 anos. Acabei enveredando por aí.

 

A sua atividade profissional demanda muita leitura. Há ainda espaço para a leitura só de fruição? Muda o olhar?

MCP: Muda totalmente, mesmo quando estou lendo um livro por fruição, eu estou com um lápis na mão, porque sempre tem alguma coisa que vou anotar, faço marcas, coloco post-it, “ah isso aqui é legal, eu posso usar quando estiver falando de tal coisa”. Não consigo mais só pensar na fruição, mas ela existe, sim. O que eu faço muito é juntar as duas coisas. Sou editor do Guia da Folha, então, posso escolher o livro para os outros resenharem e aquilo que eu quero resenhar. Como colunista, também posso escolher o tema que vou abordar. Uno o útil ao agradável. Ler não só pela fruição, mas por um interesse pessoal, “eu nunca li tal autor” é cada vez mais raro. Ler para suprir uma lacuna. Vou dar um exemplo: há alguns anos, eu fui ler pela primeira vez o (J.M.) Coetzee. Eu sempre fui muito ruim de literatura anglo-saxã, não conheço bem, alguns autores eu li a vida toda, mas não sou um conhecedor, principalmente da contemporânea. E falavam muito de dois autores para mim: o Philip Roth, que é nova-iorquino, e o Coetzee, sul-africano que ganhou o prêmio Nobel. Eu gosto do Roth, mas não excepcionalmente, agora, o Coetzee foi uma das maiores descobertas da minha vida como leitor. E foi um autor que li só pelo prazer de ler. Quando falo em suprir uma lacuna dá a impressão de que é instrumentalizar a literatura. Não. É suprir uma lacuna prazerosamente. Eu também tenho uma lacuna de mitologia védica, mas essa eu não vou suprir nunca porque não tenho o menor interesse. É uma lacuna e vai continuar sendo uma lacuna. Depois, acabei escrevendo sobre o Coetzee profissionalmente, numa reedição de um livro dele. As coisas se juntam, é difícil distinguir a leitura profissional da leitura por prazer.

 

Você costuma reler livros?

MCP: Muito. O autor que eu mais reli na vida foi o Camus, mas aí porque eu o li obsessivamente, fiz mestrado sobre ele, e continuo relendo. Outro dia reli A queda, pelo prazer de ler. Há 4 anos, fui para Orã, na Argélia, onde se passa A peste. Levei o livro e fiquei relendo lá.

 

Você administra bem a questão dos prazos para entregar um texto, uma resenha? Isso interfere na sua leitura?

MCP: Eu administro bem. Desde 2003 eu faço coluna semanal na Folha – agora é quinzenal – mas eu passei anos e anos tendo de entregar uma coluna por semana. Eu sempre administrei bem o tempo de leitura, se tivesse de varar a noite, eu varava. Às vezes, a Folha me pede coisas, fora da coluna, com urgência. A última vez, quando saiu o livro da Fernanda Torres, eles receberam as provas na terça e eu tinha de entregar o texto na quinta. Eu passei um dia e meio lendo o livro, inteiro, está todo anotado, sentei e escrevi. Tive de fazer uma leitura rápida e já pensando no que ia escrever. Você se habitua.

 

Você lê em qualquer circunstância ou tem algum ritual?

MCP: Eu prefiro ler em casa, deitado na cama, no sofá, mas eu consigo ler numa sala de embarque, em restaurante. Eu viajo muito sozinho e se tem um momento chato é na hora do almoço ou do jantar. Hoje, as pessoas pegam o celular e ficam lendo mensagem, eu não tenho muito saco, posso até ficar fazendo isso, mas eu sempre levo um livro, que é a minha companhia principal em restaurantes.