Em 2015 a CARAMBAIA editou a obra de João do Rio, escritor e jornalista carioca. Boa parte do seu acervo não tinha sido publicado em livro até então. Eram crônicas, reportagens, contos, entrevistas, peças e artigos que permaneceram mais de 100 anos guardados em arquivos e bibliotecas.

João do Rio foi um dos primeiros jornalistas a deixar a redação de um jornal e ir para a rua em busca de histórias que revelassem ao leitor um Rio de Janeiro desconhecido. Subiu o morro da Providência na época do surgimento das favelas, quando a cidade passou por uma reestruturação, principalmente a região central, obrigando os moradores a buscar outros lugares para morar. Retratava a miséria e os costumes do povo humilde, tornando-se um porta-voz dessa classe.

Mas João do Rio circulava também na alta sociedade. Transitava pelos salões e recepções elegantes da elite carioca no início do século XX. Entrou para a Academia Brasileira de Letras aos 29 anos, instituindo o fardão que é usado até hoje. No dia a dia, vestia-se como um dândi, com fraque verde, bengala, cartola e monóculo - trajes típicos de um europeu.

João do Rio em 1917. Crédito: Reprodução

Foi pensando nessa ambiguidade de João do Rio e na sua relação com a cidade que o projeto gráfico da coleção foi desenvolvido por Cristiane Muniz e Fernando Viégas em parceria com o estúdio Casa36. O asfalto e o aspecto áspero da cidade, a sutileza e detalhes dos arabescos da Belle Époque estão retratados na caixa Coleção João do Rio, composta por três volumes - Crônica, Folhetim e Teatro.

O desenvolvimento do projeto passou por diversas etapas até chegar ao resultado final. Com a cabeça de arquitetos, Cristiane e Fernando transformaram o livro em uma maquete - a caixa em papelão preto rústico, com algumas frestas que simbolizam as janelas de casas e prédios, remete ao asfalto que João do Rio fez questão de escrever sobre em suas crônicas. Já os livros com capas em dourado, prateado e cobre metalizados fazem referência à aristocracia carioca. As caixas da coleção, quando expostas em conjunto em uma livraria, formam uma cidade - seus prédios com as janelas abertas.

Camila Lisbôa, do estúdio Casa36, foi peça fundamental para a produção desse livro pois traduziu para a linguagem do design gráfico o projeto idealizado pelos arquitetos. Camila foi responsável pelos desenhos dos arabescos que compõem as capas e o verso - cada volume possui um desenho diferente desenvolvido pela designer depois de longos estudos, levando mais uma vez os aspectos da transformação da cidade para o livro. 

O resultado dessa parceria transmite conceitualmente a relação do cronista com seu principal tema, as ruas do Rio de Janeiro e seus contrastes. Um projeto que revela os espaços por onde João do Rio transitava e sobre os quais escreveu em mais de 2.500 textos publicados em jornais e revistas até sua morte, em 1921, vítima de um ataque cardíaco.

 

Estudos para caixa Coleção João do Rio