Há sete anos, minha vida virou de cabeça para baixo e voltei para a casa da minha mãe. Fui me ajeitando. No começo da aventura, resumir em um quarto o que antes enchia um apartamento foi frustrante. Com o tempo, ficou mais tranquilo — não zen (porque isso eu jamais serei), mas tranquilo.

Quando desfiz minha casa, eu realmente desfiz minha casa. Dei tudo: móveis, quadros, coisas de cozinha, roupas, bibelôs, louça, cristais. A única parte dos meus parcos bens terrenos que veio para a nova moradia sem sofrer baixa quase nenhuma foram os livros, embalados em caixas de papelão. Meus livros foram arrastados, berrando e esperneando (junto com os gatos, embalados em caixinhas de transporte, e igualmente berrando e esperneando), para uma nova vida; aquela que nenhum de nós queria de fato. O único alegrinho era o cão, que não dá a mínima para os gatos, para os livros ou — sejamos francos — para mim.

Eu me instalei e deixei a poeira baixar. Três anos depois, mandei embora mais de três mil livros, parte obras de medicina, pertencentes ao meu pai, que morreu em 2001. Os livros de ficção científica do velho não estavam comigo; se estivessem, teriam sido doados. Não leio ficção científica... A não ser a série Mochileiros das Galáxias, que meu irmão me ensinou a gostar. Mochileiros das Galáxias configura ficção científica, Max, meu guia espiritual e literário?

Alguns dos romances do meu pai que estavam por aqui ficaram. Uns Charles Dickens, uns livros de ciência... E mais todos os livros de História, inclusive uma coleção divinal da revista Times — em espanhol — sobre civilizações antigas, que ocupa lugar de honra. Meu velho tinha livros deliciosos sobre gregos, romanos, egípcios, etruscos, fenícios e cartagineses, e todos eles estão aqui, para minha alegria e encanto.

Grande parte da biblioteca do meu marido, Alexandre, que morreu em 2007, também foi embora. Os títulos de engenharia, física e química foram doados para a professora Marta Lins e para os alunos dela; os sobre futebol foram regalos para o professor Idelber Avelar. Tudo o que versava sobre cultura asiática, culinária japonesa, budismo e judô tomou o rumo da casa do mestre José Otsuka. Fiquei com uns poucos romances. Uma biografia do Fellini, a do Adoniran Barbosa, que Alexandre adorava. Os livros de filosofia. Dei livros meus também, muitos, muitos. Respirei fundo e pensei assim: “Tenho 40 anos. O que não vou ter tempo de reler?”

E, então, fiz uma lista, aquela que me ajudaria a remontar a “Grande Biblioteca de Cartago”, que era como meu pai chamava a nossa biblioteca (o velho tinha um senso de humor bem malvado). Comecei fazendo uma lista, não do que ficaria, mas do que teria de ir embora.

Romanções, que é como chamo os clássicos brasileiros e portugueses dos séculos XVIII, XIX e XX. Foram embora. Não vai dar tempo de reler, gente, não vou durar tanto tempo neste vale de lágrimas. Iracema, Sagarana, A pata da gazela, O tronco do ipê, A moreninha, Senhora, O ateneu.

[Pausa para explicações]

Eu li esses caras. Li mais — muito mais — do que a maioria das pessoas que conheço. Li José de Alencar — e li de verdade. Quase tudo de Jorge Amado, Graciliano, Eça. E carrego todos comigo, adorando alguns, não-adorando-tanto-assim outros. Mas nenhum deles, acho, vou reler. Não acredito que vá abrir de novo Memórias do Cárcere ou Sagarana ou Tereza Batista ou Bernardo e Heloisa ou Amor de Perdição. São livros cuja importância artística e histórica me alucina, mas, na boa, não vou reler.

[Fim das explicações] 

Hemingway. Não, não vou reler você, seu bêbado cruel e adorável. Leio toda e qualquer biografia sua que me cair em mãos, correta e perfeitamente apurada ou mal feita e cheia de mentiras cabeludas — não ligo. Mas não vou reler seus livros. Ah… O velho e o mar, tudo bem, esse fica. 

Os russos. Li um bocado dos russos, minha boa mãe achava que ler os russos era parte fundamental da formação duma boa moça revolucionária. Rarará, coitada da minha mãe. Estou aqui, burguesa, acomodada, infeliz e dei todos os russinhos. Quase todos.  

Livros com dedicatórias dolorosas. Quase todos foram embora. Ficou um sobre o Rio de Janeiro de Vinícius e um sobre a história de São Sebastião do Rio de Janeiro, por coincidência dados pelo mesmo não-namorado (não pergunte, você não quer saber), porque meu amor pelos livros é maior do que minha mágoa e meu despeito.

Basicamente, essa é a lista dos amores dos quais abri mão.

Tenho uma chefe chamada Andréa que costuma dizer aos clientes: “Tradução é escolha”. Ela tem razão, claro. E todo o resto também é escolha. Inclusive a montagem da minha Grande Biblioteca de Cartago.

Viver é entender que o que vai embora é tão importante quanto o que fica. Se o que permanece fala de nós e dos nossos gostos, o que não está também. As ausências, as escolhidas e as que a vida nos empurra goela abaixo, ao fim e ao cabo, revelam de forma bastante clara o que não ousamos verbalizar, o que preferimos não reconhecer.

Os buracos metafóricos na minha estante e no meu coração, são reais, estão ali. Estão aqui.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).