Escrito e dirigido por Sylvie Verheyde, o longa Stella (2008) ilustra a importância dos laços de amizade na formação de leitores. Nele, uma menina de onze anos — a Stella do título — escapa do ambiente pouco estimulante em que cresceu ao conhecer Gladys, a colega ruiva que lê Dostoiévski. A ligação é fundamental para Stella, e desempenha um papel que seus pais e sua escola não quiseram ou não conseguiram desempenhar.

Outro exemplo, este real. Quando era criança, minha mãe se entrincheirava nas pilhas de gibis de um primo rico, gibis que minha avó (que se virava como podia costurando sapatos) e meu avô (bêbado e notório trambiqueiro) não queriam e nem podiam comprar, e então lia por horas. Não precisou de incentivo. Gostava e pronto, especialmente do Tio Patinhas. Minha mãe é uma das raras pessoas que chegariam à literatura de qualquer maneira, com ou sem estímulo. Anos mais tarde, depois de comprar as tão sonhadas calças de tergal com o primeiro salário, começou a reunir sua própria coleção, que, tendo se encerrado um ciclo, já não incluía gibis.

Além dos que foram influenciados por amigos e daqueles com uma disposição (por contexto ou temperamento) incansável que os levou a correr atrás dos livros de forma mais ou menos gratuita, alguns leitores tiveram a sorte de contar com um bom apoio pedagógico — com programas de incentivo ou com professores que conseguiram transmitir seu afeto por certos autores e livros.

Não foi o meu caso.

Estudei em colégio católico. Marista. O privilégio é claro, mas nem sempre é óbvio. De acordo com o currículo, contavam como livros os títulos que seriam cobrados no vestibular. Fora desse círculo restrito, fora do decorar-e-repetir as sucessões de nomes e períodos da literatura brasileira, nada importava. Os mais preguiçosos podiam se virar bem com um resumo. Era preciso apenas memorizar alguns pontos-chave e os comentários mais importantes. Havia uma biblioteca, mas ninguém era incentivado a frequentar seus corredores para ler literatura.

Não vou entrar no mérito do que deve ou não ser apresentado ao aluno, ainda que, vá lá, José de Alencar não pareça a melhor opção. Também não quero discutir a evolução do gosto. O que me interessa aqui é a formação do leitor. E o fato é que toda criança reúne o necessário para se transformar em alguém que gosta de ler — vontade de usar a imaginação e de ouvir boas histórias e uma curiosidade aguçada. A curiosidade, que pode se perder na medida em que os anos passam, é ingrediente essencial. O bom leitor é um questionador. O bom leitor está à procura de mais perguntas.

Não sei definir quando virei uma leitora. Antes de ser alfabetizada, gostava que lessem para mim. Valia até o voluminho de orações em letras góticas que era a única coisa que minha avó aceitava ler em voz alta, já que ela não compreendia bem os fonemas do português. Isso me coloca no quarto grupo — entre aqueles que passaram a gostar de livros porque cresceram em uma casa repleta deles. Ganhava livrinhos desde muito pequena. É uma espécie de clichê, mas um clichê bonito: minha mãe quis me dar (e me deu) o que ela não pôde ter.

Então eu levava os livros para o colégio e lia sorrateiramente — o que acontecia com uma frequência alarmante nas aulas de matemática e química. Mantinha o exemplar aberto no colo, debaixo da classe. Quando foi informada, a pedagoga do colégio telefonou para minha mãe. Com um tom de voz que era puro desdém, segundo minha mãe, com o tom de quem dá uma notícia nefasta, disse que eu lia romances. “Sua filha está lendo romances”, e consigo imaginar a boca torta de reprovação que normalmente acompanhava os comentários sobre ou dirigidos a mim, a filha da mãe solteira destrambelhada que chegava para buscar a menina com um sapato de cada cor e com alguma coisa barulhenta estourando no som do carro, às vezes com um charuto na boca, sempre correndo. Aquela que estava do outro lado do telefone.

Que mãe não ficaria apavorada ao ser informada de que a filha lê romances?

A minha gargalhou. Continuei a ler. As aulas de matemática e de química não eram, de fato, o melhor momento para acompanhar a trajetória dos Buendía — mas a repressão era muito mais genérica e hostil, não se limitando aos momentos impróprios em que eu lia. Era como se a própria literatura fosse ruim, estimulando o que não deveria ser estimulado — justamente aquela curiosidade indevida. Numa tentativa desesperada de fazer com que eu engolisse sem questionar o que era obrigada a engolir ali, começaram a confiscar meus livros. Vários do José Saramago. Dois ou três do Gabriel García Márquez. O livro do desassossego do Fernando Pessoa. O beijo da mulher aranha do Manuel Puig. Um com a história da guerra de Troia duvidosamente romanceada. Alguns foram devolvidos, outros não.

Era quase como se, surgido um leitor, precisassem endireitar ligeirinho antes que o problema se agravasse ou contaminasse os demais. O colégio quase destruiu a literatura para mim. Outra pessoa talvez tivesse desistido.

É meio triste. Num mundo ideal, a escola deveria tentar fornecer aquilo que não é possível assegurar que esteja presente em todas as casas — o acesso aos livros. Mesmo assim, quando se trata de algo tão incerto quanto o motivo pelo qual alguém se apega à literatura, não há garantias. Nem todos farão da leitura um hábito.

Como se forma um leitor? E por quê? Por resistência? Por paixão? Por inércia? Por indiscrição? Comecei imitando os outros, segui por teimosia, continuei por curiosidade.

Lembro do meu antigo colégio quando ouço “Another Brick in the Wall” do Pink Floyd. Não acho que esse colégio, mesmo com seu nome de papa nazista, se destaque por ser especialmente ruim — as coisas são mais ou menos iguais por aqui. De qualquer forma, música + clipe casam bem com o espírito geral da instituição. Quanto menos incomodássemos os professores, melhor. Isso envolvia não perguntar coisas estapafúrdias. (“Sim mas se eu estiver andando no deserto e vir uma naja.” “Não vai ver uma naja.” “Vamos supor que eu veja uma naja. O que eu devo fazer?” “Não existe a menor possibilidade disso acontecer.” “Existe sim.” “Não existe.” “Hipoteticamente, então.” “Esquece a naja.” Et cetera.) Os debates eram raros, e nunca deveriam sair de uma linha previamente demarcada — ou seja, era preciso dizer o que eles queriam ouvir, como bons meninos de classe média que éramos. O grande pavor de boa parte dos professores era que os alunos pudessem pensar por si mesmos. E aí faz todo o sentido manter os livros bem longe.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.