1. Caminho entre as bancas da Feira do Livro de Porto Alegre com C. Estou à procura de um livro para retribuir o que ganhei. “Vou te dar um do Vila-Matas”, eu anuncio, e aos ouvidos de C. a frase soa como uma ameaça. “Isso é presente de grego”, ela diz, e então eu começo a rir. É um exemplo da falta de cerimônia que caracteriza nossos debates (normalmente recheados de palavrões) sobre gostos.
  2. O teatro de Sabbath não parece um bom livro para B., que pensa em abandonar a leitura. O romance é um dos mais famosos do Philip Roth, casualmente meu autor favorito. B. sabe disso, mas nenhum de nós dois dá a mínima. Aconselho B. a abandonar Sabbath. Há muitos outros títulos de que ele pode gostar.
  3. Acontece em outras áreas. Filosofia, p. ex. Estou bebendo cerveja com R. num boteco perto do campus. R. é devotado à filosofia analítica. Sentada em uma cadeira de plástico, falo animadamente de Paul Ricoeur. R., que detesta Paul Ricoeur, sacode a cabeça ri enquanto tenta soprar a fumaça do cigarro. Rio também. Damos uma boa olhada no movimento. Mais tarde no mesmo dia, recebo um e-mail de R. contendo um artigo do David Chalmers.
  4. Estou animada e D. sabe disso. Acabei de ler Middlesex, segundo romance de Jeffrey Eugenides, que me pareceu incrível. D. não concorda. Para ele, Middlesex não é o melhor trabalho do autor. Seu favorito é As virgens suicidas, opinião que tem o endosso da maior parte do público e da quase totalidade da crítica. O assunto logo dá lugar a outro.

Todos — C., B., R. e D. — têm argumentos convincentes para defender ou atacar aquilo de que gostam e de que não gostam. Também estão dispostos a ouvir opiniões alheias, mesmo as contrárias. Normal. C., B., R. e D., é claro, têm mais de oito anos de idade. Depois dessa fase, no caso de um desenvolvimento saudável, a maioria das pessoas entende que é possível discordar quanto a preferências, inclinações, simpatias, disposições e interesses em geral. A mera compreensão do fato — não, não é necessário agredir quem rejeita o seu autor ou o seu livro favorito, e sim, é possível discutir com quem pensa diferente entre uma gargalhada e uma cerveja — torna a vida mais leve.

Na Flip de 2011, João Ulbaldo Ribeiro ousou excluir Guimarães Rosa de uma possível lista de influências — ou mesmo de favoritos. “Ele não está entre os autores do meu afeto”, disse ele. Ubaldo Ribeiro fez questão de separar a sua “idiossincrasia pessoal” de uma avaliação objetiva da importância de Guimarães Rosa na literatura. Para os mais exaltados, foi como se a tentativa de diferenciar fato e percepção individual nem tivesse ocorrido. O caso é que João Ubaldo Ribeiro, além de demonstrar uma coragem digna de nota, assinalou o básico: aceitar o valor ou a relevância de um autor ou de um livro (o que é, em último caso, um exercício de objetividade) não é o mesmo que admitir uma simpatia particular. Vistas por outro ângulo, as coisas são idênticas: a ausência de identificação não impede o reconhecimento da importância.

Discutir a respeito de um livro — com um bom amigo ou de forma mais séria — talvez exija um pouco da habilidade de avanço e recuo. Além de levar em conta a experiência de leitura alheia, sem desprezar ou minimizar o que o outro sentiu, parece necessário (até onde for possível) separar fato e percepção. Nesses casos, vale mais o prazer do diálogo do que o objetivo (meio sem sentido) de encontrar um denominador comum. E é difícil ignorar que o tempo também tem seu peso: se ele desenterra certas verdades, também torna difícil a confissão de que esse e aquele não agradaram tanto assim. Quando João Ubaldo Ribeiro disse não gostar de Guimarães Rosa, a reputação do segundo já estava cristalizada. O momento em que se critica não é desprezível.

E aqui parece necessário diferenciar o leitor comum do crítico — mas não de todo. Álvaro Lins, um dos críticos mais importantes que a literatura brasileira já conheceu, acreditava que o leitor especializado, mesmo detendo maior conhecimento, “debaterá os problemas estéticos e morais [de um livro] em face das suas ideias e do seu gosto, argumentando por adesão e repulsão”. O crítico, segundo ele, “será apenas humano”. O impressionismo de Lins saiu de moda, em parte para dar lugar a uma objetividade e uma imparcialidade inatingíveis, mas não perdeu o que tem de mais sincero. Talvez seja hora de resgatar um tantinho do que Lins tinha de melhor.

Se as críticas positivas que escrevi receberam comentários ponderados e educados (mesmo quando discordavam do que eu dizia), o mesmo não se pode dizer das negativas. Todas, sem exceção, receberam comentários rancorosos. “Você não entendeu o livro” é a acusação mais frequente. “Isso é inveja” é a segunda. É surreal, mas lá vai: parece que algumas pessoas se ofendem quando você não gosta daquilo de que elas gostam. Pessoas adultas. Pessoas que, uma vez que conseguiram digitar, não estão imobilizadas por uma camisa de força.

(Imagino que gente assim não consiga frequentar um clube do livro sem ameaçar jogar uns bolinhos ou cuspir chá na cara de alguém, e tudo porque esse alguém ousou discordar de uma opinião favorável sobre um romance. O que alguns veem como uma afronta é a coisa mais natural do mundo. Não, nem todo mundo vai conseguir encontrar alguma coisa com a qual se identificar em Moby Dick e Ulysses. E daí?)

A diferença básica que alguns ainda não conseguiram assimilar: desqualificar um livro não é o mesmo que desqualificar seus leitores. E é por isso, especialmente, que a crítica literária pode ser vista como elitista ou algo do gênero. Dependendo de quem enxerga a coisa, até a quantidade e a qualidade dos argumentos podem parecer ofensivas — quanto mais embasada a contestação, mais furiosos alguns ficam.

Quando um crítico fala mal de um livro de que gostei, isso não altera minha experiência de leitura. Por outro lado, analisando a argumentação com alguma disposição de ânimo, posso perceber ali pontos que antes ignorava. E isso é troca. Nós aprendemos constantemente com o intercâmbio de impressões e de informações. O que é inaceitável é achar que há uma percepção única e correta. Que sua opinião positiva a respeito de um livro invalida todas as outras. Que algum autor ou livro é inatacável. Ou que um parecer desfavorável é uma afronta à sua capacidade de discernimento.

No caso de uma amizade, preciso me sentir livre para dizer que esse me parece ruim, mas, bem, aquele me parece bom, o que pressupõe que, de minha parte, faço um esforcinho para deixar o interlocutor à vontade também. E isso vale para tudo. Mesmo.

Por isso que listas com supostos Livros-obrigatórios me deixam mui desanimada. Listas de Livros-que-você-tem-que-ler e de Livros-que-vão-mudar-sua-vida ou de Livros-que-vão-fazer-de-você-uma-pessoa-melhor. Nada disso existe. Nenhum livro é fundamental — nem Moby Dick, que é meu livro favorito, e que eu gostaria muito, se ainda tivesse oito anos, de forçar todo mundo a ler, ameaçando chorar e xingando quem não gostasse. Mas é isso aí: as pessoas têm percepções diferentes. As pessoas vêm de contextos diferentes, defendem ideias diferentes, têm opiniões diferentes, têm desejos diferentes, têm pulsões diferentes, têm impulsos diferentes. Elas não vão gostar das mesmas coisas. Amigos próximos não vão gostar das mesmas coisas. E vai ficar tudo bem.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.