Navegar, nem sempre, mas organizar, sim, é preciso. A vida é impossível sem organização e ninguém tem de ter um guru de autoajuda para entender isso. Certo caos, um tanto de confusão e até, creia, algum barulho, são necessários para que pessoas estranhas como yours truly consigam produzir. Mas não demais. Não sempre.

Quando se arrumam estantes, há os livros que são mandados para outros lares e paragens. E há os que permanecem. Os livros que precisamos que fiquem, que quase escolhem ficar. Os livros que vão nos acompanhar. E essa é uma lista absolutamente pessoal, intransferível. Mesmo indivíduos inseparáveis — gêmeos siameses, casais neuróticos, membros da mesma seita, profetas do mesmo credo — têm algum amor literário particular, não compartilhado.

E os livros que ficam precisam ser arrumados. Não seguindo os métodos acadêmicos de organização que a Gicélia aprendeu durante a faculdade de Biblioteconomia, mas a ordem afetiva que ela impõe na casa de cada um de seus clientes. Uma ordem afetiva. Nós, os leigos, e também os profissionais gentis como a Cé, preferimos esse tipo de arrumação. Ou seja, alguma ordem, vá lá, mas montes de carinho e familiaridade. Tenho uma prateleira feita todinha com livros sobre o século XIX. Uma só sobre Cartago & Aníbal, Itália e Grécia. Uma com livros de viagens. Uma do Verissimo (como a minha amiga Luciana, que ainda tem uma só com livros da Agatha Christie e uma de detetives-que-não-são-da-Agatha). Tenho meus queridos à mão; preciso deles perto de mim. Os Eduardo Almeida Reis ao lado do Stanislaw, ao lado do Nelsão. Todos juntos, camaradas, ao alcance dos meus olhos cansados. Os dicionários, livros de consulta e gramática ficam logo ali — trabalho de frente para eles.

E as soluções variam, como variam o amor e a afinidade.

Uma amiga reclama que ninguém entende o amor dela por J. G. de Araújo Jorge. Pois ela fez uma prateleira só para o poeta, do lado dela do escritório. O Lauro, recém-casado, divide tudo com a Giovanna, tudo, menos a coleção autografada do Harry Potter, aqueles volumes ingleses de capa dura, lindos, no mais perfeito estado, escondidos atrás do vidro (desconfio que à prova de balas) de uma estante bem chique. A Verô mantém os amados bem juntinho dela, porque nos momentos de surto, só eles dão conta da dor. O Vinícius, que ainda não tem um ano, já conta com sua própria prateleira. A Andréa tem uma longa prateleira de não lidos, umas tantas com os melhores romances, e mais duas com os livros do doutorado.

O Paulo sonha em ser mais Borges e organizar seus livros em categorias semelhantes às que o velho dizia estarem organizados os animais do mundo http://goo.gl/jjjOWB (bom, Paulo, não sei você, mas eu certamente tenho livros que cabem na prateleira “Os que se agitam feito loucos” ou “Os pertencentes ao Imperador”). A Rita tem a pilha da cabeceira e a prateleira dos “Amores aleatórios ligados pela quantidade de suspiros”. Minha mãe tem uma prateleira só para o Moacyr Scliar e um pedaço de prateleira que mantém vazio, em homenagem aos emprestados e nunca devolvidos, “Os grandes ausentes”. A Deborah tem um canto especial só para os livros que falam das coisas boas da vida: comida, viagens, cachorros.

O Char tem uma prateleira só com livros para a neta ler quando vem visitá-lo, e uma prateleira só com os romances alemães, “Os melhores, os primeiros, os mais perfeitos românticos”. O Paulo J. tem metade de sua enorme estante da sala, dedicada ao 007, em uma porção de idiomas. A Cristina tem duas prateleiras sobre castelos.

O Pedrão definiu o estilo de arrumação dele, dizendo: “Preciso de uma retroescavadeira” e mudou de assunto. A Renata faz pilhas: a pilha em cima da escrivaninha, a pilha, no chão do escritório, dos livros que não cabiam em lugar nenhum, a pilha no chão do escritório dos que estavam lá em cima, mas que agora ela vai precisar.

O Ricardo, dentre as muitas prateleiras especiais, tem a “dos livros que me fazem lembrar você e as dos livros que me fazem lembrar eu mesmo”. O Max e a Denise têm fileiras duplas em todas as prateleiras, livros na cozinha, livros no porão, livros no quarto da Erica e não querem falar sobre isso. Ou querem, mas não têm tempo, porque estão arrumando livros. A Julia mantém por perto seus tezzões literários (e são tezzões mesmo, porque em cima da pilha fica o Cristovão Tezza).

Livros, livros, livros. Arrumá-los é como arrumar a alma, colocar as prioridades em ordem, descobrir o que não tem mais espaço e o que não está no lugar de honra, mas deveria. Os livros são seus. Descubra como quer vê-los e encontrá-los, arrume-os para ser feliz.

Em tempo: o Claudio, entre os repetidos dele e os do Daniel, ficou com os do Daniel. Os do Daniel. Meu coração no seu, camarada.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).