Uma das características mais notáveis de um clássico é a capacidade de despertar tantas leituras diferentes, desenvolvendo uma espécie de história própria, e ganhando significados distintos ao longo do tempo. Machado de Assis, considerado por muitos críticos o principal autor brasileiro, é um desses casos: sua obra continua sendo lida para além da obrigatoriedade escolar, e cada leitura parece nos revelar algo diferente.

 

O caso de Dom Casmurro é emblemático: tido durante décadas como um romance sobre o adultério feminino, passa a ser lido, depois de uma virada crítica, como uma obra a respeito do ciúme masculino. Essa pluralidade de leituras é o objeto de estudo de Hélio Seixas Guimarães, professor da USP e especialista na obra de Machado, que conversou com Fabiano Curi e Graziella Beting, editores da Carambaia, sobre esse e outros aspectos da obra machadiana, principalmente em Dom Casmurro e Memórias póstumas de Brás Cubas.

 

Hélio destaca o papel da memória, questão central nos dois romances. A partir do reconhecimento dos aspectos falhos, das lacunas e das distorções produzidas pela memória, Machado foi capaz de criar uma narrativa maleável – e moderna, à medida que não determina um sentido, mas convida o leitor a preencher essas lacunas.

 

O professor chama a atenção para a modernidade e a ruptura propostas por Machado – e para como sua consagração no cânone literário brasileiro não foi imediata, pois enfrentou a desconfiança dos seus contemporâneos.

 

A ruptura presente na prosa machadiana também foi destacada pelo escritor Milton Hatoum na conversa com o crítico literário Manuel da Costa Pinto, em novembro de 2018, quando a Carambaia promoveu o lançamento de sua edição de Memórias póstumas de Brás Cubas, em São Paulo. Hatoum, autor de Viagem de um morto à substância da vida, posfácio da edição, notou que a quebra de Machado foi, inclusive, com a própria obra. O escritor considera esse texto o resultado de “uma leitura um pouco passional desse romance extraordinário”. Nele, fala sobre a virada estilística de Machado na década de 1870, quando ele criou os romances que são “uma espécie de divisor de águas não só da literatura brasileira, mas da literatura latino-americana do século XIX”.

 

Milton também conversou com Manuel sobre a destreza de Machado ao construir no romance a combinação de dois tempos, um defunto autor que narra a sua avaliação sobre a própria vida: “isso é que é genial, ele fala da vida e dá impressão que ele está vivo, e, no entanto, quando fala do passado, interpreta essa existência; é como se fosse uma espécie de luz do além interpretando tudo o que não deu certo na vida dele, como acontece em todos os romances, aliás: no romance a gente fala sobre a vida que não deu certo – porque se tudo deu certo não é romance, é autoajuda”.

 

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