Sérgio Rizzo, jornalista e crítico de cinema, escreve sobre o diretor Ingmar Bergman e sua relação com as obras do escritor norueguês Henrik Ibsen, lançado recentemente pela Carambaia.

 

 

Bergman, o construtor. De filmes, telefilmes e séries de TV, como nós, os não-escandinavos, o conhecemos. Mas, como sabem principalmente os suecos, ele ergueu três vezes mais obras no teatro do que no audiovisual. Escreveu dezenas de peças (algumas das quais deram origem a filmes, enquanto outras nasceram de roteiros), encenou-as e também as de autores clássicos e contemporâneos, e dirigiu companhias. Dizia que o teatro era a "esposa fiel", enquanto o cinema era a "amante cara". Tudo o que fez no cinema e na TV pode ser entendido como empreitada de um apaixonado construtor teatral às voltas com um outro tipo de edificação, do qual também viria a se tornar mestre.

 

Na ainda hoje intocada biblioteca da casa à beira do mar Báltico onde Ingmar Bergman (1918-2007) viveu suas últimas quatro décadas, na ilha de Fårö, três coleções da obra completa do sueco August Strindberg (1849-1912) se destacam. O norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), provável segundo colocado em número de volumes, também ocupa diversas prateleiras. Quem deseja extrair mais prazer da navegação pelo cinema de Bergman tem manancial precioso nesses dois dramaturgos. Atmosferas, tramas e subtramas, desenho de personagens, grandes temas — muita coisa derivou dali.

 

O caminho inverso também é verdadeiro: as montagens teatrais que Bergman dirigiu a partir de textos de Strindberg e Ibsen correspondem, segundo as felizes testemunhas desses trabalhos, ao que de mais estimulante alguém extraiu deles. O levantamento mais completo e agudo talvez seja o feito pelo crítico sueco Henrik Sjögren no livro "Lek och Raseri - Ingmar Bergmans teater 1938-2002" (Peça e fúria - O teatro de Ingmar Bergman 1938-2002). Quatro dramaturgos encenados em diversas ocasiões pelo diretor ganham longos e exclusivos capítulos: Molière, Shakespeare, Ibsen e Strindberg.

 

O mapeamento dedicado ao "melhor de Ibsen" por Bergman começa por uma montagem de "Peer Gynt" em 1957, com Max von Sydow, em Malmö, cujo teatro municipal Bergman dirigiu. Ele faria outra marcante encenação do mesmo texto em 1991. "Hedda Gabler" ganhou uma célebre montagem em 1964, com a atriz Gertrud Fridh (que fez "Morangos Silvestres" e "O Rosto", entre outros filmes de Bergman), e foi encenada pelo diretor também em Londres, em 1970, com Maggie Smith, a convite de Laurence Olivier, então diretor do National Theatre, e em Munique, em 1979.

 

Max von Sydow deixou suas pegadas em uma montagem clássica de "O Pato Selvagem" em 1972. Pernilla August (a mãe de Anakin e avó de Luke Skywalker na saga "Star Wars") fez uma Nora de antologia em "Casa de Bonecas", em 1989. "John Gabriel Borkman" (em 1985) e "Espectros" (em 2002, novamente com Pernilla — que, lembre-se, encarnou a mãe de Bergman em "As Melhores Intenções") formam o "pelotão de choque" das montagens de Ibsen por Bergman, de acordo com Sjögren.

 

Bergman escreveu, no início dos anos 1980, a sua própria e minimalista versão de "Casa de Bonecas", que chamou de "Nora", e que integrou um ambicioso projeto itinerante (nascido na Alemanha) com sete horas contínuas de encenação, complementadas por "Julie" (sua versão particular de "Senhorita Júlia", de Strindberg) e por "Cenas de um Casamento" (adaptada de sua própria minissérie de TV). O livro "Ingmar Bergman - A Project for the Theatre", organizado por Frederick J. Marker e Lise-Lone Marker, traz os textos montados nessa ocasião (em inglês), entrevistas com o diretor e outros materiais. Em 1991, três montagens dirigidas por Bergman no Teatro Nacional da Suécia — "Casa de Bonecas", "Senhorita Júlia" e "Longa Jornada Noite Adentro", de Eugene O'Neill — fizeram, em conjunto, outra consagradora excursão internacional.

 

Sérgio Rizzo é jornalista, professor, crítico e curador de cinema, doutor em Audiovisual e Educação pela ECA-USP. Participou da Bergman Week, organizada pelo Bergmancenter, em 2016 e 2017. Em abril, dará o curso "Bergman: 100 Anos, Mais 10 Filmes", no Espaço Itaú de Cinema, em São Paulo.