Uma pesquisa rápida no Google e você verá centenas de listas no estilo livros-que-quase-ninguém-conseguiu-terminar, livros-abandonados-ainda-na-página-vinte, livros-muito-mas-muito-difíceis, livros-que-todos-têm-na-estante-mas-poucos-leram. São inventários que se popularizaram nos últimos tempos, uma vez que o próprio conceito de listas segue em alta.

Confunde-se tudo. Difícil vira sinônimo de enorme. Se um livro tem muitas páginas, passa a ser considerado difícil. Ou chato. Chato é o adjetivo que supostamente complementa o ideal de livro impenetrável exposto ali. No fim das contas, não é só a definição que é meio capenga: as próprias listas são esquizofrênicas. Mistura-se literatura com filosofia, sociologia, antropologia, história. Mistura-se períodos e estilos. Jane Austen surge ao lado de Miguel de Cervantes, David Foster Wallace, Tomás de Aquino, James Joyce, Homero, Marcel Proust e Karl Marx. Basta que um autor seja mais ou menos conhecido e que tenha escrito um livro (ou uma série de livros) cujo número de páginas ultrapasse a (ou chegue perto da) casa dos milhares. Pronto. O Capital desponta logo abaixo de Finnegans Wake, que é seguido pela Suma Teológica, sem que o responsável pela seleção pareça consciente da incongruência.

Topar com uma lista nova me deixa aflita. Quais os motivos que levam um livro a ser considerado inacessível, obscuro, complexo? Por que associamos dificuldade ao número de páginas? Será que um livro pode ser chato e difícil, mas não longo? Ou chato e longo, mas não difícil? Ou longo e difícil, mas não chato? É possível dizer que uma obra é longa, chata e difícil? Só longa. Só chata. Só difícil.

Nada disso funciona. Com exceção do conceito de livro extenso, os de chato e difícil são bastante subjetivos, chegando mesmo a se confundir. O que torna uma escrita difícil? Um leitor inexperiente (ou que tenha sido forçado a ler o que não quer) por acaso não precisa se esforçar mais do que um leitor calejado (ou voluntário) para compreender um romance? Chegar à definição de chato tampouco é simples. Um enredo pode não despertar o interesse do leitor X, mas despertará o de Y. Também se pode falar em trabalhos exaustivos de linguagem — ou em monólogos personagens não muito sensatos, ou em pontos de vista subjetivos e pouco confiáveis, ou em cortes rápidos e não necessariamente assinalados de uma perspectiva para outra —, o que pede um avançar lento e cauteloso, é claro, mas isso também não serve. O caso é que as respostas dos leitores sempre serão distintas. E nunca se sabe por que alguém abandona um livro. Ou por que continua a ler até o fim.

Exemplo. Detesto Eu hei-de amar uma pedra, calhamaço do autor português António Lobo Antunes, com todas as forças. Se precisasse escolher entre reler o livro ou perfurar meu rim esquerdo com um espeto de churrasco, consideraria seriamente o espeto. (Está esterilizado? É afiado o bastante?) Finalizei as mais de seiscentas páginas com vontade de arrancar uma por uma com os dentes, mastigar e cuspir longe. Contrariando minha impressão, conheço gente que adora o romance — e que acha uma heresia o que acabei de escrever sobre dele — a tal ponto que o relê sempre que possível. De novo: é difícil especular a respeito daquilo que nos leva a amar ou odiar um livro, considerando sensações e opiniões que se encaixam entre um ponto e outro.

Isso só serve para demonstrar como as próprias listas — a exemplo da maior parte das listas encontradas na internet — carecem de sentido. O sujeito sabe que um amigo abandonou aquele livro, ele mesmo não conseguiu terminar de ler aquele outro, e aí acrescenta mais um cinco ou seis títulos de que já ouviu falar e pronto, temos uma seleção no melhor estilo bufê-com-sushi-e-grelhados-num-rodízio-de-pizza que inclui Guerra e paz e a Fenomenologia do Espírito, A origem das espécies e David Copperfield.

Embora os graus de desafio variem de livro a livro e de leitor a leitor, obra nenhuma (me refiro à ficção, não a Hegel) é de fato impenetrável. É claro que há romances que as pessoas costumam temer; aqueles que o senso comum costuma rejeitar de antemão já fornecem respaldo e material às listas. Na esteira disso, reforçar o mito da obra intransponível e do autor obscuro só piora as coisas.

Uma das listas citava uma frase do escritor inglês Nick Hornby segundo a qual a vida é muito curta para ler calhamaços. Não satisfeito, Hornby também sugeriu a queima de livros complexos. Imagino que as colocações tenham sido uma infeliz tentativa de fazer graça — infeliz sobretudo porque Hornby é uma figura capaz de influenciar os mais jovens. Como aquele jornalista brasileiro que, debochando, disse que ninguém tem tempo de ler um livro de 800 páginas.

(A lista que citava Hornby misturou Thomas Pynchon, Dostoiévski, Dante Alighieri e José Lezama Lima. Senti falta de um pagofunk ao fundo.)

Cada um é livre para ler o que quiser. Quem quiser ler livros mais simples tem todo o direito de seguir por aí. Mas deve ser uma escolha, e não fruto de um tempo em que obras desafiadoras ou enormes foram demonizadas.

No fundo, as listas não indicam outra coisa senão livros que qualquer pessoa alfabetizada e com acesso a eles é capaz de ler se quiser. O que nos leva a outros problemas — a quantidade e a qualidade das bibliotecas, o número de pessoas incapazes de ler ou compreender plenamente uma sentença —, maiores e mais urgentes do que aqueles sugeridos por quem resolve amedrontar e desencorajar possíveis leitores. Sinto que as listas, tão inocentes à primeira vista, são uma forma de desviar nossa atenção de questões muito mais sérias. Incentivar alguém a chegar ao fim da saga de Proust, ou mostrar por que o percurso é tão interessante, me parece mais produtivo do que alardear a extensão e as armadilhas do caminho.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.