Na sua cabeça, a arrumação será rápida e indolor. Daí, na primeira prateleira, a de gibis, você encontra um Luluzinha que seu avô, o Velho Affonso, colocou debaixo do seu travesseiro daquela vez em que você caiu do barco no meio da pescaria, chorou feito um bebê, e ele levou você para casa, lavou seu cabelo, cantou a musiquinha do comunismo e fez você dormir no colo dele, sobre aquelas pernas magricelas. É claro que essa descoberta dá início ao festival de choro, fungadelas, reminiscências, “o que foi que eu fiz da minha vida, meu Deus?”.

Um suave conselho: pare agora, ou não pare mais. E assoe esse nariz.

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Sonho Recorrente I: Depois de vagar aflita e cheia de calor pelas ruas da Vila Sônia (bairro onde vivi quase 20 anos), caio num abismo que, sei, vai dar no bairro de Pinheiros. Sou como o Pica-Pau descendo as cataratas do Niágara, mas sem água (um lençol branco, longo e meio molenga, serve de pano de fundo para mim por toda a queda), sem barril e eu não sou engraçadinha como o Pica-Pau.

Chego a um enorme salão que, sei, é uma livraria. É fresco e calmo ali, e eu me sinto ótima, serena, não estou com calor, nem irritada, nem afobada, nem tenho prazo nenhum para dar conta, nem nada me pinica. De alguma forma, sei que estou a salvo porque há livros ali. Na minha cabeça, dormindo ou acordada, carrego a crença de que uma sala com muitos e muitos livros, não pode ser um lugar ruim, onde alguma coisa malvada aconteça.

Sabendo portanto, que tudo vai ficar bem, ando por ali examinando os livros e sorrio ao passar com uma versão minha de 10 anos, que joga dominó com a versão de 8 anos do meu irmão, o Pedrão.

Finalmente, agarro um livro e me sento numa poltrona cinzenta para ler. Eu sei que nunca mais vou sair dali, que vou ler simplesmente até morrer e que está tudo bem.

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Verônica, via e-mail: “Fal, as pessoas escrevem os livros que lemos, segundo uma escritora que li, para calar a própria voz e dar corpo e forma para as outras vozes que as habitam. Não é lindo?”.

É, Verô, lindo.

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Meu Mulherzinhas é o mesmo exemplar que minha mãe lia para meu irmão e para mim na década de 1970. Ela alternava Mulherzinhas e Apanhador no campo de centeio depois que voltávamos da escola. De noite, ela lia em voz alta Rumo à Estação Finlândia. O método educacional da minha mãe deveria ser patenteado.

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Onde diabos eu vou com tantas biografias? Que necessidade é essa de ler sobre a vida dos outros? Não, não responda. Jamais responda às minhas perguntas retóricas.

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Nosso Lord Jim tem uma capa de couro que deve pesar mais do que o Conrad com um copo de uísque na mão. Às vezes, quando eu estava contando uma história, meu marido me chamava de “minha Marlow”, e eu morria um pouco por dentro.

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Achei que o mundo se dividisse entre os que amam maçã na maionese e uva passa no fricassê, e os que chamam isso de falsidade ideológica, mas descobri que o mundo, na verdade, divide-se entre os que colocam a obra de Laura Ingalls na prateleira de ficção norte-americana, e os que a colocam na prateleira de biografias.

Eu? Biografias, claro.

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Sonho Recorrente II: Estou na biblioteca de O Nome da Rosa. Tremendo lugar comum, sei disso acordada, mas adormecida, estou muito feliz no meu hábito de monge e não dou a mínima para clichês, sejam eles literários ou não.

Vago encantada pelos corredores, até chegar a um nicho onde estão arrumados todos os meus livros.

O primeiro pensamento que me ocorre ao vê-los não é: “Fabia, para que diabos você quer os seus livros quando está numa biblioteca medieval, quando tem a chance de ler coisas raras, incríveis, coisas que provavelmente nem existem mais?”. O primeiro pensamento que me ocorre é: “Mas gente, cadê o Sean Connery, pelo amor de Deus?”

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A divisão de minhas prateleiras, “Sexo & Religião”, “Ciência & Filosofia”, fazem arfar os amigos que frequentam meu tugúrio, o Apart Hotel do Conde Drácula.

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Um dia, minha mãe me deu um livro chamado Ana Terra. “É parte de um livro enorme e do mesmo autor do Ursinho com música na barriga, você vai adorar!”. Não, não adorei. Odiei, para falar a verdade. Mais de trinta anos depois, recoloco no lugarzinho de sempre minha desgastada, desbeiçada, descosturada, toda grifada e batida trilogia O Tempo e o Vento e dou razão à minha mãe. Era mesmo o caso de eu adorar. Só era jovem demais.

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No meio da arrumação, você alcança a prateleira dos livros sobre ciência. E ali, atrás deles e sob uma grossa camada de poeira, seus dedos tocam a bengala do seu pai. Bem, pare tudo o que estiver fazendo, sente-se no banquinho, chore um pouco de saudade do Velho, um pouco de pena de si mesma, um pouco pelo medo do futuro. Chore por todas as coisas que vocês nunca disseram um para o outro e por muitas das que disseram, chore pelas muitas oportunidades desperdiçadas, por tudo que você não foi capaz de ser, de fazer, de conquistar.  Depois, assoe o nariz e volte para a arrumação.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).