A sequência final de "O Dia do Gafanhoto" (1975) -- que Waldo Salt roteirizou e John Schlesinger dirigiu a partir do romance de Nathanael West -- tem uma rápida intromissão de uma manchete de jornal: "Roosevelt pede paz à nação". No livro e também no filme, a ação é ambientada nos anos 1930, e o New Deal ainda não havia virado o jogo contra a Grande Depressão. Os tempos eram turbulentos, os EUA viviam a sua pior crise do século 20, e o então presidente, o democrata Franklin Delano Roosevelt, empenhava-se em manter sob controle a panela de pressão social.

No livro de West, ela explode de maneira incontrolável e assustadora, sem que o escritor tenha considerado necessário fazer qualquer menção explícita ao cenário sociopolítico. Em 1939, quando "Gafanhoto" chegou às livrarias, seus leitores (poucos, naquele momento) tinham memória recente daquele período. No filme de Salt e Schlesinger, era preciso ser mais didático com os espectadores dos anos 1970, muitos dos quais haviam nascido depois da morte de Roosevelt (em 1945, durante o seu quarto mandato) -- daí a manchete de jornal, que sozinha explica um bocado de até onde o cinema às vezes quer chegar para ser claro ao grande público.

Salt (1914-1987) e Schlesinger (1926-2003) foram escolhas especialmente significativas para comandar a adaptação. Ambos haviam trabalhado juntos em "Perdidos na Noite" (1969), que valeu ao primeiro o Oscar de roteiro adaptado e ao segundo o de direção. Era uma demolidora exploração do sonho americano, baseada em romance de James Leo Herlihy, em que o personagem interpretado por Jon Voight (um cowboy ingênuo que vai a Nova York em busca de dinheiro fácil) lembra um cruzamento de duas figuras criadas por West em "Gafanhoto", o também cowboy Earle Shoop e o solitário Homer Simpson. Salt viria a ganhar outro Oscar de roteiro por "Amargo Regresso" (1978), visão amarga do que representou a guerra do Vietnã.

"Gafanhoto", o filme, pertence a uma mini-safra de filmes hollywoodianos que, em meados dos anos 1970, reconstituíram o florescimento da indústria cinematográfica dos EUA e sua era de ouro. Inédito no Brasil, "Inserts" (1975) traz um diretor que, inconformado com as mudanças de Hollywood no início dos anos 1930, prefere se dedicar a filmes pornô silenciosos -- como aquele que West descreve no livro, exibido no bordel da Sra. Jennings (uma ex-atriz que também optou por diversificar os negócios). "Festa Selvagem" (1975) se ambienta em uma noitada promovida por um astro de comédias mudas. "Do Oeste para a Fama" (1975) acompanha um escritor de faroestes que tenta a sorte em Hollywood. "No Mundo do Cinema" (1976) faz o mesmo com um advogado que se torna produtor de filmes. "A Última Loucura de Mel Brooks" (1976) imagina um retorno à era silenciosa.

"Gafanhoto", o romance, brilha no topo de uma família de romances escritos por autores que trabalharam em Hollywood como roteiristas e que aproveitaram as experiências vividas ali para criar ficção ligeiramente inspirada em personagens e fatos verídicos, mas cujo alcance vai muito além do mero pastiche. É o caso, também no alto da lista, de "O Último Magnata", de F. Scott Fitzgerald, que deixou o livro inacabado ao morrer precocemente, em 21 de dezembro de 1940, aos 44 anos. Por uma trágica coincidência, West morreu um dia depois, aos 36 anos, em um acidente de carro, ao lado de sua mulher. ("Não há segundo ato nas vidas americanas", disse certa vez Fitzgerald.) Esses dois romances, notáveis por suas qualidades particulares, funcionam também de modo complementar.

Fitzgerald inspirou-se no lendário Irving Thalberg (1899-1936), chefe de produção da Metro-Goldwyn-Mayer, para criar um produtor ambicioso e obcecado pelo trabalho, Monroe Stahr (interpretado por Robert De Niro na versão para cinema, lançada em 1976, com roteiro do dramaturgo Harold Pinter e direção de Elia Kazan). Foi, portanto, ao coração da indústria cinematográfica, de olho em quem dava as cartas, mandava prender e soltar. West, por sua vez, ficou com as bordas -- os anônimos que buscavam um lugar ao Sol, lutando por pequenas chances em filmes, e não muito distantes do lugar ocupado pela imensa massa de espectadores para os quais o cinema representava, nos anos 1930, um alento nos dias difíceis que se seguiram à quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. (Vide Cecilia, a personagem de Mia Farrow em "A Rosa Púrpura do Cairo", de Woody Allen.)

Em "Gafanhoto", West nos apresenta inicialmente a Tod Hackett, um ex-aluno da Escola de Belas-Artes da Universidade Yale, prestigiosa integrante da "Ivy League" -- a exclusiva "série A" das universidades americanas. Levado a um estúdio de Hollywood por um caçador de talentos, para trabalhar no departamento de cenografia e figurinos, ele vive na capital do cinema há menos de três meses quando tem início o romance. Sua inadequação ao lugar lembra a do próprio West, bem como a de Fitzgerald e a de tantos outros escritores que também foram seduzidos pelos salários e mordomias da era de ouro da indústria de cinema dos EUA -- e dos quais a melhor tradução em filmes é a de uma figura ficcional, a do personagem-título de "Barton Fink" (1991), interpretado por John Turturro para os irmãos Coen, e que teria sido inspirado no dramaturgo Clifford Odets (1906-1963).

Entendemos essa inadequação à medida que conhecemos os demais personagens do romance, a começar por Faye Greener, por quem Tod desenvolve uma obsessão. Jovem, bonita e insinuante, ela faz pontas em filmes e alimenta o sonho (despropositado, como se descobrirá) de tornar-se uma estrela. É a quintessência das moças ingênuas (algumas, nem tanto) e perturbadas (algumas, quase sociopatas) que vão a Hollywood atrás da fama e se dão mal -- algo que David Lynch capturou com brilho, mistério e poesia em "Cidade dos Sonhos" (2000), com Naomi Watts no papel da jovem esperançosa, aspirante a atriz, que é levada ao desespero quando as severas engrenagens de Hollywood a expelem. Os principais motivos que levam essas moças até lá podem ser conhecidos em "As Estrelas de Cinema", o livro de Edgar Morin que procura compreender o mecanismo de sedução disparado pelo uso de astros e estrelas de Hollywood em filmes para consumo global de massas. São especialmente reveladoras as cartas que eram enviadas aos estúdios, na era de ouro, por mulheres que desejavam manter contato com seus ídolos.

Em torno de Faye, que hoje talvez chamássemos de "periguete", circulam outras figuras tipicamente hollywoodianas -- seu pai, Harry Greener, um artista fracassado que ganha trocados como vendedor ambulante; Earle, o cowboy que jamais será John Wayne; Miguel, um mexicano que cria galos de briga; Abe Kusich, um anão mulherengo e encrenqueiro; Mary Dove, a amiga que integra a selecionada equipe do bordel da Sra. Jennings. Um personagem escapa a essa ciranda de desespero: Claude Estee, um roteirista bem-sucedido que Tod conhece (e que o apresentará ao negócio da Sra. Jennings). E um outro personagem, já mencionado acima, será caracterizado como alguém exterior a essa roda-viva, incapaz mesmo de compreendê-la, e que por isso mesmo sublinhará, com seu destino, a crueldade de tudo e de todos: Homer Simpson.

Sim, Homer Simpson. Não é, ao que parece, uma coincidência. O cartunista Matt Groening, criador de "Os Simpsons", deu ao longo da carreira duas versões para a escolha do nome do pai de família que representa a boçalidade da sociedade de consumo e da cultura de massas: em uma delas, Homer (Homero) teria sido assim batizado em homenagem ao pai de Matt, Homer Groening; na outra, a escolha seria uma referência direta ao personagem de Nathanael West. Pode-se supor que as versões sejam complementares; inegável é a semelhança entre o paspalho de bom coração criado por West -- um contador que aproveita o dinheiro acumulado durante anos de trabalho e tira uma espécie de sabático na Califórnia -- e o marido de Marge e pai de Bart, Lisa e Maggie no seriado que foi ao ar pela primeira vez em 1989 para se tornar um ícone da cultura pop no final do século 20 (e além).

O protagonismo de Homer no desfecho de "Gafanhoto" o aproxima de um outro universo de personagens, também associado à Grande Depressão dos EUA: os de "Mas não se Mata Cavalos?" (1935), o romance de Horace McCoy (1897-1955) levado ao cinema em 1969 (no Brasil, "A Noite dos Desesperados"), com roteiro de James Poe e Robert E. Thompson, direção de Sydney Pollack, estrelado por Jane Fonda e Michael Sarrazin. No livro e no filme, um concurso de dança disputado por gente desesperada atrás do prêmio se transforma em uma maratona da morte. O caldeirão que West resolve subitamente explodir em "Gafanhoto" tem muito a ver, na essência, com o que McCoy lentamente aquece ao longo de sua história.

Se a leitura de "Gafanhoto"despertar o desejo de compreender melhor o "grande quadro" em que os personagens estão inseridos, ou se você deseja fazer isso antes de mergulhar na leitura do romance, uma opção altamente recomendável é "O Gênio do Sistema - A Era dos Estúdios em Hollywood", livro de Thomas Schatz que resume a história da indústria americana de cinema em cinco capítulos. Os três primeiros dão conta da formação do que encontramos em "Gafanhoto": "Os Anos 20: O Início", "1928-1932: Poderes Constituídos" e "Os Anos 30: Idade de Ouro". Schatz usa como epígrafe, para explicar o título, um postulado do crítico francês André Bazin (1918-1958), de 1957: "O cinema americano é uma arte clássica. Por que, então, não admirar aquilo que ele tem de mais admirável, ou seja, não apenas o talento deste ou daquele criador, mas o gênio do sistema?".

Ponha tudo, para o bem ou para o mal, na conta do gênio do sistema.

A leitura de "Gafanhoto" me faz ouvir no cérebro a música que o personagem de Allen Garfield -- um produtor de cinema que vive escondido em seu trailer, fugindo dos credores pelas ruas de Los Angeles -- canta no final de "O Estado das Coisas" (1982), de Wim Wenders, para o diretor (Patrick Bauchau) que ele deixou na mão durante uma filmagem:

O que você faz dos seus dias, meu amigo, em Hollywood?

O que você faz das suas noites, meu amigo, em Hollywood?

O que você faz da sua vida, meu amigo, em Hollywood?

O que você faz, meu amigo, quando sabe que está morto em Hollywood?

 

Sérgio Rizzo, jornalista, crítico de cinema e professor.