George Orwell passou os últimos meses de sua vida afirmando que jamais deixara de ser socialista. O escritor inglês publicou 1984 em 1949 e, até morrer, em maio de 1950, tentou defender sua última obra da apropriação dos conservadores que a interpretavam como uma devastadora crítica ao comunismo e, por extensão, ao socialismo.

 

O famoso livro enxovalhava o stalinismo, regime que Orwell atacou desde quando se deparou com ele durante a Guerra Civil Espanhola, na qual lutou nas brigadas internacionais do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), em 1936. De linha trotskista, o POUM foi expulso do conjunto das tropas que enfrentavam o franquismo por pressão soviética. Revoltado com o que presenciou na Espanha, Orwell se dedicou a bater no regime de Stálin, assim como fez com Hitler ou qualquer outro tirano. Contudo, morreu sendo considerado um socialista vira-casaca por parte da esquerda e um intelectual que se convenceu de que o socialismo era o mal a ser combatido por parte da direita. Ainda hoje, 70 anos depois da publicação de 1984, não é incomum o posicionamento político de Orwell voltar a ser debatido.

 

Esse é apenas um caso clássico da leitura deturpada que se faz de uma obra literária para uso político. A lista é imensa e os níveis de distorção das intenções de seus autores, também. O fato é que sempre haverá um embusteiro disposto a descaracterizar uma obra e usá-la para avalizar suas ideias. Quem já leu atentamente um escrito sagrado de qualquer religião e o comparou com as versões de muitos dos seus pregadores percebe isso rapidamente.

 

Se nos restringirmos apenas aos textos testemunhais das vítimas de tiranias no século XX, encontraremos uma enorme quantidade deles que se tornaram centrais não apenas no universo literário, mas também na compreensão histórica do mundo. Daí a importância da literatura como suporte da memória de momentos nefandos. Evidentemente, pela proximidade que muitas dessas obras têm do nosso tempo, acabam sendo incômodas para quem depende da ignorância do passado para cobiçar algum tipo de poder. Desse modo, o resgate da lembrança vem sempre acompanhado pelo interesse no esquecimento. Se este não for possível, perverte-se a memória.

 

O Brasil é um caso explícito desse cabo-de-guerra entre a busca e o apagamento da memória. O país sempre teve enorme dificuldade de lidar com a violência e opressão de seu passado temendo que o contato com ele desestabilize o presente. A crença positivista na ordem e progresso renega brutalidades pregressas. Há um enorme esforço dos grupos dominantes para que o esquecimento das mazelas históricas sempre se sobreponha àqueles que ousam retornar às questões nunca resolvidas.

 

Assim, a literatura que trata do autoritarismo político e econômico, seja ele rural, industrial, militar ou financeiro, dificilmente se propaga entre as barreiras de uma crença sedimentada nos mitos da cordialidade, da pacificidade e de um futuro promissor que nada tem a ganhar com a rememoração de seus episódios mais sombrios. Não por acaso, rejeita-se até mesmo um retorno relativamente curto no tempo aos fatos da ditadura militar brasileira. Tirar a importância da violência e do retrocesso do período é uma forma de jogar aqueles governos num discurso ambíguo preservando uma ignorância histórica que é um prato cheio para os revisionistas de plantão, sempre prontos a relativizar os assassinatos, torturas e perseguições de um determinado regime autoritário ao mesmo tempo em que infla e condena os crimes semelhantes de um outro regime autoritário para além dessas fronteiras. Enquanto em muitos países a retomada da memória, ainda que dolorosa, leva criminosos a julgamento, no Brasil segue amplo o espaço para enaltecer algozes e criminalizar vítimas.

 

O momento presente é particularmente sórdido para o debate da memória no Brasil. O discurso revisionista está no poder. Ainda que em outros governos recentes o esquecimento sempre fosse mais forte que a memória e a manipulação dela nunca tenha dado trégua, há alguns anos jamais imaginaríamos ouvir descaracterizações e descontextualizações da história do Brasil de maneira tão despudorada como as correntes.

 

Qualquer manifestação artística ou intelectual no Brasil de agora está sujeita ao desprezo ou à cooptação, dependendo se seu teor corrobora ou não as ideias de determinado grupo. O espaço para a discussão está descartado; qualquer posicionamento é visto de maneira dicotômica: pró ou contra. Se acrescentarmos que o universo do debate é fragmentado em redes sociais e que o fluxo de informações vem majoritariamente de fontes sem nenhuma credibilidade, é raro encontrarmos aquele tipo de leitor que se debruça sobre uma obra e tenta estabelecer um diálogo com o autor.

 

O navio quebra-gelo

Em 2019, a CARAMBAIA vai lançar livros que são extremamente sensíveis à apropriação ideológica e desfigurações da memória. O mais conhecido é Arquipélago Gulag, de Aleksandr Soljenítsyn. Poucas obras, até mesmo a de George Orwell, foram tão polêmicas e controversas quanto a de Soljenítsyn. Nem tanto pelo que ele disse em seu texto, uma exposição da inegável tirania sanguinária de Stálin, mas pela forma como grupos distintos exploraram e ainda exploram a imagem do autor.

 

Nos meses finais da Segunda Guerra, quando servia num regimento de reconhecimento de artilharia, Soljenítsyn teve interceptada uma carta para um amigo na qual mencionava Stálin de forma irônica. Isso bastou para que fosse preso por oito anos. Até 1950, ficou trabalhando num instituto de pesquisa por ter graduações em matemática e física. Os últimos anos, cumpriu pena num campo de prisioneiros políticos fazendo trabalho braçal.

 

Depois de solto, passou a lecionar e a escrever. Beneficiou-se dos ataques de Nikita Khrushchev ao “culto da personalidade” de Stálin e, por isso, publicou, em 1962, Um dia na vida de Ivan Denisovich na revista Novi Mir (Novo Mundo), marco da literatura antistalinista do período. Pela primeira vez os campos de extermínio estavam sendo discutidos abertamente na União Soviética. Após o afastamento de Khrushchev, em 1964, suas obras foram proibidas no país e o cerco a ele se apertou, principalmente quando outras obras, como No pavilhão dos cancerosos, foram publicadas em 1968 fora da União Soviética. Em 1970, ganhou o Nobel e o reconhecimento internacional o tornou grande demais para ser tratado como um artista “antirrevolucionário” comum em seu país. Contudo, quando Arquipélago Gulag1, seu livro mais conhecido, foi lançado no exterior em 1973, sua situação ficou insustentável. Soljenítsyn, que trabalhara incessantemente na obra nos anos anteriores esperando ser preso a qualquer momento sabia disso, pois, além de suas memórias, usou de informações fornecidas por diversos sobreviventes dos gulags. Para publicá-lo microfilmou o texto e o enviou clandestinamente para fora da União Soviética. O resultado foi sua expulsão do país. Depois de rápida passagem por Zurique, foi para os Estados Unidos, onde morou por 18 anos.

 

No exílio, Soljenítsyn se tornou um dos grandes críticos do comunismo, do stalinismo e, para horror do Partido Comunista soviético, do leninismo. A partir daí, o grande autor russo, colocado por muitos no mesmo patamar de Dostoievsky e Tolstoi, começou a ser visto de forma controversa. Suas declarações causavam constrangimento não só para a União Soviética, mas para os Estados Unidos e até seus antigos apoiadores, para quem suas falas e escritos pareciam cada vez mais autoritários e intransigentes. Ele não tolerava qualquer debate acerca de suas afirmações. Ou você concordava com ele, ou era seu inimigo.

 

No início da década de 1960, na brecha do governo Khrushchev, Soljenítsyn encontrou Varlam Chalámov na redação da Novi Mir. Chalámov, também sobrevivente dos gulags, passou três vezes por campos de concentração soviéticos acumulando dezesseis anos aprisionado, inclusive sobrevivendo a 1938, o pior ano do Grande Expurgo. A partir dessas experiências, escreveu os estarrecedores Contos de Kolimá. Na conversa dos dois, anterior à publicação de Arquipélago Gulag, Chalámov chama Soljenítsyn de “navio quebra-gelo”, pois abre caminhos e revela a verdade dos campos. Chalámov também escreveu uma carta a Soljenítsyn depois de haver lido Arquipélago Gulag. Os comentários, na maioria elogiosos, também levantam algumas dúvidas sobre o que Soljenítsyn vira nos campos. Essas diferenças na visão dos gulags vão aumentando com o decorrer do tempo e a admiração mútua se torna um festival de acusações. Para Chalámov, Soljenítsyn era usado pelo Ocidente como instrumento de propaganda antissoviética. Este, por sua vez, acusava Chalámov de ser conivente com o leninismo2.

 

O jornalista e escritor britânico-americano Simon Winchester disse que o autor se tornara o queridinho dos rednecks. O crítico literário George Steiner afirmou à época que “as bobagens de tipo oracular que ele declarou sobre o Ocidente indicam não só ignorância, mas também indiferença”3. A ensaísta Susan Sontag recordou que era comum nos meios intelectuais norte-americanos citar Soljenítsyn de forma jocosa. Numa dessas oportunidades, revelou ao jornalista David Remnick que ela e o escritor russo-americano Joseph Brodsky riam de uma declaração de Soljenítsyn quando Brodsky comentou que, apesar dos pesares, o que ele contava em Arquipélago Gulag era tudo verdade4.

 

Enquanto isso, na União Soviética, havia regozijo com a recepção de Soljenítsyn no exterior. Iúri Andropov, o lendário chefe da KGB, divulgou um memorando aos líderes do Partido Comunista afirmando que o exilado era visto no Ocidente como um antissemita que bradava pela volta dos czares. Evidentemente, uma visão vulgar, pois a recepção de Soljenítsyn foi variada. Na França, por exemplo, onde o stalinismo ainda tinha força entre os intelectuais, Arquipélago Gulag mudou o direcionamento de muitos pensadores marxistas. Vale ressaltar a relevância do fato, pois o stalinismo não esmoreceu globalmente mesmo depois do efêmero período em que as confissões de Khrushchev apontaram para a face tenebrosa de seu antecessor. Como conta Hannah Arendt, seus crimes foram minimizados por muitos eruditos soviéticos que reverberavam no exterior, pois estavam envolvidos com o que aconteceu durante o governo de Stálin5. Interpretação igualmente obtusa foi a leitura feita de suas obras pela direita mais lunática e retrógrada que abraçou algumas declarações disparatadas para divulgar a obra de Soljenítsyn a fim de corroborar um anticomunismo ferrenho e resgate dos valores cristãos.

 

Otto Maria Carpeaux, de forma bem mais elegante, diz que “os romances de Soljenítsyn já foram considerados, por muitos críticos competentes, pontos altos da literatura russa, de um fôlego épico, enquanto outros críticos, igualmente competentes, só percebem nessas obras um retrocesso ao Realismo do século XIX. É evidente que essas opiniões contraditórias estão influenciadas, neste ou naquele sentido, pela ideologia do autor, que proclama sua fidelidade à Igreja Ortodoxa e aos ideais cristãos dos quais espera a salvação da Rússia”6.

 

É fato que Soljenítsyn criticou tanto a opressão política do Leste quanto o materialismo do Oeste enquanto proclamava as virtudes do antigo e religioso modo de vida russo. Nos anos que passou exilado, morou isolado em Vermont e mal saiu de casa. Não tinha nenhum interesse pelos Estados Unidos ou pelo Ocidente. Viveu esse período, segundo ele o mais rico em termos de produção literária, trabalhando o tempo todo em seus textos.

 

Em 1990, Gorbachev ofereceu a cidadania de volta ao autor num movimento de resgate de artistas exilados. Em 1991, a acusação de traição foi retirada. Apesar de ter seu exílio encerrado, Soljenítsyn ainda retardou por algum tempo seu retorno ao país natal. O período que antecedeu sua volta à Rússia, em 1994, foi marcado pela tentativa de diferentes grupos de atacar ou glorificar o autor. Em seu país ele era visto como uma lenda, um símbolo moral que retornava para grandes realizações. Era o favorito nas pesquisas para as futuras eleições presidenciais, apesar de negar veementemente que fosse concorrer ou aceitar qualquer cargo público.

 

A grande expectativa da direita russa de que o autor seria alguém que se contraporia aos liberais foi refreada com a publicação do ensaio “Como reconstruir a Rússia”, claramente anti-imperialista e pró-democracia. Os capitalistas liberais também desistiram de colar sua imagem à dele, pois aqueles que interpretavam suas críticas anticomunistas e antimarxistas como uma defesa de valores democráticos perceberam seu apreço pelo nacionalismo e autoritarismo moral e espiritual que, segundo o autor, estava nas raízes russas. Ao mesmo tempo, o ataque comunista que o considerava antissemita e czarista perdeu força. Soljenítsyn se negava a construir uma defesa das acusações de antissemitismo por nunca ter dito algo nesse sentido, assim como afirmava que suas críticas à cultura pop, ao consumo, ao individualismo e à negligência da busca espiritual, principalmente entres os jovens, eram deturpadas pelas pessoas que o definiam como arcaico.

 

Os últimos anos do autor de Arquipélago Gulag são de apagamento. Sua enormidade como figura pública perde força na sociedade pós-soviética. Os romances históricos sobre a Revolução Russa, nos quais passou mais de trinta anos trabalhando, são friamente recebidos. Desiludido com a ocidentalização da cultura Russa, apoia timidamente figuras autoritárias como Vladimir Putin. Suas aparições televisivas são praticamente ignoradas por novas gerações de russos que também não viam nenhum apelo nos livros que continuou escrevendo.

 

Com sua morte em 2008, houve uma retomada do autor e novamente vários grupos voltaram ao debate bizantino acerca de suas ideias e, especialmente, de seus textos, interpretados livremente pelos mesmos antagonistas ideológicos de sempre. Como bem lembra o crítico literário italiano Walter Siti, “[...] os regimes totalitários, quando querem condenar um romance, salientam nele interpretações alegóricas que o autor deve apressar-se em desmentir: diante dos acusadores, que interpretam O pavilhão dos cancerosos como uma alegoria da sociedade soviética (vista exatamente como um ‘tumor incurável’), Soljenítsyn responde que ‘existem detalhes médicos demais para um símbolo’, e conclui que ‘se algum de vocês for hospitalizado, verá se se trata ou não de uma alegoria’”.7

 

As boas e más decisões de Soljenítsyn, assim como suas declarações quase sempre solenes e intransigentes, foram responsáveis pela contradição que alimentou diferentes grupos em torno de sua fama. Sua obra é irregular, alterna escritos brilhantes com textos enfadonhos e cheios de solenidades. A incapacidade de Soljenítsyn dialogar com quem pensava de forma divergente era, na opinião de David Remnick, “um senso perfeitamente acurado de sua missão e seu lugar no mundo”.8 Para o jornalista, ninguém fez tanto para desiludir o Ocidente ao mesmo tempo em que destruía o governo soviético mostrando ao seu povo do que se tratava aquele regime. A controvérsia de seus posicionamentos é muito mais uma obra de interesseiros ideológicos do que, de fato, de sua natureza. Ainda hoje, a dificuldade para interpretar Arquipélago Gulag ou qualquer outro livro do autor de forma minimamente independente é ter de lidar com o nevoeiro criado pelas legiões de seguidores de enganadores intelectuais que, no final, foram responsáveis por enturvar a grandeza literária de Soljenítsyn.

 

Autores e memória

Além de Arquipélago Gulag, a CARAMBAIA vai lançar Lasca (1923), de Vladímir Zazúbrin, e O caso Tuláiev (1938), de Victor Serge. Ambos os livros têm como norte também a exposição do horror stalinista. Chamá-los unicamente de críticas ao comunismo é simplista, uma vez que Victor Serge, por exemplo, sempre foi um ensaísta político anarquista, que chegou a aderir ao Partido Comunista soviético, mas que acabou perseguido por suas críticas ao leninismo e ao stalinismo. Zazúbrin, por sua vez, apesar de descrever os pavorosos extermínios de opositores do regime, nunca foi um anticomunista. Assim como aconteceu com Soljenítsyn, esses autores menos conhecidos correm riscos constante de serem utilizados por grupos que tentam impor suas crenças convenientemente distorcendo ou omitindo aspectos da obra e da vida do autor para alinhá-las na defesa de determinadas ideias. O resultado é sempre o mesmo: a negligência do valor literário dos textos.

 

No caso dos autores citados, convicções pessoais não são o mais relevante, pois os livros têm grande força literária. Além disso, deram voz, a partir de suas experiências, a milhões de pessoas que sobreviveram ou não às terríveis perseguições despóticas na União Soviética do mesmo modo que tantos escritores fizeram em diversos outros lugares e períodos.

 

Que leiamos e valorizemos a arte e a memória de Primo Levi, Paul Celan, Charlotte Delbo, Imre Kertész, Jean Amèry, Ruth Kluger, Tadeusz Borowsky, Aleksandr Soljenítsyn, Elie Weisel, Robert Antelme, Czesław Miłosz, Varlam Chalámov, Victor Serge, Rodolfo Walsh, Vladímir Zazúbrin, Ievguêni Zamiátin, Renato Tapajós, Victor Klemperer, Pablo Neruda, Irène Nemirówsky e outros que morreram, foram presos ou perseguidos por regimes totalitários e deixaram em suas obras relatos para que as atrocidades destes não se repitam.

 

Fabiano Curi é editor da CARAMBAIA.

 

 

Notas

  1. O livro será lançado pela CARAMBAIA no final de 2019.
  2. Os volumes dos Contos de Kolimá foram publicados no Brasil pela Editora 34.

  3. REMNICK, David. “The Exile Returns”. The New Yorker, 14/02/1994.

  4. Idem, Ibidem.

  5. ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Companhia da Letras, 2000.

  6. CARPEAUX, Otto Maria. História da literatura ocidental. Leya, 2014.

  7. SITI, Walter. “O romance sob acusação”. In MORETTI, Franco (Org): O Romance - Volume I, A Cultura do Romance. Cosac & Naify, 2009.

  8. REMNICK, David. O túmulo de Lênin: os últimos dias do Império soviético. Companhia das Letras, 2017.

 

Foto

Memorial das vítimas do Gulag, Moscou. (c)Evdoha/Adobe