Le Figaro

Dias de leitura*

20 de março de 1907


*Esta crônica faz parte do livro Salões de Paris que reúne 21 textos curtos do Proust inéditos no Brasil. 


Vocês provavelmente leram Mémoires de la comtesse de Boigne. Há “tantos doentes” nesse momento que os livros encontram leitores, até mesmo leitoras. Sem dúvida, quando não podemos sair e fazer visitas, preferimos recebê-las a ler. Mas, “nesses tempos de epidemias”, até as visitas que recebemos representam algum perigo. É a senhora que da porta onde se detém por um momento – apenas por um momento –, e de onde, emoldurando sua ameaça, grita: “Vocês não temem a caxumba e a escarlatina? Previno-os de que minha filha e meus netos estão doentes. Posso entrar?”; e entra sem esperar a resposta.

E outra, menos franca, que mostra seu relógio: “Preciso voltar logo: minhas três filhas estão com rubéola; vou de uma a outra; minha inglesa está acamada desde ontem com uma febre alta, e temo ser minha vez de ficar doente, pois me senti mal ao levantar. Mas fiz questão de fazer um grande esforço para vir vê-lo...”. Então preferimos não receber muito, e, como não podemos telefonar sempre, lemos. Só lemos em último caso. Para começar telefonamos muito. E, como somos crianças que brincam com as forças sagradas sem estremecer diante de seu mistério, consideramos o telefone apenas “cômodo”, ou melhor, como somos crianças mimadas, consideramos que “não é cômodo”, inundamos o Figaro com nossas queixas, não achando ainda suficientemente rápida em suas mudanças a admirável magia em que alguns minutos às vezes se passam de fato antes que surja perto de nós, invisível, mas presente, a amiga com quem queríamos falar, e que, permanecendo à sua mesa, na cidade distante onde mora, sob um céu diferente do nosso, com um tempo que não é o que faz aqui, em meio a circunstâncias e preocupações que ignoramos e que ela vai nos dizer, encontra-se de súbito transportada a centenas de léguas (ela e todo o ambiente em que está mergulhada), em nosso ouvido, no momento em que nosso capricho o ordenou. E somos como o personagem do conto de fadas a quem um feiticeiro, ante seu desejo, faz aparecer em um clarão mágico sua noiva, a folhear um livro, a derramar lágrimas ou a colher flores, bem perto dele e, no entanto, no lugar onde ela se encontra então, muito distante.

Para que esse milagre se realize, basta apenas aproximar nossos lábios da prancheta mágica e chamar – algumas vezes um pouco longamente, admito-o – as Virgens Vigilantes, cuja voz ouvimos todo dia sem jamais conhecer-lhes o rosto, que são nossos Anjos da Guarda nessas trevas vertiginosas cujas portas vigiam com ciúmes, as Todo-Poderosas através de quem os rostos dos ausentes surgem a nosso lado, sem que nos seja permitido vê-los; basta chamarmos essas Danaides do Invisível, que sem cessar esvaziam, enchem e transmitem as urnas obscuras dos sons, as Fúrias ciumentas que, enquanto murmuramos uma confidência a uma amiga, nos gritam ironicamente: “Estou ouvindo!” no momento em que não esperávamos que alguém nos escutasse, as servas irritadas do Mistério, as Divindades Implacáveis, as Senhoritas do telefone! E, logo que seu chamado ressoou na noite cheia de aparições, para a qual só nossos ouvidos se abrem, um ruído leve – um ruído abstrato –, o da distância suprimida, e a voz de nossa amiga se dirige a nós.

Caso, neste instante, entre por sua janela e venha importuná-la enquanto ela nos fala a canção de um passante, a buzina de um ciclista ou a fanfarra distante de um regimento em marcha, tudo isso também ressoa distintamente para nós (como para nos mostrar que é exatamente ela que está perto de nós, ela, com tudo que a cerca nesse momento, o que atinge seus ouvidos e distrai sua atenção) – detalhes de verdade, estranhos ao assunto, inúteis em si mesmos, mas necessários para nos revelar toda a evidência do milagre –, traços sóbrios e encantadores de cor local, descritivos da rua e da estrada provincial para as quais sua casa dá, e tais como escolhe um poeta quando deseja, dando vida a um personagem, evocar seu meio à sua volta.

É ela, é sua voz que nos fala, que ali está. Mas como está longe! Quantas vezes não pude escutá-la senão com angústia, como se diante dessa impossibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão próxima de meu ouvido, eu sentisse melhor o que há de decepcionante na aparência da mais doce aproximação e a que distância podemos estar das pessoas amadas no momento em que parece que bastaria estendermos a mão para retê-las. Presença real – essa voz tão próxima – na separação efetiva. Mas também antecipação de uma separação eterna. Muitas vezes, ao escutá-la assim, sem ver aquela que me falava de tão longe, pareceu-me que essa voz clamava das profundezas de onde não se retorna, e conheci a ansiedade que me oprimiria um dia, quando uma voz retornaria assim, só e não mais presa a um corpo que eu nunca mais reveria, murmurar a meu ouvido palavras que eu desejaria poder beijar de passagem sobre lábios para sempre em pó.

Eu dizia que, antes de nos decidirmos a ler, procuramos ainda conversar, telefonar, discamos números e mais números. Mas, às vezes, as Filhas da Noite, as Mensageiras da Palavra, as Deusas sem rostos, as caprichosas Guardiãs não querem ou não podem nos abrir as portas do invisível, o Mistério solicitado permanece surdo, o venerável inventor da tipografia e o jovem príncipe amante de pintura impressionista e de automóveis – Gutemberg e Wagram! – que elas invocam incansavelmente, deixam suas súplicas sem resposta; então, como não podemos fazer visitas, como não queremos recebê-las, como as senhoritas do telefone não completam a comunicação, resignamo-nos a nos calar, lemos.

Em algumas semanas apenas será possível ler o novo volume de versos da sra. de Noailles, Les éblouissements (não sei se esse título será mantido), ainda melhor que estes livros formidáveis: Le coeur innombrable, e L’ombre des jours, realmente equivalente, me parece, a Feuilles d’autonne ou a Fleurs du mal. Enquanto aguardamos, poderíamos ler essa delicada e pura Margaret Ogilvy, de Barrie, magnificamente traduzido por R. d’Humières e que não é outra coisa senão a vida de uma camponesa contada por um poeta, seu filho. Mas não; a partir do momento em que nos resignamos a ler, escolhemos de preferência livros como as memórias da sra. De Boigne, livros que dão a ilusão de que continuamos a fazer visitas, a fazer visitas às pessoas que não pudemos visitar porque ainda não éramos nascidos sob Luís XVI e que, de resto, não serão muito diferentes daquelas que conhecemos, pois levam quase os mesmos sobrenomes que elas, seus descendentes e nossos amigos, os quais, por uma comovente delicadeza para com a nossa fraca memória, conservaram os mesmos nomes e ainda se chamam: Odon, Ghislain, Nivelon, Victurnien, Josselin, Léonor, Artus, Tucdual, Adhéaume ou Raynulphes. Belos nomes de batismo, aliás, e dos quais não deveríamos sorrir; eles provêm de um passado tão profundo, que em seu esplendor insólito parecem brilhar misteriosamente como esses nomes de profetas e de santos inscritos abreviados nos vitrais de nossas catedrais. Jehan, ele próprio, embora se assemelhe mais a um nome de hoje, não aparece inevitavelmente como se estivesse traçado em caracteres góticos em um Livro de Horas por um pincel embebido em púrpura, ultramar ou cobalto? Diante desses nomes, o plebeu talvez repetisse a canção de Montmartre:

Bragança, conhecemos essa figura;

É preciso que seu orgulho seja profundo

Para ter se dado... um nome desses!

Não pode se chamar como todo mundo![1]

Mas o poeta, se é sincero, não compartilha dessa alegria e, de olhos fixos no passado que esses nomes lhe revelam, responderá com Verlaine:

Eu vejo, eu ouço todas essas coisas coisas

Em seu nome carolíngio.[2]

Passado muito extenso, talvez. Gostaria de pensar que esses nomes que só chegaram até nós em tão raros exemplares, graças ao apego às tradições que têm certas famílias, foram em outros tempos nomes muito correntes – nomes de plebeus tanto quanto de nobres – e que assim, através das cenas ingenuamente pintadas da lanterna mágica que nos apresentam esses nomes, não é apenas o poderoso senhor de barba azul ou a irmã Ana em sua torre que vemos, mas também o camponês curvado no campo verdejante e os homens de armas cavalgando nas estradas poeirentas do século XIII.

Sem dúvida muitas vezes essa impressão medieval dada por seus nomes não resiste ao convívio com aqueles que os usam e que não conservaram nem compreenderam sua poesia; mas seria razoável pedir aos homens que se mostrassem dignos de seus nomes, quando as coisas mais belas têm tanta dificuldade em não ser diferentes dos seus, quando não há um país, uma cidade, um rio cuja visão possa satisfazer o desejo de sonhar que seu nome despertara em nós? A sabedoria seria substituir todas as relações mundanas e muitas viagens pela leitura do Almanaque de Gota e dos horários dos trens...

As memórias do fim do século XVIII e do início do XIX, como as da condessa de Boigne, têm de comovente o fato de darem à época contemporânea, aos nossos dias vividos sem beleza, uma perspectiva bastante nobre e bastante melancólica, fazendo delas o primeiro plano da História. Elas nos permitem passar tranquilamente das pessoas que encontramos na vida – ou que nossos pais conheceram – aos pais dessas pessoas que, eles próprios, autores ou personagens dessas memórias, puderam assistir à Revolução e ver Maria Antonieta passar. De modo que as pessoas que pudemos entrever ou conhecer – as pessoas que vimos com os olhos da carne – são como esses personagens de cera de tamanho natural que, no primeiro plano dos panoramas, pisando na relva verdadeira e erguendo no ar uma bengala comprada do comerciante, parecem ainda pertencer à multidão que os observa e nos conduzem pouco a pouco ao cenário pintado ao fundo, ao qual dão, graças a transições habilmente preparadas, a aparência do relevo da realidade e da vida. É assim que essa sra. de Boigne, nascida d’Osmond, que cresceu, nos diz ela, no colo de Luís XVI e de Maria Antonieta, eu vi muitas vezes no baile, quando eu era adolescente, sua sobrinha, a velha duquesa de Maillé, nascida d’Osmond, mais que octogenária, mas ainda deslumbrante com seus cabelos grisalhos que, erguidos na frente, lembravam a peruca de três rolos de um presidente de barrete. E me lembro de que meus pais jantaram muitas vezes com o sobrinho da sra. de Boigne, o sr. d’Osmond, para quem ela escreveu essas memórias e cuja fotografia encontrei entre seus documentos com muitas cartas que ele lhes havia enviado. De modo que minhas primeiras lembranças de baile presas por um fio aos relatos um pouco mais vagos para mim, mas ainda bem reais, de meus pais, unem-se por um laço já quase imaterial às lembranças que a sra. de Boigne havia guardado e nos conta das primeiras festas às quais ela assistiu: tudo isso tecendo uma trama de frivolidades, poética, entretanto, por que se torna um tecido de sonho, leve ponte, lançada do presente até um passado já distante e que uniu, para tornar mais viva a história, e quase histórica a vida, a vida à história.

E eis que chego à terceira coluna deste jornal e nem sequer comecei meu artigo! Ele devia se chamar: “O Esnobismo e a Posteridade”, mas não vou poder deixar esse título, visto que preenchi todo o espaço que me havia sido reservado sem dizer ainda uma só palavra nem sobre Esnobismo nem sobre Posteridade, duas pessoas que vocês pensaram provavelmente nunca ter de encontrar, para a grande felicidade da segunda, e a respeito das quais eu contava lhes apresentar algumas reflexões inspiradas pela leitura das Mémoires da sra. de Boigne. Ficará para a próxima vez. E, se então algum dos fantasmas que se interpõem sem cessar entre meu pensamento e seu objeto, como ocorre nos sonhos, vier ainda solicitar minha atenção e desviar do que tenho a lhes dizer, eu o afastarei como Ulisses afastava com a espada as sombras comprimidas à sua volta para implorar uma forma ou um túmulo.

Hoje eu não pude resistir ao chamado dessas visões que eu via flutuar, a meia profundidade, na transparência de meu pensamento. E tentei sem sucesso o que conseguiu tantas vezes o mestre vidreiro quando transportava e fixava seus sonhos, a distância exata em que se manifestaram a ele, entre duas águas agitadas de reflexos escuros e rosa, em uma matéria translúcida em que às vezes um raio cambiante, vindo do coração, podia fazê-los acreditar que continuavam a existir no seio de um pensamento vivo. Como as Nereides que o escultor antigo havia raptado do mar, mas onde acreditavam ainda estar mergulhadas, quando nadavam entre as ondas de mármore do baixo-relevo que o figurava. Errei. Não recomeçarei. Falar-lhes-ei a próxima vez do esnobismo e da posteridade, sem desvios. E, se alguma ideia transversal, se alguma fantasia indiscreta, desejando se imiscuir no que não lhe diz respeito, ameaçar ainda nos interromper, eu lhe suplicarei imediatamente que nos deixe em paz: “Nós estamos conversando, não nos interrompa, senhorita!”.

Marcel Proust


[1] Trecho da canção L’expulsion, escrita por Maurice Mac Nab e música de Camille Baron, 1886

[2] Versos de Une sainte en son auréole, um dos 21 poemas que compõem La bonne chanson, de Paul Verlaine, de 1870.