Da infância, quando ficou imobilizado na cama, até se tornar autor de 23 livros, filósofo conta a sua relação com a leitura

Paulo Jebaili

Em 2014, o filósofo Mario Sergio Cortella ultrapassou a marca de 1 milhão de livros vendidos, somados seus mais de 20 títulos publicados. São livros que abrangem questões ligadas à Filosofia, à Educação e ao mundo corporativo. Entre suas obras, constam Ética e Vergonha na cara!, em coautoria com o também filósofo Clóvis de Barros Filho (Papirus), Educação, Escola e Docência: novos tempos, novas atitudes (Cortez) e Qual é a tua obra? (Vozes).

Professor-titular da PUC-SP, onde atuou por 35 anos, boa parte desse tempo no Departamento de Teologia e Ciências da Religião, Cortella foi também secretário de Educação na cidade de São Paulo, em 1991-92, sucedendo a Paulo Freire, de quem era secretário-adjunto. Atualmente, faz palestras pelo país e é colunista da rádio CBN. Na conversa a seguir, ele conta como surgiu o encantamento pela leitura e os hábitos que cultiva desde então.

Como começou o gosto pelo universo das letras?

MSC: Eu sempre brinco que a minha relação com a literatura é figadal, literalmente. Aos 7 anos, eu tive hepatite. Em Londrina, minha cidade, não havia televisão. Naquela época, a recomendação era ficar três meses sem sair da cama. Como distrair um menino que tem de ficar imóvel por três meses? Eu lia um ou outro gibi, aí comecei a ler livros infantis. Depois de um mês, não havia mais livro infantil e a vizinhança começou a trazer os livros que tinha: Dostoievski, Cervantes... Eu li Irmãos Karamazov com 7 anos. Não entendi nada. Dom Quixote eu entendi. Em dois meses, eu fiz um passeio pelo que a vizinhança tinha de literatura e isso criou em mim um gosto imenso pela leitura. Minhas primeiras memórias se relacionam com a ideia de que a literatura fazia com que eu viajasse para fora da minha cama. Eu tinha de tomar duas injeções por dia. E lembro que eu deixava a melhor parte para ler depois da injeção. Essas lembranças ficaram como um fundo de leitura. Eu tenho cenas de Irmãos Karamazov ou de Os Maias, de Eça de Queirós, nesse fundo, que são nebulosas. Mas as primeiras nítidas sensações de um mundo de leitura foram com Monteiro Lobato, porque aí já foram escolhas minhas.

Passou a ser intencional, não algo determinado pelas circunstâncias.

MSC:Isso. Li Reinações de Narizinho, depois Caçadas de Pedrinho, tudo isso foi sendo muito marcante na minha formação. A partir daí, as lembranças que eu tenho são de livros de aventuras, de que eu sempre gostei. Para você ter uma ideia, agora, aos 60 anos, a literatura que eu mais aprecio, fora biografias, é de aventura e história. Do tipo as viagens do Darwin com o comandante FitzRoy pela Patagônia ou as viagens de Fernão de Magalhães, li muito sobre Cristóvão Colombo. Gosto demais dessas aventuras marítimas. E comecei a escolher obras como Robinson Crusoé, As viagens de Gulliver, Moby Dick. Eu tinha o hábito de ler deitado, de barriga para baixo, atravessado numa cama e colocava o livro no chão. Lia sem ter de segurá-lo. Fiz isso até a idade adulta, deixei há uns 30 anos.

Havia livros na sua casa? Seus pais tinham o hábito da leitura?

MSC: Sim, sempre teve livro em casa. Meu pai era gerente de banco e tinha uma ligação forte com a leitura. Minha mãe, obviamente, pois era professora. Ao sair para o trabalho, meu pai deixava para mim e para meu irmão mais novo, que já faleceu, a Folha de Londrina, jornal diário. E durante uma década, ele chegava à noite, sentava na sala: “E aí? O que vocês leram hoje?”. E perguntava sobre o conteúdo do jornal. A leitura de jornal fez parte da minha formação diretamente. Porque a primeira leitura, tirando coisas da escola, foi a do Pato Donald. E quando eu tinha 12 anos, comecei a colecionar aquela [enciclopédia] Conhecer, os fascículos chegavam a cada 15 dias. Colecionei de ponta a ponta e lendo tudo. Isso significa que, aos 14 anos, eu era um menino insuportável. Eu sabia o que era um coleóptero, sabia o que era um hoplita, que era um soldado da coluna macedônica. Esses passos foram dados a partir de banca, mas eu sempre frequentei biblioteca. Até hoje tenho boa lembrança daquela fichinha, que ficava com a moça, quando a gente levava o livro emprestado.

Até que ponto a leitura contribuiu para a decisão de fazer o curso de Filosofia?

MSC: Foram duas coisas que me direcionaram para o curso de Filosofia. Primeiro, eu queria trabalhar no campo da produção escrita. Eu gostava de escrever. Em segundo lugar, a Filosofia servia também como uma experiência para eu dar um passo no campo da religiosidade. Eu li bastante sobre religião. Portanto, a Filosofia agregava os dois lados. Uma das obras que ficava na sala em casa, quando eu era menino, era a Comédia, do Dante Alighieri, três volumes imensos, com gravuras feitas pelo Debret. Havia muita coisa ligada à Filosofia nesses textos. Dante cita filósofos, a história começa com ele caminhando com Virgílio, que, por sua vez, cita pensadores do passado. A Filosofia entrou para mim via Dante Alighieri.

Essa intenção de escrever era ambição literária?

MSC: Não. Eu gostava de escrever textos, poemas e narrativas para mim mesmo, mas não tinha aspiração de ser escritor. Se alguém me dissesse há 50 anos, quando eu tinha 10 anos, que um dia eu seria autor de 23 livros, eu não acreditaria. Não estava no meu horizonte. Escrever se tornou parte da minha atividade do dia a dia, por conta de ser pesquisador, professor. Meu primeiro livro publicado foi de Filosofia, chamado Descartes – A paixão pela razão (FTD), que está esgotado. Conheci Descartes primeiro como matemático, depois como filósofo. No ensino médio, estudei o produto cartesiano, gostei e depois fui procurar coisas dele como filósofo.

Passado o hábito de ler atravessado na cama, atualmente o senhor tem algum ritual de leitura ou lê em qualquer circunstância, em sala de aeroporto, por exemplo?

MSC: Quando não estou em atividade, estou sempre lendo, seja no ônibus ou no avião. Na minha casa, eu gosto de ler numa poltroninha, com uma luz pela esquerda por cima do meu ombro. Eu também leio na cama. Sobre o espaldar da minha cama, tenho dois, três livros, que vou lendo concomitantemente. E habituei meus filhos a fazerem isso. Quando eles eram menores, eu comprava aquelas luminárias que têm uma espécie de garra, que prendia no alto da cama para eles lerem.

Deu certo?

MSC: Deu certo. Todos leem bastante. E cresceram em meio a livros. Parte da minha biblioteca, que hoje está no meu escritório, tem 6 mil livros.

Com uma biblioteca desse porte, há algum autor que não tenha lido ou não lido tanto quanto gostaria?

MSC: Não. Todos os autores que gostaria de ler eu os li ou os leio ainda. Agora eu sou mais criterioso. Antes, a frase era “qualquer coisa que cair na minha mão eu leio”. Agora eu sou mais seletivo, inclusive porque eu não tenho tanto tempo. Como estou com mais idade, preciso ter mais critério. Hoje quando quero ler uma coisa mais densa, eu volto aos clássicos: Proust, Stendhal, especialmente O vermelho e o negro. Outro dia reli A educação sentimental, de Flaubert. Gosto do Steinbeck, As vinhas da ira é inacreditável.

E houve algum recordista de releituras?

MSC: O Nome da Rosa, do Umberto Eco, eu li pelo menos 15 vezes. A primeira vez foi em 1984, num voo para Tóquio. Eu li na ida, mais de 20 horas de viagem. E quando voltei do Japão, eu li de novo. Criação, do Gore Vidal, eu reli 11 vezes.

O senhor lê livros do mesmo gênero daqueles que escreve?

MSC: Livros de Filosofia, stricto sensu, como os que eu produzo, dificilmente o faço. Como para escrever é preciso ler e estudar, fazê-lo quando estou num momento de lazer seria uma redundância. E, portanto, um tempo desperdiçado. Os meus prediletos são romances históricos e as biografias.

Quais as biografias mais marcantes?

MSC: A biografia do Abraham Lincoln, feita pelo Gore Vidal, é estupenda. A do Chateaubriand, feita pelo Fernando Morais, é magnifica, assim como Estrela solitária, do Ruy Castro sobre Garrincha. E gosto de autobiografia também. Li duas nos últimos dez anos que me impactaram muito. A primeira foi da Jane Fonda, chamada Minha vida até agora. Demorei a ler por preconceito, achei que ia falar de coisas sobre ginastica etc. E fiquei boquiaberto pela capacidade de escrita e, especialmente, por contar a vida dela com Henry Fonda e com o irmão Peter Fonda. O que foi viver o cinema francês, no veio daquela luxúria com o Roger Vadim. A Guerra do Vietnã, da qual ela foi uma forte opositora. A outra é a do Eric Clapton, uma autobiografia absolutamente sincera. Achei muito impactante. E também aprecio muito romances históricos: Criação, do Gore Vidal, Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, O físico, de Noah Gordon.

Nas suas colunas na rádio CBN, há citações frequentes de poetas. O senhor lê muita poesia?

MSC: Bastante. Eu gosto muito de haicais, por conta do pensamento mais sintético e porque Paulo Leminski levou isso a um patamar bem superior. Estudei com alegria, por conta da Filosofia, vários dos campos da poesia. Mas muito mais pela fruição poética, especialmente, Fernando Pessoa e meu grande inspirador Mario Quintana. Essas citações vêm por esse gosto pelo que é sintético. Você pega um haicai de Leminski: “Tudo que li me irrita quando ouço Rita Lee”. Isso é uma tese. Ou quando ele diz: “Para que cara feia? Na vida ninguém paga meia”.

E o que lhe toca no conteúdo dos poemas de Pessoa e Quintana?

MSC: O que mais aprecio na obra de Fernando Pessoa é o conteúdo existencialista, quase niilista. Dos vários heterônimos, o meu predileto é Álvaro de Campos, porque aquelas meditações quase metafisicas do Fernando Pessoa eu considero encantadoras, elas se aproximam muito da Filosofia. O Mario Quintana, a capacidade de fazer uma tradução singela do cotidiano. Eu gosto muito quando ele pega alguma coisa do cotidiano e produz algum espanto. Mas o autor que, como pesquisador, mais me encantou, quando eu estava na universidade, foi o Eça de Queirós. Há uma cena para mim inesquecível em Os Maias, em que ele descreve o tampo de uma mesa vazia durante três páginas. É uma capacidade encantadora da construção do argumento. E, como escritor e professor, eu tenho, às vezes, crises vocabulares. Momentos em que eu percebo que estou me repetindo naquilo que falo e escrevo. Toda vez que tenho redução do meu arsenal de vocábulos, eu recorro aos contos de Machado de Assis.