Até este final de 2019, durante quase 5 anos de existência, a Carambaia publicou textos de 67 autores. Desses, apenas três são negros. E os três são brasileiros: Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio. Sempre foi fácil encontrar desculpas para essa representatividade pífia de escritores negros no catálogo. A principal é a de que trabalhamos principalmente com domínio público e, por isso, são raros os negros de qualquer nacionalidade que conseguiram espaço editorial antes da década de 1950. É possível também me esconder atrás da cortina eurocêntrica que nos formou e comodamente afirmar que é difícil vencer essa herança cultural que quase nunca abriu espaços para escritores que não fossem homens, brancos e ligados direta ou indiretamente a uma cultura europeia. Ou seja, culpem a tradição, não a mim.

 

Como leitor, posso selecionar minhas leituras da forma que bem entender. Como editor, entretanto, acho vergonhoso que minhas escolhas não contemplem autores de fora da Europa e dos Estados Unidos branco. A formação dentro de uma cultura eurocêntrica jamais será uma justificativa aceitável para direcionar o olhar para produções literárias feitas em outros lugares. Trata-se, na verdade, de uma enorme preguiça de questionar meu entorno.

 

Alguém pode dizer que, com o mercado literário estruturado há muitos séculos desse modo, é tarefa trabalhosa buscar obras de autores fora dos grandes centros, ainda mais negros. Complicada, sim, mas possível. Ainda mais para uma editora que publica poucas obras por ano e que poderia perfeitamente editar alguns deles. A escassez não é motivo para ignorar essa produção. Vamos mudar isso.

 

 No ano passado, o grande mercado editorial inglês despejou nas livrarias menos de 5% de obras traduzidas. Arrisco dizer que nos Estados Unidos e na França esse número não seja muito diferente. Demonstram um conservadorismo e uma acomodação que ficam ainda mais hipócritas quando observamos que as editoras trabalham com um bem cultural que supostamente deveria ser plural e se vangloriam afirmando que contribuem para o desenvolvimento de seus leitores. São editoras que, como as nossas, sequer têm profissionais negros.


Entretanto, o público leitor talvez esteja dando sinais que o mercado reluta em entender. No Brasil, por exemplo, temos eventos como a Flip sendo cada vez mais dominados por vozes que poucos anos atrás sequer passariam perto de Paraty. Autores jovens, negros, das periferias do Brasil e do mundo narrando suas histórias e experiências para plateias extremamente interessadas. Em outros países, editoras de menor porte compõem seus catálogos com forte presença de autores africanos, latino-americanos e asiáticos chamando cada vez mais a atenção em ambientes nos quais a descoberta de um grande autor francês branco é apenas a certeza de que teremos mais um sendo comparado a uma infinidade de outros grandes autores franceses brancos.

 

Evidentemente, editores podem considerar publicar negros porque é o que os leitores buscam nos dias de hoje. Editar autores negros contemporâneos ou de tempos passados e aumentar a representatividade deles nas prateleiras das livrarias não é uma questão mercadológica, é de vergonha na cara.

 

Fabiano Curi é editor da CARAMBAIA.