Os livros na estante do pai foram o passaporte para o mundo da literatura. Anos mais tarde, Luciana Hidalgo ocuparia espaço nas estantes alheias.

Por Paulo Jebaili

O movimento é um aspecto muito presente na obra da escritora Luciana Hidalgo. As figuras centrais de seus livros transitam entre o real e o imaginário. Seu primeiro livro, Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto (ed. Rocco, 1996, 2011), conta a biografia do artista sergipano que, mesmo confinado em um hospital psiquiátrico, produziu uma obra que ganhou o mundo. No segundo, o romance O passeador (Rocco, 2011), o protagonista, inspirado em Lima Barreto, flana por um Rio de Janeiro concreto e metafísico.

Andar e observar o que está ao seu redor também faz parte do processo criativo de Luciana, como conta nesta entrevista feita por e-mail. Ela está em Paris, preparando um romance a ser lançado este ano. A vida no Rio e na capital francesa é outra marca do deslocamento dessa escritora, que começou a carreira no jornalismo. Doutora em literatura comparada, com pós-doutorado na Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris III, Luciana é também autora do ensaio Literatura da urgência (ed. Annablume). A seguir, ela relembra passagens de seu percurso pelo universo das palavras.

  

Como foi o seu contato com os livros na infância e na adolescência?

LH: Meu pai é um leitor contumaz, ele lê de tudo, sem muito filtro. Então, na infância eu pegava em sua estante o que encontrava, assim a esmo, sem nenhum filtro também. Isso fez com que eu lesse, por exemplo, Servidão humana, de Somerset Maugham, aos 10 anos. Meu pai – que é advogado e trabalhava muito, estava pouco presente em casa – nem percebia que seus livros sumiam e reapareciam na estante. Por isso, talvez não percebesse que a filha lia livros “impróprios”. Sorte minha.

Na infância herdei também as leituras da minha irmã mais velha, outra boa leitora. Entre essas, havia os livros de uma tal Condessa de Ségur: gostei tanto de Sofia, a desastrada, que li sete vezes – lá pelos meus 7 anos. Lia também Monteiro Lobato, tendo um carinho especial por A chave do tamanho. E havia ainda as leituras do colégio, entre as quais destacaria dois livros marcantes, se não me falha a memória receitados por uma mesma professora, a dona Yolanda: Dom Casmurro, de Machado de Assis, e Laços de família, de Clarice Lispector. Adorei esses livros, foram para mim uma revelação, cada qual em sua particularidade.

Na adolescência passei a comprar livros, a ir à livraria, e meu primeiro coup de coeur foi Jean-Paul Sartre: a leitura de A idade da razão e As palavras foi fundamental na minha decisão de um dia ser escritora.

O trânsito por esse mundo das letras influenciou na escolha pelo jornalismo?

LH: Quando eu tinha 9 anos, essa mesma professora, Dona Yolanda, um dia disse que todos nós, alunos, poderíamos escrever um livro e perguntou quem tinha vontade. Eu, embora discreta, tímida, levantei o dedo e ela me colocou em dupla com uma colega para a empreitada. Lembro-me de escrever uma história de detetives mirins no fundo de um mar, mas a tal colega resolveu parar o projeto, e meu primeiro livro ficou interrompido. Sempre adorei escrever, era louca pelas aulas de português e vejo hoje o quanto uma professora como a Dona Yolanda faz diferença na vida de uma criança. Sempre gostei dos ditados e das redações. Escrever era algo muito fácil para mim. A escolha do jornalismo veio também facilmente, porque era a única forma então de tornar “prática” a escrita. Minha família é muito pragmática, ninguém lá é muito das artes e das abstrações, então eu tentei levar a minha vontade de escrever para uma profissão, digamos, mais pragmática, com possibilidade de emprego, carteira assinada etc.

O jornalismo exerce alguma marca na sua escrita?

LH: Aprendi a escrever com rapidez e eficiência no jornalismo. Trabalhei muitos anos no saudoso Jornal do Brasil, onde havia uma equipe de ótimos redatores para corrigir e alterar diariamente os textos dos repórteres. Aprendi muito ali, não só com a prática em si, pois tinha de apurar uma matéria por dia e depois fazer daquela história um texto minimamente bom e legível, mas também com as observações e correções dos redatores. Eles me elogiavam, me incentivavam. Desse período ficou o primeiro aprendizado, mas principalmente o desejo de que meu texto seja claro e que tenha certa musicalidade, um ritmo. Mantenho isso na minha ficção, mas na literatura posso ir adiante, pois o espaço autoral é onde posso ser mais libertária, poética, tanto no conteúdo quanto na estética.

O que a levou a contar a história de Arthur Bispo do Rosário? Como foi o processo de escrita dessa obra?

LH: Em 1984, no segundo ano de jornalismo na faculdade de Comunicação, a minha professora de português, Suzana Vargas, convidou o fotógrafo e psicanalista Hugo Denizart para exibir seu filme O prisioneiro da passagem, feito com Arthur Bispo do Rosário. Os alunos deveriam assistir, entrevistar o diretor e escrever sobre o tema. Fiquei maravilhada. Foi um homem capaz de criar uma obra de arte fenomenal na condição de paciente psiquiátrico, na cela minúscula de um dos hospícios mais violentos da história da psiquiatria no Brasil (a Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro). Seus bordados, suas assemblages, seus escritos poéticos, tudo era de uma grande beleza lúdica, no entanto, tinham sido criados num manicômio durante quase 50 anos de internação. Anos depois, em 1989, vi a exposição de Bispo no Parque Lage e fiquei tomada pelas obras, sobrecarregadas de histórias. Em 1994, quando trabalhava no Jornal do Brasil, li uma matéria sobre a obra de Bispo, na época em mau estado, meio abandonada na Colônia, e toda a minha admiração voltou.

Comecei a fazer uma pesquisa maior sobre ele e decidi escrever a sua biografia, o que poderia parecer estranho, já que se tratava de um homem pobre, tido como “louco”, ainda pouco conhecido. Mas a gerente editorial Vivian Wyler e o editor Paulo Rocco (da editora Rocco) toparam e eu me dediquei inteiramente ao projeto. Uma dessas paixões que nos levam a ampliar nossos próprios limites. Pedi demissão do Jornal do Brasil para fazer a pesquisa, pegava meu Chevetinho sem ar-condicionado, ia para o hospício em Jacarepaguá no auge do verão do Rio, entrevistava funcionários, psiquiatras e pacientes. Tudo isso sem nenhum tipo de apoio financeiro. Eu fazia trabalhos como free-lancer para me sustentar e seguia adiante.

Ouvi histórias de arrepiar e tinha muitos pesadelos, porque a Colônia traz todo o peso dos equívocos psiquiátricos ao longo do século XX (eletrochoques, lobotomias, punições). Mas achava que Bispo valia o esforço. E valeu. Ganhei, por esse livro, meu primeiro prêmio Jabuti em 1997, na categoria “reportagem”. E com os anos esse livro se tornou obra de referência para as mais diversas dissertações de mestrado e teses de doutorado no Brasil e no exterior.

O livro serviu de inspiração a uma peça teatral e a um longa-metragem, recentemente lançado. O que achou dessas adaptações?

LH: Não assisti à peça de teatro, mas participei do processo do filme O senhor do labirinto desde o início. Escrevi o roteiro junto com o diretor Geraldo Motta, acompanhei passo a passo: da escolha do ator, o excepcional Flávio Bauraqui, às filmagens, à montagem etc. Gosto muito do resultado final, pois acho que o filme traz o essencial de Arthur Bispo do Rosário. Claro que meu livro tem muitas informações a mais, que não dá para incluir num filme de 80 minutos, mas esse longa-metragem mostra toda essa beleza do Bispo, de sua fé, de suas conversas com os anjos, de seu dia-a-dia no hospício. Explica como ele conseguiu driblar a psiquiatria para fazer uma obra tão extraordinária. 

O seu segundo livro, O Passeador, é uma criação em cima de um personagem real, Lima Barreto. Como foi esse salto da biografia do primeiro livro para o campo da ficção?

LH: Por ter começado a carreira no jornalismo, e talvez também por ser ainda tão jovem, um dia já acreditei na “verdade”, na possibilidade de contar uma história sendo imparcial. Mas a experiência de escrever Arthur Bispo do Rosario – O senhor do labirinto me mostrou que não era bem assim. A história de Bispo, talvez por se passar num hospício e tratar de temas tão abstratos quanto “loucura” e misticismo, me levou a ampliar a minha própria ideia de uma verdade absoluta. Lembro-me de um dia em especial, quando apurava histórias no hospício e não encontrava lógica alguma. Estava meio desorientada e, numa conversa com o diretor da Colônia, ele me disse: “Não tente encontrar muitas explicações, isso aqui é um hospício”. Essa frase foi libertadora, porque daí em diante pude transgredir os fatos para narrá-los de forma mais livre, por isso mais criativa. Já tinha quase dez anos de jornalismo quando escrevi esse livro, então mantive todo um rigor de pesquisa e apuração, ou seja, não inventei absolutamente nada sobre a vida de Bispo, mas me permiti ousar na narrativa. Conto então toda a história numa estrutura de narrativa ficcional, e não como uma grande matéria jornalística.

Foi essa experiência que me levou a flertar com a ficção. Em seguida, pensei em escrever a biografia de Lima Barreto, mas decidi ir além e fazer uma ficção a partir desse escritor, que eu já conhecia tão bem por ter sido o objeto da minha tese de doutorado, publicada depois como ensaio (Literatura da urgência – Lima Barreto no domínio da loucura).

Então fui com tudo para a ficção, misturei dados reais e ficcionais, criei personagens, e fiz Afonso (Lima Barreto) circular no Rio da Belle Époque, uma das mais interessantes épocas da cidade, quando era a capital do Brasil. Quis contar a história de um escritor marginal, que via toda a europeização do Rio com inteligência e humor, e para isso explorei tanto o seu universo íntimo quanto a cidade em metamorfose, pois a trama se passa durante a grande reforma urbana de Pereira Passos. O passeador fala da cidade concreta e de uma cidade imaginária.

Você tem algum ritual quando está produzindo um livro?

LH: Escrevo sempre em casa, no Rio ou em Paris. Não escrevo uma frase sequer em espaços coletivos, mas é nos espaços coletivos que mais crio. Em geral, acordo, tomo café, vou para o computador e escrevo por no máximo quatro horas por dia. No final do dia saio para caminhar. Sou muito “passeadora”. E nessas andanças observo. A chamada “realidade” me inspira demais: as pessoas nas ruas, os trejeitos, os tipos. Então continuo a escrever mentalmente, sem tomar notas, até voltar para casa. Mas se eu não acordar “inspirada”, não escrevo, prefiro ler. Não tenho ritual algum antes da escrita, mas às vezes gosto de ler um poema (recentemente, Fernando Pessoa), para “afinar”. Quando noto que dou voltas em torno da mesa, que estou dispersa etc., desisto simplesmente de escrever, não forço nada, e vou ler. Ler é uma forma de escrever.

Está escrevendo algum livro no momento?

LH: Nesse momento escrevo meu segundo romance, Rio-Paris-Rio. É um livro sobre o exílio e o ser estrangeiro, sobre política e afeto. Descrevo o cotidiano de um grupo de jovens autoexilados reunidos em Paris em 1968-69, ou seja, durante a ditadura civil-militar no Brasil. É uma ficção que questiona os limites entre esquerda e direita, militância e afeto.

Costuma mexer muito nos originais ou sente claramente quando chegou à versão final?

LH: Sou uma obsessiva no que diz respeito aos originais. Rescrevo dezenas, talvez até uma centena de vezes. E não avanço na escrita se as páginas anteriores não estiverem minimamente razoáveis. Escrever, para mim, é um processo muito lento. Porque escrever é rescrever – e a rescrita toma muito tempo. A ficção exige atenção e lentidão, porque é necessário manter uma homogeneidade no estilo, um mesmo ritmo. Toda manhã, por exemplo, antes de começar a escrever, releio o capítulo anterior. É para manter o ritmo. Mas, a cada releitura, faço pequenos ajustes, mudo uma palavra, uma vírgula, ou acho um adjetivo meio excessivo. Até passar para o “novo” trecho do dia, já rescrevi dez páginas. Por isso não me cobro prazos de entrega dos originais: só acabo quando estou realmente contente com o resultado. E, para se ter todo esse distanciamento do próprio texto, é preciso tempo, tempo, tempo.

Durante o tempo da descoberta do prazer da leitura, houve algum autor ou alguma obra que te causou um alumbramento? Que descortinou o que o mundo da literatura poderia ser?

LH: Machado de Assis. Era um escritor genial já no século XIX, manobrando como poucos na época o clássico e o moderno, estando à frente de seus contemporâneos no Brasil, "acima do bem e do mal". Memórias póstumas de Brás Cubas é o exemplo maior dessa excelência, um romance que tem conteúdo, humor, ironia, sutileza, estilo. Grandes clássicos atravessam décadas, séculos, porque criam admiráveis mundos novos num só volume, independentemente de suas épocas. E o mais importante: são frutos de genuínas buscas estéticas de seus autores, não de uma ideia vaga de "experimentar por experimentar". Machado de Assis tinha o que narrar, o que dizer, e o disse de forma elegante, consistente, engraçada. Ao ler Memórias póstumas de Brás Cubas, tive a dimensão de um mundo que ainda não conhecia, pleno de possibilidades, signos e, sobretudo, transgressões. Criar, na literatura, inclui fundamentalmente transgredir: a gramática, o léxico, a própria língua.

Houve algum autor que, depois de você o ler pela primeira vez, teve vontade de emendar com outras obras dele? 

LH: Estranhamente sempre pulei de livro em livro, de autor em autor. Sou obcecada pela obra em si, a que está em minhas mãos na hora da leitura, e nunca penso que um mesmo escritor possa colecionar apenas obras-primas. Em geral, para se chegar numa obra-prima, já se experimentou muito, nem sempre com tanta qualidade. Nunca quis ler obras em sequência, de um mesmo autor, tampouco me interessei em ler as biografias desses autores. Me apego ao texto escrito, às palavras, à leitura presente. Só fiz leituras sequenciadas quando escrevi a minha tese de doutorado, pois tive vontade de ler tudo, absolutamente tudo o que Lima Barreto escreveu. É claro que ele, como todo autor, tem altos e baixos, melhores e piores livros, mas nesse caso quis entender sua evolução, sua cronologia. E me maravilhei com essa trajetória, lendo também a sua biografia, seus diários íntimos, a fortuna crítica. É uma forma muito intensa e demorada de se conhecer um autor, e obviamente não teria tempo de fazer o mesmo com todos os escritores que me agradam. O que, aliás, é uma pena. Na falta de tempo, portanto, divido-me mais democraticamente entre vários autores, até porque gosto também de ler os contemporâneos.

Pelo critério de prazer, de fruição, que autor você destacaria pelo conteúdo que constrói e qual apontaria como mestre do estilo ou forma?

LH: Gosto mais quando o escritor alia conteúdo e forma, é o que o torna perfeito, redondo, "clássico". A exemplo de: Machado de Assis, Borges, Balzac, Shakespeare, Nabokov, Graciliano Ramos, Cortázar...

Tem algum hábito que acompanha a leitura?

LH: A leitura, para mim, é um hábito, e mais: uma necessidade. Ou seja, é como escovar os dentes, comer, beber. Então leio onde é possível, sentada, deitada, dentro de casa, no parque, na praia, diariamente.