1. “Como se deve ler um livro?”, pergunta Virginia Woolf no título de um ensaio publicado em 1926. É preciso encarar o mundo com um assombro implacável, como Woolf, para questionar aquilo que se faz com certa regularidade. O rotineiro costuma passar despercebido, e alguém que lê romances e poemas com frequência pode não enxergar mistério na ação. Virginia enxergou, e procurou as próprias respostas. Ainda nos primeiros parágrafos do ensaio, com seu humor sutil, a autora pede que seus leitores ignorem tudo aquilo que se parece com um conselho. Ler, diz ela, é “seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar as próprias conclusões”.
  2. Numa frase certeira, Woolf expõe a qualidade subjetiva da leitura. Não pretendo listar o que o ensaio diz sobre o tema, uma vez que a autora aproxima sua visão da crítica literária. Aproveito a pergunta do título (“Como se deve ler um livro?”) e tomo outro caminho.
  3. Um caminho diferente, mas paralelo. Para percorrê-lo, é necessário resgatar um tantinho daquilo que disse Maurice Merleau-Ponty. No livro A prosa do mundo, o francês defende que a leitura é uma batalha — “um confronto entre os corpos gloriosos e impalpáveis de minha fala e da fala do autor”.
  4. “Recebo e dou no mesmo gesto. Dei meu conhecimento da língua, contribuí com o que eu sabia sobre o sentido dessas palavras, dessas formas, dessa sintaxe.” As palavras, segundo Merleau-Ponty, são “sustentadas pelo movimento de nosso olhar e de nosso desejo, mas também [os sustentam]”. Ele observa que o leitor disputa constantemente o controle com “essa máquina infernal que é o livro”.
  5. É um conflito que dura enquanto durar a leitura, e que pode se estender mesmo quando ela é deixada de lado. O crítico Harold Bloom estava certo — e reforçou o que disse Merleau-Ponty — quando afirmou que não há leitor passivo.
  6. E aí podemos fazer uma visitinha a Alva Noë, professor de filosofia na University of California, que está do lado de Merleau-Ponty e Bloom. No livro Out of your heads, Noë defende que você não está trancado na prisão das suas próprias ideias e sensações. O fenômeno da consciência, assim como a existência em geral, é um processo dinâmico que envolve o mundo como um todo. Como o título do livro adianta, muita coisa está acontecendo do lado de fora dessa sua cabeça. Aquelas palavras que estão girando diante dos seus olhos são bons exemplos disso — e qualquer movimento seu em relação a elas, de compreensão e assimilação, é tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora.
  7. O que nós percebemos é determinado pelo que nós fazemos (ou pelo que nós sabemos como fazer); é determinado pelo que nós estamos preparados para fazer”, escreve Noë no livro Action in Perception. É só juntar com o seu êxtase diante de Em busca do tempo perdido, ou com suas tentativas de entender a lógica por trás de Bartleby, ou com sua frustração inicial com Ulysses. O que você faz diante de um livro?
  8. Para Merleau-Ponty, “minha percepção só é possível por meu corpo”. E demanda vontade. Noë pensa o mesmo. “Percepção não é algo que acontece conosco, ou em nós. É algo que nós fazemos”, escreve ele, que frequentemente utiliza o pensamento de Merleau-Ponty para explicar certas noções, e que compartilha a ideia de que o corpo inteiro é responsável pela percepção.
  9. Pesquisas recentes parecem apontar, diz Noë, para o fato de que não há um mecanismo inato que nos permite reconhecer rostos, assim como não há um mecanismo inato que nos permite reconhecer palavras (a escrita é um fenômeno recente na nossa história evolutiva). Mais um motivo pelo qual nenhum leitor pode ser considerado passivo. A leitura é um esforço contínuo que depende da sua capacidade de agir e pensar.
  10. “Como se deve ler um livro?”, pergunta Woolf, que não contou com a ajuda da filosofia da mente para chegar a uma resposta (se quiser saber mais, procure por Daniel Dennett, John McDowell e David Chalmers). De acordo com essa gente maluca, você pode ler um livro consciente dessa troca — consciente da máquina infernal que é o livro, e da máquina infernal que é você.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.