Gosto de relatos de guerra. Partilho da opinião geral de pacifistas como Stefan Zweig, é verdade, mas gosto de relatos de guerra. Guardo uma pilha de edições sobre os dois grandes conflitos mundiais, de ficção e de não ficção. Li com incredulidade alguns diálogos de soldados alemães gravados, com escutas, no início da década de 1940. Li e reli um calhamaço que retraça a evolução da Segunda Guerra Mundial, desde a invasão da Polônia pela Alemanha até a derrota do Japão. Fiz o mesmo com dois ou três sobre a Primeira. Li alguns relatos de prisioneiros, cujo horror é sempre impossível de assimilar por completo. Li dezenas de descrições menores de batalhas, diversas batalhas, que não eram o foco dos livros em que estavam inseridas. Li os russos, os ingleses, os norte-americanos, os franceses. Gosto, já disse, de relatos de guerra.

 

Num romance pouco conhecido, Richard Yates descreve o amadurecimento forçado de um jovem ingênuo e inábil que se vê, de forma abrupta e sem treinamento adequado, desempenhando um papel incerto no front. Os aliados somavam baixas, e era necessário recrutar rapazes às pressas. Foi fácil sentir empatia pelo sujeito acovardado e despreparado que, é claro, preferiria estar em qualquer lugar a estar (literalmente) no meio do fogo cruzado. A verdade é que quem lê relatos de guerra não tem a menor intenção de se transportar para aquele cenário. Mesmo os que enxergam a situação por um viés heroico, o que não é meu caso, dificilmente aceitariam trocar de lugar com os personagens, reais ou fictícios.

 

Ler um livro é diferente de assistir a um filme de guerra. Se não há explosões ofuscantes e ensurdecedoras, atuações comoventes e imagens realistas dos ferimentos, a reconstrução do horror pelas sutilezas da linguagem tem um peso diferente, não raro sufocante. A arte, e a escrita em particular, dá aos horrores das batalhas e do cárcere uma nova dimensão. Nem sempre é possível (leia-se ético) empregar algum distanciamento, mesmo que mínimo, para analisar certas narrativas. Parece sobretudo uma cegueira voluntária basear em É isto um homem?, de Primo Levi, um estudo teórico completamente isento e imperturbado. De certa forma, não há o que acrescentar e não há o que extrair. Não há crítica desapaixonada possível. Primo Levi nos legou uma ficção original que sempre me intrigou, e a respeito da qual quis e tentei escrever. Sobre seu testemunho mais brutal, no entanto, não há muito a ser dito.

 

Mas, para o bem e para o mal, os relatos de guerra nos ajudam a entender o que é um homem. Soldados rasos, de Frederic Manning, certamente faz sua parte. É difícil comparar o romance de Manning, que se passa no front da Primeira Guerra Mundial, a qualquer outro sobre o mesmo tema; sua narrativa explora ao máximo as figuras de linguagem disponíveis, e o efeito geral é aterrador. De todas as passagens brutais — e são inúmeras —, uma das mais fortes é também uma das primeiras a surgir. É preciso ter em mente que as imagens que Manning constrói são intencionalmente chocantes, e que ele é hábil em manipulá-las. Assim, Bourne, o protagonista, enxerga um soldado, ferido ou catatônico, avançando “com o mesmo ritmo metódico de um brinquedo de corda”. Algumas linhas adiante, o narrador se entrega a uma digressão infernal sobre o instinto básico de sobrevivência que entra em conflito com a resistência interior, moral. “Essas experiências não têm nada de ilusórias: são fatos reais”, escreve ele.

 

Manning lutou no front. As imagens e reflexões que transporta para Soldados rasos não foram, portanto, inspiradas por relatos de segundos. É estranho que o autor tivesse, antes de ir à guerra, “medo de circular por Piccadilly Circus”, conforme nos conta o jornalista, escritor e crítico literário Simon Caterson no prefácio. Como o jovem do livro de Yates — e tantos outros na vida real — Manning reuniu uma coragem insuspeita para estar onde era obrigado a estar.

 

No mesmo texto, Caterson lembra “a perspectiva dúbia, mescla de envolvimento emocional e distanciamento filosófico que viria a embasar o romance”. É este o grande diferencial de Soldados rasos, responsável por dar ao livro uma força (desconcertante) raramente vista em outra obra, mesmo nas mais aclamadas. Não é à toa que o romance foi elogiado por Ernest Hemingway, E. M. Forster (mais conhecido pelo filme Howards End, baseado em um romance de mesmo nome), T.S. Eliot e Ezra Pound.

 

Ao mergulhar num relato de guerra, o leitor troca o conforto imediato por um horror difuso. Difuso, uma vez que esse mesmo leitor não conhece a realidade descrita; não sente o cheiro do sangue e não está sob a mira direta dos morteiros, não caminha horas a fio e sob o sol escaldante com uma mochila pesada nas costas, não precisa rastejar por uma trincheira. Está, na maioria das vezes, seguro em sua cama ou em sua poltrona. Mas a tranquilidade é ilusória. Uma parcela significativa daquilo que nos torna humanos está ali, pisoteado e humilhado. Ao contrário da terra, das botas e das metralhadoras, palavras impressas num papel e portanto inalcançáveis, a humilhação é palpável. O sujeito que parecia um boneco de corda, metido “num uniforme cáqui que não lhe servia” e que envergava “um capacete que parecia a bacia de barbeiro de Dom Quixote” é um homem. Como nós. Ali está nosso fracasso completo e absoluto. Somos nós.

 

Gosto de relatos de guerra. Eles nos lembram — especialmente àqueles que não presenciaram nada disso — daquilo que não devemos esquecer. Devolvem, não sem dor, o que todos temos em comum.

 

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.