Apresentação

Por Alcebíades Diniz

Uncanny, Strange, Weird, Spooky muitas são as expressões usadas, em língua inglesa, para evocar as diversas nuances da narrativa sobrenatural, da evocação do horror e do desconforto proporcionados pela percepção de uma realidade outra, agressiva, antítese ao cotidiano. Nesse sentido, o escritor inglês Montague Rhodes (M. R.) James (1862-1936) surge como um catalisador de formas e tendências em seus contos fantasmagóricos, escritos nos intervalos de um atribulada carreira acadêmica como medievalista em Cambridge e em Eton. A ficção sobrenatural de M. R. James – publicada inicialmente em revistas e, depois, em coletâneas como Ghost Stories of an Antiquary (1904) – dispensou clichês, realizou inusitadas sínteses e desbravou interessantes possibilidades narrativas. Temos um belo exemplo de tudo isso em “The Malice of Inanimate Objects”, conto publicado em junho de 1933 no primeiro número da revista The Masquerade, que apresentamos a seguir. Poderíamos ler o breve conto cruel de James como uma versão irônica e ácida de uma história dos irmãos Grimm, “Sr. Korber”. Mas a ambiguidade do sentido de maligno empregado no texto garante ao conto possibilidades de leitura bem mais profundas.

Da malignidade de objetos inanimados

M.R. James

A maldade dos objetos inanimados é um tema a partir do qual um velho amigo nutria grande apreço em abordar e isso era algo que ocorria devido a um motivo, de fato, justo. Nas breves ou extensas vidas de todos nós, há dias, dias terríveis, nos quais torna-se necessário resignar-se sombriamente ao fato de que nosso mundo se voltou contra nós. Não me refiro ao mundo humano, aquele que abrange nossos familiares e amigos: essa é a província de praticamente todos os romancistas modernos. Em tais romances, aquilo que ganha o nome e é retratado como “vida" é um prato de estranheza mais que suficiente. Não, o mundo que tratamos aqui é aquele das coisas que não falam, nem trabalham, nem se apresentam em congressos ou conferências; ele inclui prendedores de colarinhos, o tinteiro, o fogo, a navalha e, conforme a idade avança, o degrau extra na escadaria que leva para o esperado ou para o inesperado. Para tais elementos (uma vez que indiquei apenas uma fração mínima deles), a palavra passa ao lado e o dia angustioso se configura. Será que a história da visita do Galo e da Galinha ao Sr. Korbes ainda é lembrada? A maneira como, durante a viagem, os dois encontraram e selecionaram certo número de companheiros, encorajando cada um deles por meio de uma breve proclamação:

Indo até a casa do seu Korbes estamos

Pois a ele uma visita faremos[1]

Dessa forma, conseguiram a adesão da Agulha, do Ovo, do Pato, possivelmente do Gato – preciso destacar que minha memória, neste ponto, é algo traiçoeira – e, por último, a Pedra de Moer; descobriram então que o Sr. Korber não estava em casa e resolveram tomar posição na grande residência daquele ilustre cavalheiro e aguardar seu retorno. Ele, de fato, voltou, e tudo indica que estava exausto por um dia inteiro de trabalho em suas imensas propriedades. Os nervos do pobre sujeito foram, de saída, abalados pelo grito do Galo. Para se recuperar, Korbes se lançou no sofá e foi lacerado pela Agulha. Resolveu se dirigir até a pia, imaginando que a água refrescante o ajudaria, mas o Pato espirrou-lhe água, ensopando-o. Tentou se enxugar com a toalha e o Ovo se quebrou em seu rosto.

Ele sofreu outras tantas afrontas da Galinha e de seus cúmplices, embora no momento eu não me lembre de todas elas, até que, finalmente, enlouquecido de dor e medo, quando tentava fugir pela porta dos fundos, teve o cérebro esmigalhado pela Pedra de Moer, que se postou em local bastante adequado. “De fato”, lemos na conclusão do conto, “esse Sr. Korbes deveria ser ou sujeito muito perverso ou singularmente desgraçado.” Tendo a me inclinar para a última alternativa. Não há nada, nos momentos preliminares da narrativa, que indicasse qualquer estigma manchando-lhe o nome, ou que os visitantes tivessem qualquer injúria que desejassem vingar. Assim, não seria esse conto um exemplo notável do tipo de malignidade que eu levantei inicialmente? Bem sei que, na verdade, nem todos os visitantes de Sr. Korbes são inanimados, se pensarmos em termos bastante exatos. Mas qual certeza temos de que os perpetradores da malignidade aqui abordada o sejam? Há histórias que parecem justificar certa dúvida.

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Dois homens em idade madura estavam sentados em um jardim agradável, momentos após o desjejum. Um deles dedicava-se à leitura dos jornais do dia enquanto o outro, sentado com os braços cruzados, mergulhava em seus próprios pensamentos, o rosto marcado por curativos e pó branco. Seu companheiro baixou o jornal. “Qual é o seu problema?”, perguntou, “A manhã está clara, os pássaros cantam. Não ouço o som de aeroplanos ou motocicletas.”

“Não”, respondeu o Sr. Burton, “está bastante agradável, concordo, mas comecei muito mal meu dia. Me cortei ao fazer a barba e espalhei para todo o lado o dentifrício.”

“Ah”, respondeu o Sr. Manners, “algumas pessoas são mais sortudas que outras”. Com essa expressão simpática, voltou ao jornal. “Nossa”, exclamou após um breve momento, “aqui diz que George Wilkins está morto! Creio que você não tinha nenhum problema com ele, não é mesmo?.”

“George Wilkins?”, disse o Sr. Burton, mornamente espantado, “Ora, nem mesmo sabia que ele estava doente.”

“Não está mais, o pobre sujeito. Parece que ele jogou a toalha e pôs fim à própria vida. Isso mesmo”, prosseguiu, “foi alguns dias atrás: é o que diz o inquérito. Parece que estava atormentado e deprimido. O que terá ocorrido, hein? Pode ser que tudo isso esteja relacionado com aquela pendência entre vocês dois...”

“Pendência?”, questionou o Sr. Burton colericamente, “não havia pendência alguma. Isso não se sustenta. Ele não poderia levantar uma evidência sequer. Não, deve haver uma dúzia de motivos. Mas, por Deus! Nunca imaginei que ele levasse a situação tão a sério.”

"Não sei”, disse o Sr. Manners, “ele era um sujeito, penso eu, que realmente tomava tudo muito a sério, ao ponto da exasperação. Bem, de qualquer modo, eu raramente o via. Deve ter passado por poucas e boas para cortar a própria garganta. Não seria, de forma alguma, a minha escolha em situação semelhante. Nossa! Ainda bem que o sujeito não tinha família. Escute minha ideia: que tal uma caminhada antes do almoço? Seria uma boa maneira de conhecermos melhor esta cidadezinha.”

O Sr. Burton assentiu com gesto pesado. Ele, talvez, estivesse relutante em dar aos objetos inanimados daquele distrito a chance de atingi-lo. Se foi isso, bem, então ele estava certo. Acabara de escapar por pouco de um feio escorregão no rodapé do topo da escada. Um ramo espinhoso prendeu seu chapéu e arranhou seus dedos e, ao subirem em uma encosta gramada, deu um breve salto no ar, acompanhado de um grito, que terminou com o impacto do rosto daquele desafortunado cavalheiro no chão. “Que diabos?”, disse seu amigo que vinha para prestar auxílio. “Um fio comprido, ora essa! Como é possível… Ah, percebo – pertence a uma pipa.” (Ela ainda jazia no solo, um pouco mais distante). “Agora, só falta colocar as mãos no pequeno estúpido que deixou essa coisa largada por aqui. Ele veria uma coisa ou duas – mas com certeza ele não deve aparecer para reclamar esta pipa. É um modelo dos melhores disponíveis.” Quando se aproximaram, uma lufada de vento fez com que a pipa iniciasse seu voo, dando a impressão que o objeto estava sentado, observando os dois homens com um enorme par de olhos redondos, pintados de vermelho. Abaixo dos olhos, três letras garrafais impressas em vermelho, I.C.U.[2] O Sr. Manners se divertia observando cuidadosamente a pipa. “Engenhoso”, disse, “funciona como uma espécie de cartaz, com toda certeza: “vejo você” é o que dizem as letras.” Já o Sr. Burton não estava se divertindo nem um pouco, ao perfurar a pipa com sua bengala. O Sr. Manners estava inclinado a lamentar tal atitude. “Folgo em dizer que esse aparato é muito bem feito”, afirmou, “mas deve ter causado algum transtorno no que tange à execução.”

“A quem?”, questionou à queima-roupa o Sr. Burton. “Ah, percebo, você quer dizer que o garoto que deve ser o dono.”

“Sim, sem dúvida, quem mais? Mas venha, vamos embora: preciso deixar uma mensagem antes do almoço.” Quando dobravam uma esquina da rua principal, uma voz bastante abafada e sufocada exclamou nitidamente: “Cuidado! Estou chegando.” Os dois pararam de imediato, como que atingidos por armas de fogo.

“Quem disse isso?”, questionou Manners. “Raios me atinjam se eu não descobrir” – então, dominado por estrondosa gargalhada, apontou com a bengala. Uma gaiola com um papagaio cinza pendia de uma janela aberta do outro lado da rua. “Por São Jorge, que susto; quase teve um  ataque, hein, amigo?” O que Burton murmurava em resposta não era sequer audível. “Bem, não podemos perder um minuto: você deve fazer amizade com o pássaro.” Mas Burton, infelizmente, não parecia estar com ânimo de encetar conversas amigáveis com animais ou homens. Ele estava um pouco adiante e caminhava rapidamente. Manners parou por um instante ao lado da janela do papagaio e começou a rir de maneira hilária.  “Venha ter uma palavrinha com o louro?”, pedia, enquanto tentava alcançar o amigo.

“Mas não mesmo”, disse Burton, irritado. “Não quero nem saber desse maldito bicho.”

“Bom, não faria nenhum mal se ao menos você tentasse”, disse Manners. “Me lembrei de algo: aquele papagaio está naquela janela há anos, pois está empalhado.” Burton parecia a ponto de fazer um comentário, mas desistiu.

De qualquer forma, aquele não era, decididamente, um dia de sorte para Burton. Engasgou-se com o almoço, quebrou o cachimbo, tropeçou no tapete, derrubou um livro na fonte do jardim. Mais tarde, recebeu ou declarou ter recebido uma ligação telefônica que o convocava de volta no dia seguinte, encurtando uma visita que deveria durar uma semana. Estava tão sorumbático após o jantar que o desapontamento de Manners em perder sua companhia não foi assim tão sentido.

No café da manhã, o Sr. Burton disse pouco a respeito do que acontecera durante a noite. Mas deixou claro que pretendia consultar um médico. “Minhas mãos tremem tanto”, disse, “nem sequer me arrisquei a fazer a barba hoje.”

“Oh, sinto por você”, disse o Sr. Manners. “Conheço um ótimo doutor para te deixar em perfeito estado. Mas você precisa mesmo voltar agora.”

Despedidas foram feitas. De alguma forma e por qualquer razão, o Sr. Burton conseguiu reservar uma cabine para si mesmo (o trem não era do tipo que possui corredor). Mas tais precauções são de pouca valia diante de mortos furiosos.

Não gosto de colocar as coisas de modo muito figurado, mas não seria exagero afirmar que alguém tentou fazer a barba do Sr. Burton no trem, com resultados nada agradáveis, ao menos para o Sr. Burton. Mas esse alguém deve ter ficado satisfeito, se pudermos tecer julgamentos levando em conta o fato de que o lenço que estava no peito do cadáver tinha a seguinte inscrição, em letras vermelhas: GEO. W. FECI.

Tais fatos – se é que podemos chamá-los dessa forma – não corroborariam minha sugestão de que há algo não inanimado por trás da malignidade dos objetos inanimados? Não deixam claro que quando tal malignidade se inicia devemos ser bastante rigorosos em examinar e se possível corrigir qualquer traço oblíquo em nossa conduta recente? E eles não nos conduziriam, por fim, à conclusão de que, como Korbes, o Sr. Burton foi ou muito perverso ou singularmente desgraçado?

[1] NOTA: Trata-se de um conto dos irmãos Grimm, de título “O Sr. Korber”. Cf. GRIMM, Jacob e Wilhelm. Contos maravilhosos infantis e domésticos. Trad. Christine Röhrig. Vol. 1. São Paulo: Cosac Naify, 2012, pp. 203-204)

[2] Em inglês, a sigla se pronuncia como a frase I see you, “eu vejo você”.