Danilo José Zioni Ferretti, professor da Universidade Federal de São João del Rei (MG), indica cinco livros sobre escravidão.

 

1. As vítimas-algozes, de Joaquim Manuel de Macedo.

Publicado no Rio de Janeiro, em 1869, no contexto do debate sobre a Llei do Ventre Livre, o livro foi uma iniciativa do mais popular romancista brasileiro do período, e também político do partido liberal, para convencer a elite escravista da necessidade de pôr um fim à escravidão. Ele conta as traições de um escravo doméstico, os malefícios de um feiticeiro negro e as influências imorais de uma mucama sobre sua jovem senhora branca. Em vez da compaixão, Macedo adotou estratégia narrativa original, buscando estimular em seus leitores o medo aos escravizados, visto como um móvel mais eficaz à mudança. Daí a ambientação lúgubre e a apresentação de figuras de escravos que parecem saídos de um romance gótico.

 

2. Benito Cereno, de Herman Melville. 

Nos confins da costa chilena, em 1799, um barco caça-focas vindo dos EUA encontra um velho navio negreiro espanhol à deriva. Aparentemente avariado, o San Dominick ainda contava com sua tripulação e muitos escravos, em insólitas relações. De forma sutil, o livro explora os efeitos dos preconceitos do capitão estadunidense e o quanto eles impediam que percebesse a realidade das relações entre livres e escravizados. Publicado pelo autor de Moby-Dick, em 1855, nos Estados Unidos imediatamente anterior à guerra civil, o livro aborda, com ironia e tensão, os temores da rebelião escrava e a importância das mediações simbólicas, do ver claro e das máscaras, quando muito se discutia sobre a realidade da escravidão.

 

3. A vida e a época de Frederick Douglass - escritas por ele mesmo, de Frederick Douglass.

Nos EUA, ao longo do séc. XIX, a principal modalidade de escrita da escravidão não eram romances, mas os relatos escravos. Surgidos na Inglaterra de meados do séc XVIII, eles não eram obras de ficção escritas por autores que tinham uma vivência distanciada da escravidão, mas testemunhos, no geral escritos em primeira pessoa por ex-escravizados, sobre a vida no cativeiro e sua libertação. Publicado em 1892, esse relato, um best-seller em sua época, se destaca por substituir o tom religioso, costumeiro no gênero, por um elogio da alfabetização como verdadeiro caminho para a liberdade. Ele nos traz elementos da vida cotidiana da escravidão e nos permite conhecer a figura ímpar de seu autor, o maior líder abolicionista e intelectual negro americano do século. O livro será publicada pela CARAMBAIA em breve.

 

 

4. O reino deste mundo, de Alejo Carpentier.

Nesse romance, o escritor cubano trata da revolução na colônia francesa de São Domingos, de 1791, a primeira a abolir a escravidão pela ação dos próprios escravizados e proclamar um país independente, o Haiti. E o faz em 1949, uma época em que a importância do evento tinha pouco reconhecimento internacional. O romance recria o passado a partir das figuras do xamã e líder rebelde Mackandal e de Henri Christophe, ex-cozinheiro que se torna rei do novo país. Ficção histórica da melhor qualidade, o romance teoriza e realiza uma das primeiras experiências do estilo narrativo que batiza de “real maravilhoso”, próximo ao realismo fantástico, consolidado por autores das décadas seguintes. 

 

5.  Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. 

Talvez a mais importante recriação ficcional atual da escravidão no Brasil, esse romance, lançado em 2006, parte das poucas linhas em que o abolicionista baiano Luiz Gama, nunca nominado no livro, relata a respeito de sua mãe, Luiza Mahin. Muita pesquisa, conhecimento das religiosidades de matriz africana e habilidade de escrita permitem preencher ficcionalmente os claros da trajetória dessa mulher, de sua infância no Benin, passagem pelo tráfico atlântico, escravização em Itaparica e Salvador, alforria, relacionamentos, fé, busca pelo filho, sucesso financeiro e retorno à África. Escrita em primeira pessoa, a obra atua como um sucedâneo ficcional dos relatos escravos que nunca existiram no mundo luso-brasileiro. Sua escrita clara e envolvente mal deixa perceber as centenas de páginas de que é feito.