Até deixar de ver o livro como um objeto mais ou menos sagrado, coisa que aconteceu não faz muito tempo, cruzei um bom caminho. Os primeiros romances para adultos que li, surrupiados das estantes da minha mãe, umas brochuras com aquelas capas pavorosas que só os anos oitenta poderiam ter gerado sem constrangimento, e que iam de Sidney Sheldon a Agatha Christie, passando por aqueles autores que tinham, com graus variados de sucesso, tentado imitar um e outro, enfim, esses primeiros romances, em nenhum aspecto tão bons quanto os que viriam em seguida, escaparam relativamente ilesos. O fato de que não eram meus não contava. Minha mãe não tem o hábito de reler livros, e não acho que fosse se importar, na possibilidade remota de que viesse a folhear um deles ao acaso, se encontrasse uma frase sublinhada ou um canto de página virado. Por um motivo que agora parece difícil de definir, mas que provavelmente está ligado ao fato de que aos onze ou doze anos eu me via como uma adulta que lia livros sem figuras, livros que não eram de colorir, livros, portanto, não associados a brincadeiras, eu os deixava tão intactos quanto podia. (Se as capas de papel ruim se soltavam, a culpa não era minha.)

Então vieram as edições melhores, em todos os sentidos.

Paradoxalmente, e paradoxalmente porque isso envolvia, talvez, profanar um livro, a vontade de guardar trechos específicos aumentava. Tentei imitar minha mãe, que até hoje mantém um caderninho para anotar umas poucas frases. Tentei: a coisa toda logo se mostrou inviável, já que minha necessidade de armazenar palavras alheias é maior.

Quando ganhei meus primeiros livros, digo, os que dispensavam figuras, arriscava um traço rápido e fraco ou um vinco minúsculo numa página, coisa tão sutil que qualquer um poderia pensar que o lápis tinha caído por acaso sobre o papel, e também que a folha tinha dobrado assim por acaso, e o efeito geral era cuidadosamente porco.

Comecei a reunir coragem para ir além. Consegui uma caneta marca-texto amarela e passei a destacar parágrafos inteiros. Em casos extremos, vários parágrafos seguidos, de forma meio idiota, eram cobertos de amarelo e, quando a caneta amarela acabou, de verde. Colei adesivos. Desenhei flechas e estrelas. Deixei um livro inteiro coberto de post-its, de modo que ele só podia ser erguido pela lombada, e depois outro e mais outro. No auge do desapego, escrevia comentários que iam desde discordâncias veementes a referências aleatórias. Fazia isso com qualquer caneta que estivesse à mão.

E aí entramos num terreno mais delicado: as edições especiais.

Os autores que costumam ganhar edições especiais, ou o tipo de edição especial que eu cobiço, são os bons autores, aqueles filhos da puta que sabem mesmo escrever, despertando 1) rancor e 2) uma vontade incontrolável de gravar o que eles disseram. Ou seja: bons autores dão um trabalho infernal para quem sofre da necessidade patológica de marcar os melhores trechos, de não perder jamais esses trechos, de conservar esses trechos cuidadosamente.

Então lá está o livro maravilhoso com sua tradução excelente, porque não faz sentido que exista um livro maravilhoso com tradução ruim, embora a gente saiba que existe, mas, enfim, lá está a capa bacana, a fonte magnífica, a cor exata, aquela obra-prima da literatura e, de forma mais genérica, da editoração. E lá está você, supondo que você também sofra desse mal, lá está você crivando aquele papel, um papel cuja gramatura foi selecionada com cuidado por um sujeito que provavelmente choraria se visse o que você fez, com marcas de Bic.

Você deixou de considerar o livro um objeto sagrado, e isso é ótimo. Livro brilhante e intacto, livro que enfeita a prateleira, livro sem dobras nem amassadinhos nem calombos, livro sem passagens destacadas ou sublinhadas, livro assim é um livro sem indicação de que você passou por ali. Porque, é claro, você não passou mesmo.

Olhei para um exemplar particularmente excelente no qual estava prestes a enfiar uma hidrocor laranja e refleti por um instante. Tudo bem, preciso salvar esse pagrágrafo, mas há um limite. Talvez a maturidade esteja entre o livro intocado e a hidrocor laranja, pensei, em algum ponto onde mora o bom senso.

E então tenho uma ideia. Uma iluminação.

Vou comprar uma caneta-tinteiro, e vou treinar antes de usar para não correr o risco de inutilizar todo um capítulo com minha falta de destreza, espalhando tinta e marcando as páginas com minha impressão digital, o que seria um jeito não muito elegante de deixar minha marca num livro. Minha letra, aliás, é muito feia para estampar uma edição especial. Preciso encontrar um curso de caligrafia, de preferência um que ensine uma escrita das mais rebuscadas. Providenciei uma régua e um esquadro para sublinhar trechos. Para assinalar as páginas, vou arranjar dúzias de fitas de cetim ou veludo, todas com uma substância colante na ponta, algo que acabei de inventar e que vou tratar de patentear assim que acabar este texto.

Acho que finalmente encontrei o bom senso. Ou isso, ou estamos de volta ao caderninho.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.