Não fossem aqueles dois livros, eu não estaria aqui

Instado pelo editor da Carambaia a falar das minhas leituras pensei: caramba, por que não começar do começo? Não falo da Caminho Suave, a cartilha adotada pelos analfas dos anos 70. Me refiro a antes, bem antes de eu começar a sentir aquele estranho tesão por poeira, mofo, tinta plástica, cola feita de asinha de barata, couro, tipos, traças, papel, papel, papel. O relançamento de As Portas da Percepção/ Céu e Inferno, de Aldous Huxley, me despertou uma memória adormecida num lugar especial da minha estante. Tão especial que na verdade demorei uma meia hora pra encontrá-lo — já imaginava que teriam sido vendidos para um sebo depois da última Grande Defenestração de Livros semestral. Cheguei a ter sete mil livros; agora resumo minha biblioteca a três mil; a cada seis meses vendo ou dôo um tanto. Três mil já é um número bastante dilatado — devo ter lido uns 60% dela, se tanto; alguns, várias vezes; outros, somente folheados; muitos, jamais abertos; Lima Barreto tinha só 800 e olhe só o que fez com isso. Meu criado-mudo uma hora vai abrir a boca, pouco antes de submergir ao peso da derrota que foi eu ter abandonado tantas leituras nos últimos dois anos (chequei agora: lá há 43 exemplares empilhados, suplicando minha atenção, os olhos arregalados por observar as cenas dos últimos capítulos da minha fracassada vida amorosa). Enfim, não teria acumulado esses pobres 43 largados não fosse a dupla fundamental lá de trás, os absolute beginners culpados de tudo.

Tinha uns 12 anos e havia lido todo o Monteiro Lobato, o Júlio Verne, a maior parte dos livros da Agatha Christie e do Conan Doyle, quando comecei a buscar drogas mais pesadas. A Coleção Vagalume (também relançada recentemente) já havia me exaurido, e da literatura brasileira que me enfiavam goela abaixo na escola eu só curtia os contos do Machado de Assis — até hoje não passou minha ojeriza a José de Alencar e ao romantismo brasuca (tirando as Noites da Taverna do punheteiro Álvares de Azevedo). Eis que fuçando nas gavetas do meu pai eu encontro um tesouro. Uns livrinhos de bolso com capas sensacionalistas e exageradas: Vidas Vazias, de Alberto Moravia (uma mulher nua soterrada por uma avalanche de dólares), Eu, Robô, de Isaac Asimov (um robô muito maneiro), Recordações da Casa dos Mortos, de Fédor Dostoiévski (um preso sendo chicoteado por um sujeito de olhar demoníaco), Complexo de Portnoy, de Philip Roth (não lembro bem mas acho que era... um fígado?) e muitos outros. Como estavam meio muquiados por uma papelada, deduzi que não fossem livros pro meu bico.

Meus pais tinham cuidado com o conteúdo que chegaria à minha mente. Basta dizer que pouco antes de eu começar a cometer sinfonias com a mão direita minha mãe levou a coleção de Playboy do meu pai para o quintal e meteu fogo. Não lembro bem se era ciúme do pai ou proteção ao filho, fato é que o máximo de pornografia que esteve ao meu alcance na época foram suas revistas Claudia, catálogos de lingerie... e Roth, claro. Mas divago. Junto com as Histórias Extraordinárias de Poe que eu havia topado ao acaso na biblioteca da escola — o Colégio Glória de Porto Alegre, onde então morava — , estes foram os primeiros exemplares da literatura adulta em que embarquei. Tinha cuidado para não ser descoberto; assim, pouco antes de o meu pai chegar do trabalho, colocava os livros de volta na gavetinha. Numa das vezes, porém, percebi que, atrás dos pocket books, havia dois outros livros ocultos. Tinham capas bem interessantes. Me distraí por um momento admirando as imagens até que escutei alguém pigarreando atrás de mim. Meu pai havia chegado mais cedo em casa.

— Cuidado com esses dois livros aí — disse. — Eles podem mudar a sua vida. Mudaram a minha.

O livro de capa amarela, da editora Exposição do Livro, ilustrada pelo grande Jayme Cortez, ilustrador e quadrinista dos anos 60 e 70, era Na Colônia Penal, de Franz Kafka, com tradução de Torrieri Guimarães (do francês, soube depois). Contém vários dos melhores contos de Kafka: "Um médico rural", "Informação para uma academia", "Um artista da fome", "A metamorfose", e microcontos que até hoje para mim são enigmas, como "Desejo de ser índio". O outro livro tinha capa mais ousada graficamente, e como ilustração, apenas um quadrado dentro de um quadrado onde havia um círculo — não está creditada, mas eu penso que é de Eugênio Hirsch essa capa de As Portas da Percepção/ O Céu e o Inferno, de Aldous Huxley, editora Civilização Brasileira.

— Por que tenho que ter cuidado com eles?

— Porque se não fossem esses livros você não teria nascido.

— ?

— Quando encontrei sua mãe pela primeira vez, estava lendo esse Kafka aí. E sua mãe estava lendo o Huxley. A gente tinha se encontrado num arranjo feito pelo meu primo. Eu era muito tímido, tinha vindo do interior, e sua mãe era uma moça descolada da capitarrr — riu meu pai. — Se não fossem os livros, a gente não teria assunto.

Fiquei observando os dois livros fascinado, um tempão.

— Pode ler — disse meu pai. — E não se preocupa em fechar a gaveta: os livros são seus. — Abriu o livro do Kafka, vagou por umas páginas e leu:

"— Todos se esforçam para chegar à Lei; por que só eu quis entrar nessa porta?

— Ninguém ia querer entrar aqui, porque essa porta foi feita para você. Agora vou fechá-la."

Meu pai bateu o livro na minha cabeça, riu:

— Um dia você vai entender esse conto. Não precisa fechar a gaveta... e cuidado com os livros lidos pelas moças, hein?

Tudo o que li, tudo o que escrevi depois, tem a ver com Kafka e Huxley. Sim, uma núpcia tão esquisita quanto o Casamento do Paraíso com o Inferno, aquele livro estranho de William Blake: meus pais nunca desconfiariam de que daquele encontro derivaria minha genealogia literária. Um espaço novo, fundado pela fusão dessas duas frases: "Quando certa manhã Gregor Samsa despertou depois de um sono intranquilo achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto" e "E foi assim que, em uma radiosa manhã de maio, tomei quatro decigramas de mescalina, dissolvidos em meio copo d'água, e sentei-me para esperar pelos resultados". Foi graças ao confronto dessas duas manhãs que eu acordei.

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*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor de Mnemomáquina (romance, Demônio Negro), Sandiliche (infanto-juvenil, Cosac Naify), V.I.S.H.N.U. (HQ, Companhia das Letras), Céu de Lúcifer (contos, Azougue) e O Impostor (poesia, Ciência do Acidente), entre outros