Machado de Assis aparece com frequência nas recordações marcantes de escritor e cineasta

Por Paulo Jebaili

Se fosse no futebol, José Roberto Torero seria um jogador polivalente, aquele capaz de desempenhar várias funções. No campo da arte, Torero é escritor, cineasta e roteirista. A comparação com o futebol não é despropositada. Afinal, o tema está presente em parte de sua obra. Ele foi colunista do caderno de esportes da Folha de S. Paulo. Parte desses textos deu origem a Os cabeças-de-bagre também merecem o paraíso (Objetiva). No cinema, fez o roteiro de Uma história de futebol, que concorreu ao Oscar de melhor curta-metragem em 2001. A partir desse trabalho, enveredou também pela literatura infantil.

Para adultos, escreveu 15 livros, entre eles, O Chalaça, seu romance de estreia, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995, e Terra Papagalli (ambos da Objetiva), de 1997, com Marcus Aurelius Pimenta. Todo esse trânsito pelo universo da criação teve como ponto de partida uma coleção de livros dada pelo avô. Em seu apartamento em São Paulo, Torero recordou os momentos que marcaram sua relação com a leitura, com várias menções a Machado de Assis, autor que descortinou aspectos da literatura e, sobretudo, do ser humano.

Seus primeiros contatos com livros trazem que memórias à tona?

JRT: O primeiro que eu lembro é Beleza negra (de Anna Sewell), livro da coleção Clássicos da Literatura Juvenil (Abril Cultural), que meu avô me deu. Eu tenho até hoje. É um clássico inglês, uma autobiografia de um cavalo. Eu achei isso genial. Meu avô me deu toda a coleção, eu fui repassando, hoje tenho só cinco. Mas esse é o primeiro que eu lembro de que gostei muito. Da mesma coleção, havia Os patins de prata, Mulherzinhas, clássicos anglo-saxões. Eu já era meio velho, tinha uns 12 anos.

Na sua casa havia muitos livros?

JRT: Não tinha Monteiro Lobato, que na época era só quem escrevia para crianças. Ainda não havia tido aquele sucesso da revista Recreio, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, porque eu fui criança na virada dos anos 60 para os 70. Era só Monteiro Lobato e, por acaso, não tinha Monteiro Lobato em casa, só tinha essa coleção, que saiu um pouco depois.

Os livros do tempo de escola influenciaram no seu gosto pela leitura?

JRT: Na escola, tive sortes e azares. Por exemplo, o Caso da borboleta Atíria (de Lúcia Machado de Almeida), que é um clássico, eu li com a mesma idade que li esses outros livros, então, foi ruim. Era muito infantil. Por outro lado, tinha a coleção Para gostar de ler, com Drummond, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga e Fernando Sabino. Isso foi muito bom, gostei muito de ler. E eu tinha aulas de redação às sextas-feiras que eram sensacionais.

Você era um bom aluno nessas aulas de redação?

JRT: Era. Eu gostava muito. E a gente tinha um livro sensacional, chamado Criatividade, do Samir Curi Meserani. Era um livro muito grande e dava as motivações para você escrever o texto. Às vezes, ele dava o final e você tinha de bolar o começo. Às vezes, dava o meio e você tinha de inventar o começo e o fim. Eu lembro de uma redação que eu fiz, não pelo Criatividade, mas pela professora Maria das Graças, que pediu para a gente fazer um texto para o Dia das Mães. E eu, para não fazer um texto normal “eu amo a minha mãe”, brinquei que a minha mãe tinha morrido e escrevi uma carta para jogar em cima do túmulo dela. Uma carta triste e a frase final era: “Minha mãe imortal, mas morta”. A professora elogiou muito e comentou: “Que pena que isso aconteceu”. E eu falei: “Não, professora. Não aconteceu, minha mãe está viva”. E ela: “Ah, você inventou tudo? Então é melhor ainda”. Essa é a primeira redação que eu lembro de ter escrito, porque teve essa consequência, eu consegui enganar a professora.

E em que período você se recorda já fazendo as suas escolhas como leitor?

JRT: Já tinha uns 13, 14 anos, quando passei a ir em livraria sozinho. E eu ficava muito tempo. Abria um livro e lia um pouquinho. Abria outro e lia um pouquinho. Nisso, eu comecei a gostar do Millôr Fernandes. O primeiro livro que eu comprei por vontade própria foi O livro vermelho dos pensamentos de Millôr. E aí comprei outros livros dele, achei um cara genial. E me achei muito inteligente também, por ter descoberto o cara, eu não sabia que ele era “o Millôr”, achei que era um cara que eu tinha descoberto e tal. Aí teve Leon Eliachar, Carlos Drummond de Andrade eu cheguei a comprar. Fiquei nessa turma que tem um certo humor.

Mas teve algum episódio que te fez frequentar as livrarias na adolescência? Como era a sua vida nessa época?

JRT: Eu jogava muito futebol na praia, em Santos, ia muito ao cinema e ia em livraria. Com essa coleção dos clássicos juvenis eu comecei a gostar de ler. Eu lembro que teve um livro que eu chorei no final e achei isso muito bom. O livro poder trazer uma emoção tão grande. Primeiro por esses livros emocionantes e depois pelo humor.

O humor é um traço muito presente no seu texto, especialmente nas crônicas.

JRT: Dos 15 anos para frente, eu comecei a gostar muito da turma do humor. Acho que foi quando eu comecei a fazer piada. Eu era um cara muito sério. Aos 15, percebi que as meninas gostavam dos caras engraçadinhos e que seria a minha única saída. Comecei a prestar atenção nessa coisa de fazer graça, piada. “Como se faz uma piada?” Era uma curiosidade que eu tinha. “Qual a fórmula da piada? Deve ter um mecanismo dentro.”

Nessas descobertas, houve algum autor que te cativou mais?

JRT: A primeira vez que li Machado de Assis, no terceiro colegial, eu gostei muito. Achei um cara engraçado, um cara bom. Memórias póstumas de Brás Cubas. Tive um bom professor também. Mais cedo, no primeiro colegial, Gregório de Matos. Também com um bom professor. Tem de dar sorte, de ter um cara bacana, animado, que goste do que está fazendo. Até hoje o Gregório de Matos está entre os meus favoritos, desde essa época. O Manuel Bandeira também eu comecei a gostar. Lá pelos meus 15 anos, eu lia um livro da Agatha Christie por dia. Eu tinha um amigo que tinha todos os livros dela. Eu lia, devolvia e pegava outro. Mas foi só essa época, depois não li mais, foi bem localizado. Mais para o fim da adolescência, o Millôr Fernandes. O Luís Fernando Verissimo também por essa época. Eu lembro que fui fazer a minha primeira viagem de avião e comprei O analista de Bagé no aeroporto. E eu ria muito: “Que cara engraçado!”. Foi uma descoberta. Mais tarde, comecei a perseguir uns caras. Do Verissimo eu tenho tudo, do José Saramago, Kurt Vonnegut Jr., Laurence Sterne, Xavier de Maistre, mas aí já entra a faculdade também.

Você fez Letras e Jornalismo simultaneamente?

JRT: Entrei em 82 em Letras, na USP. Quando você muda de cidade, sobra muito tempo. Eu fazia o curso de manhã e aí tinha a tarde e a noite livres. E eu ia muito à biblioteca da ECA (Escola de Comunicações e Artes, da USP), porque a biblioteca da Letras era muito fechada. Você preenchia uma ficha, entregava para a bibliotecária, ela ia buscar e te entregava o livro. Era uma biblioteca muito chata, então eu passava a tarde na biblioteca da ECA, que era aberta, com livro, foto, jornal, revista. Comecei a gostar da ECA e prestei Jornalismo. Entrei em 83. Quando eu me formei em Letras, era o último ano em que se podia fazer duas faculdades na USP. Fiquei em dúvida entre História e Cinema, e acabei entrando em Cinema.

Até que ponto o gosto pela leitura influenciou na escolha desses cursos?

JRT: Totalmente. Letras foi por causa disso. Pensei: “O que eu mais gosto é de ler e escrever, vou prestar Letras”. Fazendo Letras, eu percebi que não escrevia muito bem, precisava de mais prática. Mais prática, pensei em Jornalismo. Depois Cinema, porque achei que ia ser uma faculdade divertida, ver filme o dia todo.

E você se descobrindo com talento para escrever, como foi esse processo?

JRT: Eu estava na USP, fazia as redações com gosto. Mas na Letras você escreve muito pouca coisa criativa. É uma raridade. Mas, quando eu estava em Cinema, já tinha acabado Letras e Jornalismo, teve um concurso interno da USP chamado Nascente. Tem até hoje. E você podia concorrer em várias artes: em dança, em música, em literatura, em cinema. Aí achei que seria bacana escrever um livro. E escrevi Memórias oferecidas à nação brasileira, que seria O Chalaça. Eu mandei para lá e não ficou nem entre os dez finalistas. Eu reescrevi no ano seguinte e ele ganhou. Mas o aprendizado foi nessa escrita, porque foi um livro que eu escrevi e reescrevi muitas vezes, e de jeitos diferentes. Eu acho que foi aí que consegui dar um salto na escrita.

Houve algum autor que te desvendou uma dimensão maior da literatura, que causou algum tipo de alumbramento?

JRT: Machado. Não só da literatura, do ser humano. “Ah, as pessoas são assim, então. Elas falam uma coisa e pensam outra. Elas fazem uma coisa porque querem uma outra coisa, não aquela que estão fazendo. Fazem porque estão planejando outra.” Ao ler Machado, você perde a sua ingenuidade. Acho que foi o cara que mais me impressionou. Saramago e Guimarães (Rosa) também no estilo. “Ah, então vale escrever assim?” Era um jeito muito novo, muito diferente. Esses dois também, mas mais na questão do jeito do que no conteúdo. Se bem que o Machado na música do texto é muito bom.

Você consegue ler em qualquer lugar?

JRT: Em qualquer lugar. No restaurante, antes de chegar a comida. Eu era repórter do Guia Quatro Rodas, fazia muita viagem, muito teste de restaurante e levava livro. É um costume que tenho até hoje, se estou sozinho. Metrô, fila de supermercado... Não preciso de um lugar especial. Leitura é curta. Não consigo ler quatro horas seguidas. Tenho filho pequeno, trabalho, sem chance.

Costuma ler mais de um livro concomitantemente?

JRT: Às vezes, sim. Mas eu acho errado. Tento evitar. Acho uma infidelidade, a monogamia é melhor.

Há algum gênero da sua predileção?

JRT: Eu leio mais romances. Leio menos poesia.

Biografias e autobiografias?

JRT: Nunca. Eu li a do Machado, da Lúcia Miguel Pereira. Mas biografia é uma coisa que eu não gosto, engraçado. Não vejo graça em ler um livro sem invenção. Muito raro eu ler.

Quando você começa a ler um livro vai necessariamente até o final ou larga se não gostar?

JRT: Eu paro. Tem o conselho do (bibliófilo José) Mindlin que se você não gostar do livro até a página 40, largue. Ele diz que as únicas exceções são Guimarães Rosa e Em busca do tempo perdido (de Marcel Proust). Eu largo sem dó.

Tem algum autor que você releu mais vezes?

JRT: Machado. Memórias póstumas. Li muitas vezes.

E tem algum autor que você gostaria de ter lido mais do que leu?

JRT: Tem. Dostoievski. Eu só li Os irmãos Karamazov. É uma dívida feia. Tenho curiosidade de ler o Coelho Neto. A gente pensa nele sempre como um cara que fala cheio de volteios, de uma maneira meio barroca, mas ele fez uns livros malucos, tipo um cara que foi partido no meio e metade dele é homem, metade é mulher. Isso no começo do século passado. É um livro muito diferente. Mas dívida é o Dostoievski. O Proust também. Eu tento sempre pagar uma dívida por ano. Este ano foi Os irmãos Karamazov, ano passado foi o Cervantes, os dois livros.

Quando você está produzindo, consegue ler outras coisas?

JRT: Geralmente não dá muito tempo. E também eu fico lendo mais coisas para o próprio livro. Agora estou fazendo um sobre bandeiras, Raposo Tavares, que fez uma grande bandeira. Se eu for ler alguma coisa, vai ser de História. Para ver, conferir se foi mesmo. Ou da época, para pegar o jeito de escrever. Por exemplo, quando eu estava escrevendo Terra Papagalli, li muito Gil Vicente para pegar o jeito de escrever da época. Agora, fazendo este, se eu for ler alguma coisa por diversão, vou ler o Padre Vieira, que é um cara da época, eu quero pegar um pouco do jeito de escrever e de pensar, aquela lógica espiral que ele tinha.

Você lê só no papel ou em tela também?

JRT: Só no papel. A não ser coisa de utilidade. Por exemplo, eu precisei saber do que era feita a bota do bandeirante. Aí é mais fácil eu procurar na internet do que no livro. Mas literatura, não. Não consigo ler na tela com gosto. Só quando não tem. Aí vai na tela. Memorias póstumas eu tenho lá também, mas só para dar uma olhadinha.

Algum motivo para isso?

JRT: Deve ser falta de costume. Fui criado lendo livro em papel, aí a mutação é difícil.

Dos autores contemporâneos, há algum de predileção?

JRT: Dos contemporâneos, o Verissimo é o bonzão. Dalton Trevisan. Dos vivos, esses dois são os que eu mais leio. Espero o livro sair para comprar rápido. Acabei de ler um bom: Submissão, Michel Houllebecq. Bacana. O tratavam como enfant terrible, um cara que “faz coisas para chocar” e tal. Mas, não. Bem escrito, elegante, boa psicologia. Gostei de Houllerbecq, acho que vou ler Partículas elementares.

Você costuma emendar títulos de um mesmo autor?

JRT: Varia. Quando li Kurt Vonnegut, emendei um no outro. Com o Saramago também foi assim. Se eu tivesse tempo agora, leria mais do Houllerbecq.

Você enveredou também pela literatura infantil. Lê muito nesse segmento?

JRT: Eu sempre li e sempre gostei. Nunca pensando que é literatura para criança, pensando que é para mim.

Você começou a produzir muito nessa área?

JRT: Não é que é muito. É que é mais rápido. Um livro de adulto eu levo três anos, um livro de criança, eu levo seis meses. Parece que só faço isso, mas é que a velocidade é diferente. E é bem divertido também.

Como te ocorreu de enveredar por aí?

JRT: Foi uma encomenda. Eu tinha feito um roteiro de um curta, chamado Uma história de futebol, que até concorreu ao Oscar (em 2001). Aí o diretor encomendou um roteiro para transformar aquele curta num longa. Eu fiz com um amigo meu, o Mauricio Arruda, a escaleta desse longa. O diretor acabou desistindo. Ficou a escaleta pronta e a Objetiva me ligou um dia: “Olha, vai ter um concurso federal, você não quer tentar escrever um livro para crianças?”. Era a Isa Pessoa, a editora. Eu falei que queria tentar. E foi bom, foi emocionante, lembro que eu chorei escrevendo. Porque tinha uma cena em que a mãe explicava para o filho por que as pessoas morrem. Ela faz um mingau de chocolate para ele e fala que é a vida é que nem o mingau de chocolate, ela vai acabar, não tem jeito, mesmo que você coma devagarinho. E que a única solução é você aproveitar cada pedaço e dividir com quem você ama. E aí eu escrevi e chorei. Também o meu avô morreu quando eu tinha exatamente a idade do personagem. Eu precisei parar e dar uma volta no quarteirão. É uma conversa que alguém deveria ter tido comigo quando eu tinha 12 anos e eu mesmo acabei tendo, mais velho. E o livro ganhou o concurso e foi distribuído para as escolas. Eu comecei a ir em escolas públicas e achei muito bom. A recompensa da literatura infantil é gigante. Os caras amam aquele livros, eles leem de um jeito diferente do adulto, que lê mais racionalmente. Eles entram mais na história. E aí tem de fazer música do livro, desenho do livro, eles vivem o livro de um jeito mais intenso que o adulto. Eu gostei muito disso e comecei a escrever mais para criança. Hoje está 18 a 15. Infantis e adultos. Em breve, 20 a 15. Este ano saem mais dois.

Já aconteceu de conhecer pessoalmente algum escritor que você admirava muito?

JRT: O Veríssimo. Foi constrangedor. Eu nem sabia se chamava ele de Luis, de Fernando ou de Veríssimo. Foi na Jornada de Passo Fundo (RS). Era uma mesa grande. Vi que a mulher dele o chamava de Luis Fernando, aí o chamei de Luis Fernando. Depois vi que todo mundo o chamava de Veríssimo, fiquei com vergonha, vermelho.

Aconteceram contatos posteriores?

JRT: Depois melhorou. Encontrei com ele muitas vezes, e quase que consigo falar normalmente. Com o Chico (Buarque) também foi difícil, me embananei todo.