Em setembro de 1924, no primeiro número da revista trimensal Estética, Sérgio Buarque de Holanda apresentava ao leitor brasileiro Kyra Kyralina, romance de estreia de Panaït Istrati (1884-1935), quatro meses após seu lançamento. Sua resenha, é verdade, foi esquecida no sumário – deveria aparecer logo após a de Mes routes, de Pierre Lasserre, na seção “Literatura francesa”, pois o escritor romeno adotara o francês como língua de expressão –, mas, nas páginas 104 a 106 da edição inaugural da revista modernista sucessora da Klaxon, encontra-se o primeiro enaltecimento brasileiro do sabor oriental das histórias de Istrati, que aqui angariaria leitores como Mário de Andrade, Cecília Meireles e Clarice Lispector. “A leitura desse livro”, escreve Sérgio Buarque de Holanda, “nos transporta a um ambiente e a um estado de alma onde todas as coisas se refletem em tons imaginários e cujo colorido nos traz à memória as histórias maravilhosas das Mil e uma noites”.

 

A novidade de Kyra Kyralina não se limita ao repisado expediente literário das suspensões e dos remates da narrativa (“Outro dia lhes contarei a odisseia de minhas peregrinações em busca de minha irmã”) nem ao empenho para apresentar a diversidade balcânica ao mundo francófilo, utilizando um idioma que não lhe era familiar e que custara a domar (“Dez vezes no mesmo dia atirei longe a minha pena, chorando de raiva, prestes a abandonar o empreendimento: lutar com uma língua que não domino à perfeição; soltar a pena à vista de um miserável acento grave que talvez seja circunflexo; de um r ou um l que talvez seja duplo […], diga-me, meu amigo, já não bastava estar num sanatório, ainda terei de ficar louco?”, escreve a Romain Rolland em 4 de setembro de 1922). Em Kyra Kyralina, Istrati agrega também expressões idiomáticas e termos nativos à sua nova língua, recusando-se a empregar apenas os provérbios franceses correspondentes, e explicita ele próprio, em notas de rodapé (“A palavra ‘espingarda’ também é feminina em romeno”), o significado daquilo que poderia se perder nesse transbordo de culturas. Porque em seu primeiro romance e em quase todas as narrativas de Panaït Istrati convivem e deambulam romenos, turcos, gregos e árabes, muçulmanos, judeus e cristãos ortodoxos, que por vezes trocam de idiomas no meio das conversas, nas quais contam histórias e compartilham seus infortúnios enquanto transitam de país em país – Romênia, Turquia, Síria, Líbia – como num passe de mágica. Uma dessas histórias, a da infeliz Kyra, contada por Stavro a Adrien Zograffi, é uma canção folclórica romena, que Istrati apresenta com tintas bem mais carregadas.

 

Considerado “o Górki dos Bálcãs” por Romain Rolland e “o príncipe dos vagabundos” por Joseph Kessel, Panaït Istrati de fato encarnava o maltrapilho errante, o “vigarista honesto”, o haiduc (o típico marginalizado da Romênia) cujo afã de ouvir e contar histórias e cujo elogio à preguiça e à errância emprestou a seu alter ego, Adrien Zograffi. Este aparece ora como narrador protagonista, ora como coadjuvante, ora como ouvinte isento nesses relatos que, para a ensaísta Frédérica Zephir, exaltam uma “ética da marginalidade”.

 

Lutar contra a mediocridade humana, o egoísmo, a injustiça, ser livre e defender a liberdade – eis a filosofia de Istrati. Mas essa filosofia, que nele foi suscitada pela compaixão e que, portanto, contemplava antes os sentimentos que as ideias, não encontra lugar entre as ideologias sociais de sua época, doutrinárias demais e totalitárias demais, as quais ele rejeitou com a mesma veemência com que sempre defendeu os valores humanos fundamentais. De modo que, mais revoltado, mais subversivo e mais haiduc do que nunca, cristalizando tal rejeição na figura do “homem que não adere a nada”, Istrati inscreve-se definitivamente na ética da marginalidade. “Homem que não adere a nada”, mas que acredita no homem, que faz da luta pelos valores morais um dos motores de sua vida e, da compaixão, um ideal social, porém sobretudo um narrador excepcional que desnovela nos fios de suas narrativas as histórias extraordinárias desses heróis (por vezes delinquentes, mas sempre ardentes e generosos revolucionários) que advogam pela justiça e pela liberdade – esse foi Panaït Istrati, “haiduc de gênio”.

 

Se Górki fez conhecer a ralé e lhe deu voz, Istrati dotou a arraia-miúda de mobilidade – em grande parte proporcionada pela independência da Romênia e pelo subsequente desmantelamento do Império Otomano –, que era propriamente a liberdade individual – cosmopolita e algo arredia – de recusar qualquer filiação, rótulo, destino ou ideologia: “Entrego-me de boa vontade aos homens, corpo e alma. Estou pronto a partilhar com eles o meu último pedaço de pão. Mas quero guardar intacto o meu direito de fugir-lhes no dia em que sentir que querem limar a minha fantasia, a minha imaginação” (Eis a vida! [Le bureau de placement]).

 

Panaït Istrati nasce em 11 de agosto de 1884 em Brăila, porto do Danúbio, na Romênia, de mãe lavadeira e pai contrabandista de tabaco, originário de Cefalônia, na Grécia. Exerce variados ofícios a partir dos 13 anos. Como secretário do sindicato do porto de sua cidade natal, organiza uma greve geral de estivadores e acaba se aproximando dos círculos socialistas. Sua estreia na vida literária se dá com o artigo “Hotel Regina”, em 1907, no jornal operário România Muncitoare. Passa anos errando pelo Mediterrâneo e pelo Egito, em seguida interna-se num sanatório na Suíça, onde trava amizade com o sionista Josué Jéhouda (1892-1966), que lhe dá as primeiras aulas de língua francesa enquanto trata a tuberculose. Com a ajuda de um dicionário, lê os dez volumes da saga Jean-Christophe, de Romain Rolland, Prêmio Nobel de Literatura em 1915, e traduz para o romeno, como exercício autodidata, Les aventures de Télémaque, de Fénelon. Aporta em Nice, na França, em 1920, onde vive em condições miseráveis de subsistência e afligido por casamentos malogrados, até que, em 3 de janeiro do ano seguinte, aos 37 anos de idade, corta a garganta no jardim Albert I, aos pés do monumento da Vitória. Ao ser transportado para o hospital Saint-Roch, entre seus pertences acha-se o manuscrito de uma carta endereçada a Rolland (era a segunda que lhe escrevia; a primeira, enviada, retornou ao remetente porque Rolland já não se encontra em seu hotel na Suíça). É então que o célebre escritor pacifista o acolhe e o incita a romancear as histórias que vivenciou. Sua primeira obra literária, Kyra Kyralina, escrita em francês, aparece em 15 de agosto de 1923 na revista Europe e, em maio do ano seguinte, é publicada em brochura pela editora Rieder et Cie. na coleção “Prosateurs français contemporains”, com prefácio de Romain Rolland (decerto a edição que Sérgio Buarque de Holanda lê e resenha).

 

Istrati vira fenômeno literário. A Kyra Kyralina seguem-se, entre outros, Oncle Anghel (1924), Présentation des haïdoucs (1925), Domnitza de Snagov (1926), Codine (1926), Mikhaïl (1927), La maison Thüringer (1933), Le bureau de placement (1933), Mediterranée (Lever du soleil) (1934) e Mediterranée (Coucher du soleil) (1935). Publica também narrativas não circunscritas ao universo de seu alter ego Adrien Zograffi, como Nerrantsoula (1927), Tsatsa Minnka (1931) e Les chardons du Baragan (1928); e livros de memórias, como Mes départs (1928) e Le pêcheur d’éponges (1930).

 

No auge de sua produção, profundamente desgostoso com uma tradução de Kyra Kyralina para o romeno iniciada por um jornalista anônimo, Istrati resolve-se a traduzir ele mesmo quase todos os seus livros para a língua materna, tal como fariam Rabindranath Tagore (1861-1941) e Vladimir Nabokov (1899-1977), entre outros autotradutores.

 

Em 1927, é convidado pelo governo soviético para a celebração do décimo aniversário da revolução bolchevique. Viaja a Moscou na companhia do escritor cretense Nikos Kazantzakis, de quem logo vira amigo. Decepcionado com a realidade que encontra, publica Vers l’autre flamme: après seize mois dans l’ U.R.S.S. dois anos depois de sua viagem, relato que lhe rende perseguição política até o fim da vida e o rompimento com Romain Rolland. É endossado pelos também desencantados progressistas Victor Serge (1890-1947) e Boris Souvarine (1895-1984), que formam com Istrati o “triunvirato de escritores francófonos de origem estrangeira” (a expressão é de Susan Sontag) que pela primeira vez desdourou a até então inabalada glória da Revolução Russa. O testemunho de Victor Serge em suas Memórias de um revolucionário ilustra o desagrado de Istrati:

 

Istrati voltou à França, arrasado por essas experiências. É com profunda emoção que me lembro dele. Era jovem ainda, tinha a magreza dos campônios dos Bálcãs, muito feio devido ao nariz enorme, saliente, mas muito vivaz apesar da tuberculose, muito entusiasmado pela vida! Fosse como pescador de esponjas, marinheiro, contrabandista, vagabundo ou servente de pedreiro, ele havia passado por cada porto do Mediterrâneo. Então começou a escrever, e cortou a garganta para dar cabo de tudo. Romain Rolland resgatou-o; do nada, com a publicação das suas histórias de haducs, vieram-lhe a fama literária e o doce vintém dos direitos autorais. Escrevia sem pôr reparo em gramática ou estilo, feito um poeta loucamente apaixonado pelas coisas simples, como a aventura, a amizade, a revolta, a carne e o sangue. Ele era desafeito ao pensamento teórico, e portanto não caía na armadilha das falácias convenientes. Eu ouvia as pessoas lhe dizerem: “Panaït, não se pode fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos. A nossa revolução… etc.”. Ele exclamava: “Certo, os ovos quebrados eu vejo. Mas onde está essa tal revolução?”. Na saída da modelar colônia penal de Bolshevo, onde calejados criminosos labutavam livres e supervisionavam uns aos outros, o único comentário de Istrati foi: “É pena não se poder ter todo esse conforto e esse sistema de trabalho tão maravilhoso sem que se matem ao menos três pessoas!”. Aos editores de artigos que lhe pagavam 100 rublos por texto, ele indagava rispidamente: “É verdade que aqui na União Soviética um carteiro recebe 50 rublos por mês?”. Não raro ele irrompia em violentos acessos de indignação. Istrati precisou de sua teimosia nata para conseguir resistir às abordagens corruptas, e deixou a União Soviética dizendo: “Hei de escrever um livro, prenhe de entusiasmo e dor, em que contarei a verdade ao mundo”. A imprensa comunista imediatamente o acusou de ser um agente do serviço secreto romeno… Ele morreu pobre, esquecido e completamente confuso na Romênia. É em parte graças a ele que hoje continuo vivo.

 

A imprensa brasileira acompanha seus passos. Quando Istrati é detido na Itália após uma incursão ao Egito em 1930, a Folha da Noite (SP) estampa:

 

Um romancista indesejável. Chegou a Paris o romancista Panaït Istrati, que regressa de uma viagem de estudos no Egito. À passagem por Trieste Panaït Istrati foi detido pela polícia como indesejável. Graças à intervenção do cônsul de França, o romancista romeno foi posto em liberdade. (15 de fevereiro de 1930)

 

Cecília Meireles cita Panaït Istrati em cinco crônicas publicadas entre 1931 e 1932 na coluna sobre educação que mantinha no Diário de Notícias (RJ). Da leitura de obras como Mikhaïl e Mes départs, a escritora tira modelos ideais de práticas pedagógicas e os ajunta às próprias reminiscências para tratar do ensino no Brasil:

 

Panaït Istrati, essa extraordinária organização de poeta que tantas coisas maravilhosas nos tem revelado sobre a alma dos homens, através de confissão da sua própria alma, disse certa vez que acreditava nas revoluções que tivessem por fundamento a preocupação da infância. (“A educação como fundamento das revoluções”, 11 de março de 1931)

 

Outro de seus leitores – também em francês – foi Mário de Andrade. Para o monumental projeto inacabado de uma Gramatiquinha da fala brasileira, na qual registraria os usos do português no Brasil explorando associações pouco ortodoxas, o escritor deixou um sucinto lembrete: “Dor = palavra rumaica que quer dizer ‘saudade’. Ver Panaït Istrati, pg. 73, Les Haïdoucs”.

 

Nessa época, novamente estabelecido na França, Istrati é instado pelos amigos a naturalizar-se para que lhe fosse cabível a láurea do Prêmio Goncourt, reservado aos cidadãos franceses, mas ele se recusa. Volta definitivamente à sua terra natal em 1930 e, após ser internado num sanatório em Bucareste, morre devido ao estado avançado de tuberculose, em 16 de abril de 1935. No dia seguinte o Correio da Manhã noticia: “Desaparece uma grande figura da literatura mundial. Morreu, ontem, em Bucarest, Panaït Istrati”. Também o Diário de Notícias, no dia 18: “Faleceu o famoso escritor romeno Panaït Istrati, após longa enfermidade”.

 

O romeno-brasileiro Stefan Baciu conta, mais tarde, uma visita que fez a Istrati já no fim de sua vida:

 

Tive a oportunidade de vê-lo e de falar-lhe durante este tempo algumas poucas vezes, e fiquei sempre profundamente impressionado pela humanidade espontânea, que transparecia na sua voz, e pela nobre atitude que tinha este poeta. Istrati estava cansado e atribulado. Talvez tenha sido realmente um “vencido”, e assim apagou-se vagarosamente, prematuramente, até que fechou os olhos em 1935. (Correio da Manhã, “Caminho e destino de Panaït Istrati”, 30 de julho de 1950)

 

“Vencido” (vaincu, em francês) foi como de fato Panaït Istrati disse sentir-se quando de seu desencanto com o comunismo:

 

Vencidos são todos os homens que no declínio da vida se acham em desacordo sentimental com os melhores de seus semelhantes. Sou um desses vencidos. E uma vez que há mil modos de estar em desacordo sentimental com os semelhantes, explico que aqui se trata daquela penosa separação que segrega um homem de sua classe, após uma vida de aspirações comuns a essa classe e a ele próprio e que no entanto permanece fiel à necessidade, que sempre o compeliu, de lutar pela justiça. (16 meses na U.R.S.S.)

 

A morte de Panaït Istrati havia sido noticiada no Brasil, e no entanto aqui ainda não se tinha notícia da edição comercial de seus livros.

 

É então que a editora carioca Guanabara lança, em 1935 e 1936, três romances de Istrati traduzidos por Heitor Moniz: A casa Thuringer [La maison Thüringer], Mediterrâneo (Nascer do sol) [Méditerranée (Lever du soleil)] e Eis a vida! [Le bureau de placement], todos pertencentes ao ciclo de narrativas de Adrien Zograffi. Dez anos depois, surge uma nova edição de Mediterrâneo (Nascer do sol) pela editora Pongetti, com “tradução de Marques Rebelo”, provavelmente “garfada” da tradução de Moniz e revista por Marques Rebelo, como suspeita a pesquisadora Denise Bottmann.

 

Aparecem, então, no Diário de Notícias, textos de articulistas como Paulo Dantas, Newton Braga e Adolfo Schweitzer sobre a obra e o legado de Panaït Istrati. Em outro jornal carioca, o Correio da Manhã, dedicam-lhe escritos Heitor Moniz, João José, Stefan Baciu e Nelson Vainer. Adalgisa Nery elege Kyra Kyralina um dos vinte livros que ela salvaria de um novo dilúvio, na coluna “Escritores e livros na Arca de Nóe”, do Correio da Manhã (15 de julho de 1935). Até mesmo uma jovem Clarice Lispector, ainda estudante de direito, dá uma entrevista à revista Diretrizes, em 30 de outubro de 1941, incluindo Mediterrâneo entre os melhores livros da literatura universal, ao lado de Humilhados e ofendidos, de Dostoiévski, Sem olhos em Gaza, de Aldous Huxley, e as obras de Anatole France. No mesmo ano, é promovida pela Academia Brasileira de Letras a conferência “Escritores romenos da língua francesa”, na qual Leopold Stern palestra sobre a vida e a obra de Panaït Istrati.

 

Somente em 1946 o Brasil ganha uma edição do seu polêmico relato sobre a União Soviética. Publicado na França em 1929, chega ao Brasil como 16 meses na U.R.S.S. Rumo a outra flama em tradução de Romulo de Castro, pela editora Alerta, fundada no Rio de Janeiro “com o objetivo principal de auxiliar os leitores brasileiros a pesquisar e descobrir a Verdade sobre a Rússia”. “Se o público prestigiar as suas publicações”, continua o texto de apresentação de Ildefonso Albano na primeira edição do livro, “a Editora Alerta será um dique formidável e intransponível das mentiras capciosas e cínicas de que se alimenta o comunismo na Terra de Santa Cruz”. A editora investe em material publicitário e publica pequenos anúncios no Correio da Manhã e no Diário de Notícias, às vezes até três classificados dentro de um período de uma semana, nos quais se lê: “16 meses na U.R.S.S. Rumo a outra flama. Livro do grande escritor comunista Panaït Istrati. Linguagem vibrante! Sensacionais revelações! Cr$ 20,00 – Nas principais livrarias”. Essas “sensacionais revelações”, no entanto, são atenuadas pela própria editora, como lemos na nota introdutória da edição: “A fim de permitir a leitura deste livro a maior número de leitores, foram, com a autorização dos editores, abrandadas certas passagens que poderiam ser consideradas chocantes”. Um cotejo atento do original poderia talvez fornecer algum indício do motivo de tamanha relutância em lançar o livro em terras brasileiras e revelar o que foi poupado ao leitor.

 

Panaït Istrati só voltaria a ser traduzido no país em 1964, aparentemente um pouco a contragosto. O primeiro capítulo do romance Les chardons du Baragan aparece traduzido da versão romena, feita pelo próprio autor (portanto, uma tradução indireta), na Antologia do conto romeno, organizada e traduzida por Nelson Vainer, editora Civilização Brasileira, que conta com uma orelha do crítico Fausto Cunha. É ele quem diz que, por terem as obras de Istrati sido escritas diretamente em francês, “obtiveram uma notoriedade que, dentro dos quadros verdadeiros da literatura romena, pouco se justifica”, e acrescenta que não apenas a sua geração leu muito Panaït Istrati, mas que também outras “conheceram outros autores romenos quase sempre via exterior e quase sempre nomes que não representavam nem o espírito nem a grandeza de seu país”. O próprio organizador da antologia, Nelson Vainer, queixa-se, em artigo na imprensa, da atenção especial dada a Istrati em detrimento de outros autores romenos contemporâneos: “Nesse mesmo período [em que Istrati produziu suas obras, de 1923 a 1935] vivia na Romênia uma plêiade de escritores tão bons, se não melhores, que o autor de Kyra Kiralina. No entanto, enquanto eles permaneciam desconhecidos no mundo, Istrati o conquistava, com livros não superiores a dos seus ignorados compatriotas” (Correio da Manhã, 28 de setembro de 1963, “O lugar da literatura romena na literatura universal”).

 

Publicar Kyra Kyralina hoje, portanto, é refutar cada vez mais a ideia de que Panaït Istrati seria menos romeno por ter escolhido escrever em uma língua que não a sua, de que seria menos escritor por considerar-se antes um revolucionário cosmopolita que um escritor profissional e de que seria menos acolhido em nossas letras caso não fosse esse controverso comunista penitente.