*Este é o primeiro capítulo do livro "Viagem com um burro pelas Cevenas", um pitoresco diário da travessia de Robert Louis Stevenson (1850-1894) pela cadeia montanhosa das Cevenas, no sul da França, acompanhado de uma jumenta. Com fina ironia, o autor escocês  – que se tornaria conhecido por obras infanto-juvenis como A ilha do tesouro e O médico e o monstro – relata essa trajetória, ritmada sobretudo pelo humor da teimosa Modestine, que ora empaca, ora decide sozinha a trilha a seguir.

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Num lugarzinho chamado Le Monastier, num afável vale montanhoso a 24 quilômetros de Le Puy, passei um mês de dias agradáveis. Monastier é famoso pela produção de rendas, pela bebedeira, pela liberdade da linguagem e pela inigualável divergência política. Nesse pequeno povoado montanhês, há seguidores de cada um dos quatro partidos franceses – legitimistas, orleanistas, imperialistas e republicanos –; e todos odeiam, aborrecem, condenam e caluniam uns aos outros. Exceto para fins comerciais, ou para desmentirem um ao outro numa briga de taverna, deixam de lado toda a polidez da conversa. É a própria Polônia das montanhas. No meio dessa babilônia, vi-me como um ponto de convergência: todos estavam ansiosos para serem gentis e prestativos para com o estrangeiro. Isso não apenas por conta da hospitalidade natural do povo montanhês, nem mesmo pela surpresa com que me encaravam por ser um homem que morava de livre vontade em Le Monastier quando bem poderia morar em qualquer outra parte deste vasto mundo; deu-se em boa medida por causa dos meus planos de excursão para o sul através das Cevenas. Um viajante do meu tipo era coisa até então inaudita naquele distrito. Olhavam-me com desdém, como um homem que planejasse uma jornada à lua, mas ao mesmo tempo com um interesse respeitoso, como alguém que partisse para o polo inclemente. Todos estavam dispostos a ajudar-me com os preparativos; uma multidão de simpatizantes apoiou-me no momento crítico de um regateio; não dei um só passo que não fosse acompanhado por brindes e comemorado num jantar ou café da manhã.

Já era quase outubro e eu ainda não estava pronto para partir. E nas altitudes elevadas pelas quais se estendia a minha rota não havia veranico que esperar. Eu estava determinado, se não a acampar ao ar livre, a pelo menos ter à disposição os meios para acampar ao ar livre. Pois não há nada mais molesto a uma mente tranquila do que a necessidade de chegar a um abrigo antes do anoitecer, e aquele que viaja penosamente a pé não deve dar como suposta a hospitalidade de uma estalagem de povoado. Uma tenda, sobretudo para um viajante solitário, é complicada de armar e complicada de desmontar; e ainda confere um traço extravagante à bagagem durante o trajeto. Um saco de dormir, por outro lado, está sempre pronto – basta entrar nele; presta-se a uma dupla finalidade: cama de noite, valise de dia; e não anuncia a intenção de acampar a qualquer transeunte curioso. Isso é fundamental. Um acampamento que não é secreto não passa de um dormitório conturbado: você se torna uma personagem pública; o camponês sociável janta mais cedo e vem visitar o seu leito, e você precisa dormir com um olho aberto e estar de pé antes do amanhecer. Decidi pelo saco de dormir, e, depois de repetidas visitas a Le Puy e uma boa dose de vida regalada para mim e meus conselheiros, conseguiu-se que um saco de dormir fosse projetado, fabricado e triunfantemente trazido para a casa.

Esse filho do meu engenho tinha quase 2 metros quadrados, sem contar as duas abas triangulares que serviam de travesseiro à noite e de topo e fundo do saco de dia. Chamo-o de “o saco”, mas o considerava assim por mera cortesia: estava mais para uma espécie de baguete ou salsichão, com lona de carroça verde impermeável por fora e lã azul de ovelha por dentro. Formava uma valise cômoda e um leito quente e seco. Havia um espaço régio para uma pessoa virar-se; no limite, dois podiam usá-lo. Eu podia enterrar-me nele até o pescoço. Confiava a cabeça a uma touca de pele, com um manto que eu podia desdobrar por cima das orelhas e uma faixa que eu podia passar sob o nariz como uma máscara. No caso de chuva forte, eu planejava construir uma pequena tenda, ou tendilha, com a minha capa de chuva, três pedras e um galho curvo.

Logo se perceberá que eu seria incapaz de carregar esse embrulho enorme sobre os meus ombros meramente humanos. Faltava escolher uma besta de carga. Ora, o cavalo é a dama requintada dos animais: volúvel, tímido, delicado no comer e frágil de saúde; é valioso demais e irrequieto demais para ser deixado só, de modo que ficamos acorrentados a essa criatura como a um companheiro de escravidão nas galés. Uma estrada perigosa o faz perder o controle. Em resumo, trata-se de um aliado incerto e exigente, que multiplica por trinta o trabalho do viajante. Eu precisava era de algo barato e pequeno e robusto, de temperamento impassível e sereno. E todos esses requisitos apontavam para um burrinho.

Havia em Monastier um velho, de intelecto bastante prejudicado segundo alguns, que costumava ser seguido pelos meninos de rua e era conhecido por todos como pai Adão. Pai Adão tinha uma carroça e, para puxar a carroça, uma diminuta jumenta, não muito maior do que um cão, de cor cinzenta, com olhos gentis e um maxilar determinado. Havia na malandra algo de gracioso e nobre, uma elegância puritana, que atiçou o meu gosto de imediato. O nosso primeiro encontro foi na praça do mercado de Monastier. A fim de provar o bom temperamento do animal, puseram-se sucessivas crianças no seu lombo para uma volta, e elas sucessivamente ficaram de pernas para o ar. Isso até a falta de confiança começar a reinar nos peitos juvenis e a experiência ser interrompida por escassez de voluntários. Eu já tinha o apoio de uma comissão de amigos, mas, como se isso não bastasse, todos os compradores e vendedores vieram rodear-me para ajudar na barganha; e a jumenta, eu e o pai Adão fomos centro de uma algazarra por quase meia hora. No fim, ela passou ao meu serviço pela importância de 65 francos e um copo de conhaque. O saco já tinha custado 80 francos e dois copos de cerveja, de maneira que Modestine – como eu a batizei de imediato – era em todos os aspectos o artigo mais barato. De fato, foi como deveria ser, pois ela era apenas um acessório do meu colchão, ou um estrado semovente sobre quatro rodízios.

Meu último encontro com pai Adão foi numa casa de bilhar à sinistra hora do poente, quando lhe administrei o conhaque. Ele declarou-se profundamente comovido pela separação e professou que muitas vezes comprou pão branco para a burrinha enquanto ele próprio contentava-se com pão preto. Isso, porém, segundo as melhores autoridades, devia ser um voo da sua imaginação; ele era famoso no vilarejo por abusar brutalmente da jumenta. Contudo, é certo que ele derramou uma lágrima, e a lágrima lhe traçou uma marca clara bochecha abaixo.

Por conselho de um falacioso seleiro local, fizeram-me um coxim de couro com argolas onde pendurar a carga. Aprontei conscienciosamente minha bagagem e organizei minha toalete. Quanto a armas e utensílios, tomei um revólver, uma pequena lâmpada de álcool, uma lanterna e algumas velas de meia pataca, um canivete e um frasco grande de couro. A carga principal consistia em duas mudas completas de roupa quente – além do meu traje de viagem de veludilho rústico, meu caban e meu spencer de tricô –, alguns livros e o meu cobertor de viagem, que, também em forma de mala, me possibilitava um segundo castelo nas noites frias. Os mantimentos permanentes eram representados por bolos de chocolate e mortadela bolonhesa enlatada. Tudo isso, com exceção do que eu carregava comigo, cabia facilmente na bolsa de pele de ovelha. Por sorte, também lancei dentro dela a minha mochila vazia, mais pela conveniência do transporte do que por algum pensamento de que poderia querê-la na jornada. Para as necessidades mais imediatas, levei um pernil de cordeiro frio, uma garrafa de Beaujolais, uma garrafa vazia para carregar leite, um batedor de ovos e uma quantidade considerável de pães pretos e brancos, como o pai Adão, para mim e a minha burrica, só que no meu esquema de coisas os destinatários invertiam-se.

Monastienses de todos os espectros de pensamento político entraram em acordo para assustar-me com muitas desventuras absurdas e com muitas e surpreendentes formas de morte súbita. Frio, lobos, ladrões, sobretudo o pregador de peças noturno, eram diária e veementemente impostos à minha atenção. Contudo, o perigo verdadeiro e patente ficou de fora desses vaticínios. Como cristão, foi o meu fardo que me fez sofrer pelo caminho. Antes de contar os meus infortúnios pessoais, permitam-me relatar em duas palavras o que aprendi da minha experiência. Se a carga é bem atada nas pontas e dependurada inteiriça – não dobrada, pelos céus! – de través sobre a albarda, o viajante está seguro. A sela por certo não ficará justa, tal é a imperfeição da nossa transitória vida; seguramente penderá e tenderá a tombar. Mas há pedras em qualquer beira de estrada, e um homem logo aprende a arte de corrigir qualquer tendência ao desequilíbrio com uma pedra bem encaixada.

No dia da minha partida levantei-me um pouco depois das 5 horas; pelas 6, começamos a carregar o burro; e dez minutos depois minhas esperanças estavam no chão. O coxim não permanecia sobre o lombo de Modestine sequer meio instante. Devolvi-o ao seu criador, com quem tive momentos tão injuriosos que do lado de fora a rua ficou recoberta de um muro ao outro com mexeriqueiros querendo ver-nos e ouvir-nos. O coxim trocava de mãos com muita vivacidade; talvez seja mais preciso dizer que o atirávamos um na cabeça do outro; em todo caso, estávamos muito abrasados e pouco amistosos, e falávamos com bastante liberdade.

Obtive uma albarda comum para burros – uma barde, como a chamam – que servia em Modestine e a carreguei mais uma vez com os meus pertences. O fardo dobrado, meu caban (pois fazia calor e eu caminharia de colete), uma grande barra de pão preto e um cesto aberto contendo o pão branco, a carne de cordeiro e as garrafas: tudo foi amarrado junto num sistema muito elaborado de nós, e olhei o resultado com um contentamento fátuo. Num arranjo tão monstruoso – toda a carga posta sobre os ombros do burro sem nada embaixo para a contrabalançar, com uma albarda que ainda precisava ser lasseada para servir no animal e atada com cinchas novas em folha de que se poderia esperar que esticassem e afrouxassem pelo caminho –, mesmo um viajante muito incauto deveria ter enxergado o desastre que se desenhava. O elaborado sistema de nós foi também obra de simpatizantes demais para ter sido pensado com engenhosidade. É verdade que eles apertaram as cordas com vontade; até três ao mesmo tempo apoiaram o pé contra os quartos de Modestine e puxaram trincando os dentes. Mas aprendi depois que uma pessoa atenta, sem nenhum emprego de força, pode realizar um trabalho mais firme que meia dúzia de cavalariços acalorados e entusiasmados. Eu não passava de um novato então; mesmo depois do infortúnio com a bagagem, nada podia abalar minha segurança, e cruzei a porta do estábulo como um boi que vai ao matadouro.

Robert Louis Stevenson