Entrevista com Jayme da Costa Pinto

Jayme da Costa Pinto em sua palestra na conferência da ATA (Foto: Érika Lessa)

A Conferência Anual da American Translators Association (ATA) é provavelmente o evento internacional mais importante na área da tradução. A última edição, realizada em novembro de 2016, em São Francisco, nos Estados Unidos, reuniu mais de 2 mil profissionais e especialistas do mundo inteiro. Em sua oitava participação no congresso, o tradutor Jayme da Costa Pinto fez uma palestra sobre o livro Contos, do escritor norte-americano O.Henry, editado pela CARAMBAIA.

 

Karen Sotelino (Foto: Érika Lessa)

Sua fala fez parte de um painel intitulado “Lugar e local na tradução: Machado, Noll e O. Henry encontram suas vozes em inglês e português”, e teve a participação de Karen Sotelino, professora da Universidade Stanford e tradutora de Raduan Nassar e Machado de Assis nos Estados Unidos, e Adam Morris, que verteu para o inglês livros de João Gilberto Noll, Machado de Assis e Hilda Hilst.

 

Adam Morris (Foto: Érika Lessa)

Durante a apresentação, os tradutores discutiram importância literária das descrições espaciais na obra desses autores e os desafios de transpor a apresentação desses cenários, que muitas vezes dependem de um conhecimento histórico e geográfico prévio do leitor, para outro idioma. Por se tratar de uma conferência voltada a tradutores profissionais, foram discutidas, por meio de exemplos, formas e técnicas de abordar essas dificuldades.

 

Além da palestra na ATA, a tradução dos contos de O. Henry foi tema de uma apresentação de Jayme da Costa Pinto em Stanford, em seminário do departamento de Tradução Literária da universidade. Na entrevista a seguir, ele fala sobre as palestras em São Francisco e como a obra de O. Henry se inseriu no contexto da discussão.

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O painel apresentado por você, Karen Sotelino e Adam Morris na conferência da ATA em São Francisco teve como título “Lugar e local na tradução”. De que modo esse tema reúne esses três diferentes autores e tradutores?
Quem escolheu o tema “lugar e local”, que serviu como guarda-chuva para as três falas, foi a Karen Sotelino, e ela foi muito sagaz, pois, se de fato há algum fio condutor entre esses autores, essa união está na característica urbana da obra dos três. Apesar de a obra de dois deles – O. Henry e Machado de Assis – datarem da virada do século XIX para o XX, e a de Noll, do XX para o XXI, a força da cidade, a diversidade, os desafios e dificuldades da vida urbana estão presentes nos três e, mais especificamente, nas três obras escolhidas. [A coletânea Contos, de O. Henry (cujos textos foram escritos entre 1906 e 1910); o romance Ressureição, de Machado (1872), e O quieto animal da esquina, de Noll (1991).]

 

No caso de O. Henry e Machado, eles viveram o momento em que a cidade passa a assumir um papel diferente na vida das pessoas. Há um impacto muito grande na vida do sujeito que flana – para usar o termo descrito por Charles Baudelaire e teorizado por Walter Benjamin – nesse novo ambiente moderno, marcado principalmente pela velocidade. Algo que foi bem sublinhado na fala do Adam Morris, a velocidade quase cinematográfica das descrições do João Gilberto Noll, é algo que de certa forme une a escrita contemporânea de Noll com os textos dos dois primeiros. Esse assombro causado nas pessoas, no habitante da cidade, pelas novidades, pela velocidade e por tudo estar acontecendo tão rapidamente. Algo que também está marcado, como citei durante a minha fala, no poema “Cidade, city, cité”, de Augusto de Campos, que junta tudo isso em três linhas, de uma maneira sintética e muito feliz.

 

Atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultiplicorganiperio diplastipublirapareciprorustisagasimplitenaveloveravivaunivoracidade.

 

O poema é uma sequência de sílabas que, numa primeira leitura, parece não fazer sentido. Porém, ao encaixar entre elas os termos “cidade”, “city” ou “cité”, formam-se palavras em português, inglês e francês. Por exemplo: atro-cidade/atro-city/atro-cité, cadu-cidade/cadu-city/cadu-cité, capa-cidade/capa-city/capa-cité, e assim por diante. Essa enumeração de termos, que funciona nas três línguas, revela muito sobre a confusão, a fragmentação e o ritmo das cidades.

 

 

No livro do O. Henry, você não só fez a tradução como a apresentação e seleção dos contos, que teve como recorte histórias ligadas a Nova York. Qual a relação do autor com a cidade?
Como O. Henry é um autor muito prolífico, que produziu centenas e centenas de contos, o recorte foi necessário, e me pareceu que um critério interessante seria selecionar os contos urbanos de Nova York. Até porque eles são da fase final de sua vida, ou seja, uma fase de amadurecimento, inclusive artístico e literário, quando a fatura já estava bastante moldada e firme, ele já era um autor famoso pelo texto, pela maneira como descreve as cidades, as pessoas, e também como alguém que contribuía até com o idioma. Das coisas mais banais – conforme citamos no texto de apresentação do livro –, como inventar a expressão “república das bananas”, até uma série de outros termos, gírias que sobrevivem até hoje na língua inglesa e são criações de O. Henry. Além disso, Nova York é uma cidade de certa forma universal, todos a conhecem como emblema da grande cidade, do grande centro urbano, o que aproxima o leitor urbano desses textos. Claro que não todo leitor, mas o paulistano, ou habitante de qualquer cidade grande brasileira, identifica os personagens, como o barman que é chapa do freguês que vai lá toda noite, ou o mendigo da esquina, que está sempre lá com a mesma cara, a mesma plaquinha, ou as novidades da cidade, os ônibus que não funcionam, o metrô, enfim, tudo que está presente na obra do O. Henry, como uma novidade.
Depois, na conferência em São Francisco, pudemos estabelecer uma relação dessa Nova York com o Rio de Janeiro do século XIX e início do XX. Não tínhamos pensado nisso antes, mas as coisas acabaram se conversando ao longo do processo de definição do tema do painel.

 

 

 
Você falou um pouco sobre as expressões cunhadas por O. Henry e vocês também abordaram os desafios da tradução de cada autor, primeiramente na conferência da ATA, depois na sua apresentação na Universidade Stanford. Gostaria que você comentasse alguns desses desafios específicos em traduzir sua obra.
Uma coisa rapidamente observável, para definir de uma maneira muito ligeira, é uma característica da própria língua: o inglês, em comparação com o português, “gosta” do verbo, ao passo que uma língua de origem latina como o português usa muito mais o nome, o substantivo. Assim, nas descrições em inglês você vai encontrar um recurso muito mais intenso a verbos do que a nomes. Na obra específica de O. Henry, as descrições, que são muito rápidas, cinemáticas, se calcam muito no uso do verbo.
Uma ação, composta por várias outras menores, é descrita com uma série de verbos específicos. E, em português, eu tenho um verbo só para tudo isso. Um exemplo rápido simplificando um pouco a história: em português, eu posso dizer que alguém entrou na sala hesitando, cambaleando, com pressa, tropeçando, bêbado, com o queixo para cima. Eu vou dizer “ele entrou assim ou assado”, mas o verbo vai ser sempre “entrou”. Ao passo que, em inglês, eu tenho um verbo para cada uma dessas situações. Se ele entrou cambaleando, é um verbo. Se ele entrou correndo, é outro. Hesitando, é outro. Então isso já dá uma notícia da dificuldade das descrições. E os textos de O. Henry trazem muitas descrições urbanas, em que os ambientes são muito importantes e necessários. Não há tanto stream of consciousness, aquelas viagens na consciência do narrador, é uma coisa mais concreta. Essa característica dos idiomas é, sem dúvida, um grande desafio para o tradutor – e, claro, nas duas direções. Logicamente, também é parte da riqueza das duas línguas, que precisa ser mantida.

 

 

Sobre essa enumeração de verbos em inglês, e a solução encontrada em português, você deu um exemplo, da obra do O. Henry, durante a conferência. Qual foi o trecho?
Sim, é uma passagem do conto que abre o volume:

[...] People passed, but they held me not. Paphian eyes rayed upon me, and left me unscathed. Diners, heimgangers, shop-girls, confidence men, panhandlers, actors, highwaymen, millionaires and outlanders hurried, skipped, strolled, sneaked, swaggered and scurried by me; but I took no note of them. I knew them all; I had read their hearts; they had served. [...]

Em português ficou:

[...] Pessoas passavam por mim, mas não prendiam minha atenção. Olhares cortesãos me lançavam ofertas de amor pago e eu seguia incólume. Gente que gosta de jantar fora, gente que quase nunca sai de casa, moças fazendo compras, homens superconfiantes, pedintes, atores, assaltantes, milionários e estrangeiros passavam por mim. Alguns seguiam apressados, saltando obstáculos; outros passeavam, alguns ainda se esgueiravam e havia quem caminhasse com o queixo empinado. Mas eu não reparava em ninguém. Conhecia todos eles; havia lido o que guardavam no coração, já tinham servido a um propósito. [...]

 

 

Que outras características da obra de O. Henry podem trazer dificuldades específicas na hora de transpô-la para outra língua?

Jayme_Stanford_2 Jayme da Costa Pinto em Stanford (Foto: Graziella Beting)

As descrições feitas por O. Henry são muito ricas, fazem com que o leitor seja capaz de enxergar de fato a cena, os ambientes, do hall do hotel à mesa do restaurante. Mas ele faz tudo isso de maneira objetiva, que pode parecer fácil na hora em que se lê, mas que por si só já é uma grande dificuldade – não apenas de tradução, mas sobretudo de criação. Quando você vai traduzir esse tipo de descrição, percebe que passar aquilo com a mesma objetividade, de forma interessante, que vá atrair a atenção do leitor, também é difícil. Ao traduzir, não se faz o trabalho de criação original, mas de recriação. Como seus textos, de modo geral, são curtos, o que é uma característica do conto, principalmente do bom conto, tudo é muito pensado, nada está ali por acaso. Então, levando isso em conta, há um peso, uma importância ainda maior nas descrições. Não há desperdício ali. Isso está sempre na mente de quem está traduzindo e é sempre uma preocupação, um “fardo”. Você não pode esquecer que tudo está ali por um motivo.

Além disso, O. Henry tem uma grande variação de registros em seu texto: ele faz muitas citações à cultura clássica, grega, ao mesmo tempo que dá voz para o mendigo. Essa polifonia também é interessante, e torna o texto ainda mais legal, ainda mais cativante, instigante. Não é à toa que sobrevive com tanta força até hoje, inclusive em outra língua, no caso o português. Então, podemos falar de questões específicas, mas é todo esse conjunto, de uma obra tão rica, que forma esse grande desafio grande, com várias facetas. A sintática, a gramatical e essa característica ainda mais ampla, de um escritor que tem a sensibilidade de captar e descrever o mundo que está em torno dele mudando, de maneira bastante delicada, precisa, exata, irônica, às vezes amarga, às vezes engraçada. Acho que quanto mais rica a obra, mais difícil é o desafio da tradução.

 

 

Uma coisa que notei na sua tradução de Contos, desde que você nos enviou o primeiro texto, é que você não usou notas de rodapé – um recurso adotado por muitos tradutores. Gostaria que comentasse sobre isso.

Eu sempre acho melhor, se possível, evitar as notas. Para isso, às vezes é preciso aproximar o sentido. Por exemplo, em um dos contos, O. Henry cita a companhia de alguns homens com um termo que, em português, ficou “loiras oxigenadas”.

 

[…] I don't exactly know how to describe him to you. You'll see him everywhere there's anything doing. Yes, I suppose he's a type. Dress clothes every evening; knows the ropes; calls every policeman and waiter in town by their first names. No; he never travels with the hydrogen derivatives. You generally see him alone or with another man. […]

 

Em português:

 

[…] Não sei exatamente como descrevê-lo, você o encontra em todo lugar onde há algo acontecendo. Suponho que seja mesmo um tipo. Veste-se elegantemente todas as noites; conhece o caminho das pedras; chama todos os policiais e garçons da cidade pelo nome. Não, ele nunca é visto em companhia de loiras oxigenadas. Geralmente está sozinho ou com outro homem. […]

 

A expressão, no começo do século, em Nova York, era algo como “recorria a derivados do hidrogênio”. Para entender isso em português, para ligar isso com água oxigenada, há uma distância grande. Nesse caso, eu tinha duas opções. Poderia colocar, literalmente, “mulheres que recorrem a derivados de compostos de hidrogênio para ficar mais bonitas”, ou poderia dizer “loiras oxigenadas”. De qualquer maneira, eu achei que, nesse caso, valia a pena aproximar para dar um pouco mais de agilidade, velocidade, compreensão imediata.

Por outro lado, como acabei de falar, O. Henry faz uma série de citações a imagens da cultura clássica grega que não são tão próximas. Há um conto em que ele fala sobre a Arcádia, que até é uma referência mais conhecida, mas há vários outros em que as citações a deuses e imagens gregas são muito distantes, e eu preferi deixar. E a ideia aí é que isso desperte curiosidade em quem está lendo, de que abra de certa forma uma janela para um universo que talvez seja novo. Nesse sentido é um ganho que a pessoa teria lendo o livro, mesmo em tradução. Isso é uma escolha, da minha parte, muito consciente, de que às vezes o leitor vai ter esse trabalho. Lógico que é legal que a leitura seja sempre prazerosa, mas às vezes não vai ser tão simples mesmo.

Acho que é importante, não sempre, mas aqui e ali, deixar o que alguns teóricos diriam que são marcas de tradução. Mas o que se faz com isso? Aproxima, domestica, como se diz, ou estrangeiriza, que seria o oposto disso? Acho que um bom caminho é fazer um equilíbrio entre essas duas coisas. Acho que pode entrar uma expressão que tenha o jeitão da língua, no caso o português, como “loira oxigenada”, e, às vezes, algo que tenha uma “cara esquisita”, como uma citação grega, e aí o leitor vai atrás, se quiser. É uma oportunidade de abrir o leque de repertório, conhecimento, independente de ser tradução ou não.

 

 

Esses contos do O. Henry foram publicados em primeiro lugar em jornais e revistas, então podemos nos perguntar se não foi mesmo intencional, da parte dele, deixar essas referências sem explicação.

É bem provável que ele tenha levantado a régua pra cima, mesmo para o leitor de sua época. Apesar de ser um público de jornal – que provavelmente na época era mais de elite do que é hoje –, acho que ele fazia isso de forma consciente. Não por outro motivo ele ficou conhecido como alguém que contribuiu também para o próprio idioma. E, para fazer isso, é preciso ir um pouco além do convencional, do dia a dia da língua.

 

 

Muitos textos de O. Henry foram adaptados para o cinema – do nacional Fragmentos da vida (1929), de José Medina, a Páginas da vida (O. Henry’s Full House, 1952), que reúne cinco histórias, apresentadas pelo escritor John Steinbeck. Você acha que a obra de O. Henry tem essa vocação de ser cinematográfica?

Eu acho que sim, e isso também tem a ver com o momento de modernidade incipiente, pois o cinema também estava na pauta dessas pessoas que estavam preocupadas com a modernidade, com a cidade, o urbanismo, a velocidade – a própria palavra cinema, cinemático, tem tudo a ver com isso. E as descrições dele são muito gráficas, você é capaz de enxergar as cenas – o cara entrando no bar e observando as pessoas, a festa com a música tocando, os copos batendo num brinde. Tudo isso é muito imagético. Sem dúvida sua obra se presta muito a essa visão.

 

 

 

Jayme da Costa Pinto é tradutor e intérprete de conferências. Ele já traduziu textos de O. Henry, Richard Greenberg e John Updike, e atuou como intérprete de escritores como Salman Rushdie, James Ellroy e Scott Turow. Atualmente, ele trabalha na tradução de uma obra do americano Damon Runyon, que será lançado pela CARAMBAIA.