Não se deixe enganar pelo título. Este texto não pretende discutir os dilemas morais que emergem de certos enredos ou as cenas inquietantes que causam desconforto no leitor. O mal-estar que nos interessa aqui é o do personagem — aquele mal-estar trivial a que ele está entregue por breves momentos, e que não parece ter, porque passagens assim raramente têm grande importância no contexto da trama. Um mal-estar que dificilmente é narrado (seria fácil perder de vista o bom gosto, afinal) em toda a sua dramaticidade. As pequenas câimbras, dores nas costas e vertigens da literatura.

Boa parte dos personagens de romances, novelas e contos que sofrem um pequeno colapso se limitam a enumerar os sintomas, às vezes com um leve estranhamento, às vezes nem isso. É como se não houvesse motivo para alarme. Poucos dão um novo verniz ao que sentem, analisando a dor ou a aflição detidamente e confessando algum pavor. O objetivo não é esse, claro, uma vez que a crise é um detalhe passageiro que serve para colorir a trama. Para isso, não faz muita diferença se o relato é em primeira ou terceira pessoa. O tom normalmente é contido. A qualidade meramente descritiva — o que sequer tem relação direta com o estilo do autor — é quase sempre a mesma.

O protagonista de uma novela começa a suar em profusão; contrariando as expectativas, tudo o que faz é sair para comprar uma camisa nova. Outro, um que acredita estar vendo fantasmas, não apenas mantém a calma como não questiona seriamente a própria sanidade. Com problemas para articular as palavras, um terceiro decide se enroscar no chão da sala, e lá fica. Um quarto tem uma espécie de alucinação no metrô e, depois de voltar ao normal, segue em frente com naturalidade. Um quinto fica desorientado em uma rua, para para respirar fundo e então continua sua caminhada. É um estoicismo impressionante. E veja, estamos falando de bons autores: Antonio Tabucchi, John Banville, David Foster Wallace, Philip Roth e Donna Tartt.

Passagens assim ajudam a provar um ponto, não mais do que isso — logo, não faz sentido que o autor se detenha na cena de uma tremedeira ou de um acesso de tosse. Os delírios e achaques raramente abalam os personagens, que seguem com seus outros tantos dilemas, vendo o que veem e sentindo o que sentem como se nada fosse. Causa inveja a capacidade de juntar um inventário desinteressado dos sintomas — uma lista apática, como se os sujeitos vissem a si mesmos de uma perspectiva externa, como se uma fisgada no rim esquerdo não fosse motivo de preocupação imediata. Não raro o desconforto corrobora um mal-estar existencial, e só.

Na ficção, a menos que a hipocondria ou a obsessão sejam o ponto central da trama, não há tempo a perder com ataques de pânico ou longas digressões sobre uma confusão ou um desequilíbrio. Os personagens sentem tontura e então se agarram num corrimão, têm um lapso e se desculpam, se sentem desorientados e pedem indicações, ficam nervosos e jogam água no rosto, têm dor de cabeça e engolem um comprimido, estão drogados ou bêbados e narram a percepção alterada como se fizessem anotações para um experimento científico. São poucos os que gastam mais de duas frases pensando se há algo errado, chorando para a secretária do médico, temendo um novo ataque ou tentando localizar a origem daquilo que está errado. Eles se sentem mal, catalogam aquilo tudo e seguem em frente.

E aí que entra a inveja. Sempre quis ser como um personagem de ficção que não precisa prestar atenção naquela dorzinha na perna: basta registrá-la para a posteridade e seguir mancando. É quase um conformismo com a própria vulnerabilidade e, em último caso, com a própria mortalidade. A capacidade de ignorar um mal-estar trivial parece, no fim das contas, a grande diferença entre uma pessoa de carne e osso e um personagem de livro.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.