Crônica de João do Rio publicada em 2 de abril de 1908 no jornal A Notícia

 

João do Rio foi o cronista por excelência do começo do século XX no Rio de Janeiro. Poucas décadas depois da proclamação da República, ele retratou, como nenhum outro, as transformações vividas pela então capital do país. Das reformas urbanas que buscavam construir a vitrine de um Brasil mais moderno, à revolução de modos e costumes que afetava a alta sociedade carioca. O Rio se tornava a “Frívola City”, segundo o cronista.

Por Graziella Beting, editora da Coleção João do Rio, da Carambaia.

O chá e as visitas

Por João do Rio

A vida nervosa e febril traz a transformação súbita dos hábitos urbanos. Desde que há mais dinheiro e mais probabilidades de ganhá-lo – há mais conforto e maior desejo de adaptar a elegância estrangeira. A ininterrupta estação de sol e chuva de todo ano é dividida de acordo com o protocolo mundano; o jantar passou irrevogavelmente para a noite. Todos têm muito que fazer e os deveres sociais são uma obrigação.

– Em que ocupará a minha amiga o seu dia de hoje?
– A massagista, às nove horas, seguida de um banho tépido com essência de jasmim. Aula prática de inglês às dez. All right! Almoço à inglesa. Muito chá. Toilette. Costureiro. Visita a Fulana. Dia de Cicrana. Chá de Beltrana. Conferência literária. Chá na Cave. Casa. Toilette para o jantar. Teatro. Recepção seguida de baile na casa do general...

Não se pode dizer que uma carioca não tem ocupações no inverno. É uma vida de terceira velocidade extraurbana. Mas também todos os velhos e todas as velhas que se permitem ainda existir não contêm a admiração e o pasmo pela transformação de mágica dos nossos costumes. E a transformação súbita, essa transformação que nós mesmos ainda não avaliamos bem, feita assim de repente no alçapão do Tempo, foi operada essencialmente pelo Chá e pelas Visitas.

Sim, no Chá e nas Visitas é que está toda a revolução dos costumes sociais da cidade neste interessantíssimo começo do século.

Há dez anos o Rio não tomava chá senão à noite, com torradas, em casa das famílias burguesas.

Era quase sempre um chá detestável. Mas assim como conquistou Londres e tomou conta de Paris, o chá estava apenas à espera das avenidas para se apossar do carioca. Há dez anos, minutos depois de entrar numa casa era certo aparecer um moleque, tendo na salva de prata uma canequinha de café:

– É servido de um pouco de café?

O café era uma espécie de colchete da sociabilidade no lar e de incentivo na rua. Assim, como sem vontade o homem era obrigado a beber café em cada casa, o café servia nos botequins para quando estava suado, para quando estava fatigado, para quando não tinha o que fazer – para tudo enfim.

Foi então que apareceu o Chá, impondo-se hábito social. As mulheres – como em Londres, como em Paris – tomaram o partido do Chá. O amor é como o chá, escreveu Ibsen. O chá é o Oriente exótico, escreveu Loti. As mulheres amam o amor e o exotismo. Amaram o chá, e obrigaram os homens a amá-lo. Hoje toma-se chá a toda a hora – com creme, com essências fortes, com e sem açúcar, frio, quente, de toda a maneira, mas sempre chá. O chá excita a energia vital, facilita a palestra, dá espírito a quem não o tem – e são tantos!... – dizem mesmo que é indulgente, engana a fome e diminui o apetite. Quando as damas são gordas, o chá emagrece, quando as damas são magras dá-lhes com o seu abuso, sensações de frialdade cutânea, um vago mal-estar nervoso, que é de um encanto ultramoderno. Por isso toda a gente toma chá.

– Onde vai?
– Tomar um pouco de chá. Estou esfomeado!
– Mas que pressa é esta?
– Quatro horas, meu filho, a hora do five-o’clock da condessa
Adriana!...

O chá é distinto, é elegante, favorece a conversa frívola e o amor que cada vez mais não passa de flirt. É inconcebível um idílio entre duas xícaras de café. Não houve romancista indígena, nem mesmo o falecido Alencar, nem mesmo o bom Macedo, com coragem de começar uma cena de amor diante de uma cafeteira. Entretanto o chá parece ter sido apanhado na China e servido a quatro ou cinco infusões de mandarins opulentos, especialmente para perfumar depois, de modo vago, o amor moderno. Por isso vale a pena ir a um chá, a um tea room.

Há ranchos de moças de vestes claras, rindo e gozando o chá; há mesas com estrangeiros e com velhas governantas estrangeiras, há lugares ocupados só por homens que vão namorar de longe, há rodas de cocottes cotadas ao lado da gente de escol. Tudo ri. Todos se conhecem. Todos falam mal uns dos outros. Às vezes fala-se de uma mesa para outra; às vezes há mesas com uma pessoa só, esperando mais alguém, e o que era impossível à porta de um botequim, ou à porta grosseira de uma confeitaria, é perfeitamente admissível à porta de um Chá.

– Dar-me-á V. Exa. a honra de oferecer-lhe o chá? – Mas com prazer. Morro de fome...

E dois dias depois, ele, que esperou vinte minutos, na esquina:
– Mas o Destino protege-me! Chegamos sempre à mesma hora para o nosso chá...

O nosso chá! O chá faz a reputação de uma dona de casa. Nos tempos de antanho, uma boa dona de casa era a senhora que sabia coser, lavar, engomar e vestir as crianças. Hoje é a dama que serve melhor o chá, e que tem com mais chic – son jour, para reter um pouco mais as visitas.

Se acordássemos uma titular do Império do repouso da tumba para passeá-la pelo Rio transformado – era quase certo que essa senhora, com tanto chá e tantos salões que recebem, morreria outra vez.

Há talvez mais salões que recebem do que gente para beber chá. Diariamente as seções mundanas dos jornais abrem notícias comunicando os dias de recepção de diversas senhoras, de Botafogo ao Caju. Toda dama que se preza – e não há dama ou cavalheiro sem uma alevantada noção da própria pessoa – tem o seu dia de recepção e a sua hora. Algumas concedem a tarde inteira, e outras dão dois dias na semana. Há pequenos grupos de amigos que se apropriam da semana e se distribuem mutuamente os dias e as horas. De modo que o elegante mundano com um círculo vasto de relações, isto é, tendo relações com alguns pequenos grupos, fica perplexo diante da obrigação de ir a três ou quatro salões à mesma hora, ficando um nas Laranjeiras, outro na Gávea, outro em S. Cristóvão e outro em Paula Matos – bairro talvez modesto quando por lá não passava o elétrico de Santa Teresa... Outrora só se davam o luxo de ter dias, o seu “dia”, as damas altamente cotadas da corte.

O mesmo acontecia na França, antes de Luís XVI. A visita era imprevista, e sem pose.

Ouvia-se bater à porta:
– Vai ver quem é?
– É D. Zulmira, sim senhora, com toda a família.
Havia um alvoroço. Apenas dez da manhã e já a Zulmira! E entrava D. Zulmira, esposa do negociante ou do funcionário Leitão, com as três filhas, os quatro filhos, o sobrinho, a cria, o cachorrinho.

– Você? Bons ventos a tragam! Que sumiço! Pensei que estivesse zangada.
– Qual, filha, trabalhos, os filhos. Mas hoje venho passar o dia, Leitão virá jantar...

E ficava tudo à vontade. As senhoras vestiam as matinées das pessoas de casa, as meninas faziam concursos de doces, os meninos tomavam banho juntos no tanque e indigestões coletivas. Às cinco chegava o Leitão com a roupa do trabalho e ia logo lavar-se à toilette da dona da casa, o quarto patriarcal da família brasileira, tão modesto e tão sem pretensões... Só às onze da noite o rancho partia ou pensava em partir, porque às vezes a dona da casa indagava.

– E se vocês dormissem...
– Qual! Vamos desarranjar...
– Por nós, não! É até prazer.
E dormiam mesmo e passavam um, dois, três dias, e as despedidas eram mais enternecidas do que para uma viagem.

Hoje só um doido pensa em passar dias na casa alheia. Passar dias com tanto trabalho e tantas visitas a fazer! Só a expressão – “passar dias” – é impertinente. Não se passam dias nem se vai comer à casa alheia sem prévio convite. Adeus à bonomia primitiva, à babosa selvageria. Vai-se cumprir um dever de cortesia e manter uma relação de certo clan social que nos dá ambiente em público com as senhoras e prováveis negócios com os maridos. As damas elegantes têm o “seu dia”. Há tempos ainda havia um criado bisonho para vir dizer.

– Está aí o Dr. Fulano.

Agora, o Dr. Fulano tem as portas abertas pelo criado sem palavras e entra no salão sem espalhafato. Os cumprimentos são breves. Raramente aperta-se a mão das damas. Ha sempre chá, petits fours e esse alucinante tormento mundano chamado bridge. Muitos prestam atenção ao bridge. Fala-se um pouco mal do próximo com o ar de quem está falando da temperatura e renovam-se três ou quatro repetições de ideias que agitam aqueles cerebrozinhos.

Depois um cumprimento, um shake-hands perdido, ondulações de reposteiros. Quanto menos demora mais elegância. Vinte minutos são um encanto. Uma hora, o chic. Duas horas só para os íntimos, os que jogam bridge. Esses levam mesmo mais tempo. E sai-se satisfeito com o suficiente de flirt, de mundanice, de dever, de novidade para ir despejar tudo na outra recepção... Haverá quem tenha saudades da remotíssima época do Café e das Visitas que passavam dias? Oh ! não ! não é possível! Civilização quer dizer ser como a gente que se diz civilizada. Essa história de levar o tempo, sem correção, sem linha, numa desagradável bonacheirice, podia ser incomparável e era. Em nenhuma grande cidade com a consciência de o ser, se faziam visitas como no Rio nem se tomava café com tamanha insensatez. Mas não era chic, não tinha o brilho delicado da arte de cultivar os conhecimentos, erigir a conservação do conhecimento num trabalho sério e conservar a própria individualidade e a sua intimidade a salvo da invasão de todos os amigos.

Com o Chá e as Visitas modernas, ninguém se irrita, ninguém dorme a conversar, os cacetes são abolidos, a educação progride, há mais aparência e menos despesa, e um homem só pode queixar-se de fazer muitas visitas, isso com o recurso de morrer e exclamar como Ménage na hora do trespasse.

Dieu soit loué!
Je ne ferais plus de visites...**

Temos aí o inverno, a season deliciosa. Em que ocupará a carioca o seu dia! Em fazer-se bela para tomar chá e ir aos “dias”das suas amigas. Não se pode dizer que não tenha ocupações e que assim não conduza com suma habilidade a reforma dos hábitos e dos costumes, reforma operada essencialmente pelo chá e pelas visitas...

Daí talvez esteja eu a teimar numa observação menos verdadeira. Em todo caso, o chá inspira esses pensamentos amáveis, e desde que tem o homem de ser dirigido pela mulher, em virtude de um fatalismo a que não escapam nem os livres-pensadores– mais vale sê-lo por uma senhora bem vestida, que toma chá e demora pouco...


*Espécie de bata que as mulheres usavam dentro de casa.

**Deus seja louvado! Não farei mais visitas...