Quem não fala italiano e vai para a Itália, hoje, na era da internet e da globalização, sem dúvida consegue se fazer entender bem em inglês, pelo menos nos centros turísticos. Mas mesmo nestes, entre as muitas informações que o forasteiro poderá deixar de captar, há uma de que ele talvez não suspeite: ao seu redor os italianos nem sempre falam italiano. Mesmo para o viajante que fale bem a língua padrão da Itália não deixa de ser surpreendente descobrir que não consegue entender uma só palavra da conversa de uma roda de amigos numa esquina de Reggio Calabria, Palermo ou Nápoles, por exemplo. E também é certo que mesmo um cidadão italiano do Norte não entenderá essas eventuais conversas, assim como serão herméticas para os italianos do Sul as conversas em dialeto de seus compatriotas das regiões setentrionais.

 

Os ecos dessa peculiaridade estão em toda a literatura italiana. Na atualidade, obras de escritores como Elena Ferrante, Roberto Saviano e Andrea Camilleri, só para citar alguns com grande penetração entre nós, estão impregnadas de expressões dialetais, quando não escritas por inteiro numa mescla de italiano e dialeto, como neste último. Se isso ocorre no século XXI, quando todos os italianos falam... italiano, justamente, não é difícil imaginar como eram as coisas antes da unificação, época que Fogazzaro focaliza em seu Pequeno mundo antigo, publicado em 1895, cuja tradução no Brasil a Carambaia acaba de lançar.

 

Em 1861, quando a Itália foi unificada, um dos problemas mais importantes era o conhecimento de uma língua comum. A maioria dos cidadãos italianos se valia exclusivamente do dialeto de sua região, e pouquíssimos, além da elite cultural e econômica, eram capazes de falar o italiano literário quando este foi erigido definitivamente ao status de língua nacional. Isso significa que, quando a Itália se unificou, foi preciso desencadear processos de unidade linguística que quase não existiam até aquele momento.

 

O processo de expansão da língua nacional foi muito lento, e só na última metade do século XX o italiano padrão se tornou extensivamente a língua da comunicação diária.

 

Fogazzaro, partidário da unificação italiana (e esse romance é uma verdadeira apologia aos que lutaram por ela), paradoxalmente não utiliza o italiano da unidade linguística ao longo de toda a obra. Está ele entre os primeiros escritores que se valeram do dialeto como meio de vencer a tensão entre dois tipos de expressividade: a realista, ou seja, a do modo como as pessoas se comunicam na vida real, e a literária propriamente dita. Eis aí uma das perplexidades vividas pelos escritores de sua época e das épocas posteriores, até a atualidade. Camilleri, por exemplo, que encontrou seu modo pessoal de vencer essa tensão, cita Pirandello, segundo quem uma mesma coisa é expressa pelo dialeto como sentimento, e pela língua, como conceito.

 

Fogazzaro usa dialetos para expressar, sim, os sentimentos mais espontâneos de seus personagens, porém vai além. Cada dialeto (pois são vários) representa um tipo, um modo de ver e de agir. O primeiro capítulo é já um panorama de uma Itália multicolorida. Vou focalizá-lo aqui e, à medida que trato dele, vou adiantando as dificuldades enfrentadas pela tradução ao longo de toda a obra.

 

Antes, porém, um parêntese. Já de saída o título do primeiro capítulo apresenta uma dificuldade, desta vez não ligada diretamente às questões de dialeto. O título original é Risotto e tartufi. A palavra tartufo tem os seguintes significados em italiano: 1) cogumelo subterrâneo em forma de tubérculo; 2) pessoa que ostenta falsa bondade e devoção religiosa (por causa do personagem Tartuffe, de Molière). Na primeira acepção, a tradução é trufa; na segunda, tartufo. Nesse capítulo, cujo título não pude deixar de traduzir como Risoto e trufas, retrata-se um almoço no qual é servida essa iguaria e destaca-se um personagem, de nome Pasotti, ao qual no fim se faz referência como um tartufo, alusão que enfeixa todo o sentido do trecho. Não preciso dizer que senti a necessidade de inserir uma nota de rodapé, explicando que “Em italiano, trufa se diz tartufo, que também tem o significado de hipócrita. Como se verá, Pasotti será frequentemente chamado de tartufo.”

 

Fecho o parêntese e volto aos dialetos, razão deste artigo.

 

É o referido Pasotti, aliás, que inicia o livro, chamando em voz alta um barqueiro que logo depois se apresenta esbaforido. O nome deste é Pin. Todos falam o italiano padrão, inclusive o barqueiro, até o momento em que aparece o pároco. A figura rubicunda do clérigo, que logo se adivinha caricatural, também fala italiano até o momento em que manda o barqueiro calar a boca com um Tâs giò, ti!, forma dialetal. Entre Pasotti, sua mulher e o pároco, até a chegada ao local do almoço, o diálogo transcorre em italiano, mas um italiano mais relaxado, expresso naquela linguagem que se fala entre amigos e familiares, um italiano que de vez em quando perde alguma vogal, faz alguma elisão inesperada, quase resvalando para o dialeto, mas negando-se a ceder e só capitulando em algumas palavras, como breva (vento periódico dos lagos lombardos), popòla (moça) e posciandra (“iguaria rústica de couves e linguiças”, conforme explica o próprio narrador). Por enquanto.

 

O almoço é um panorama de personagens de várias cidades do Norte, reunidos em Valsolda. É comandado por uma marquesa que, a certa altura, em italiano padrão perfeito, pergunta sobre certo Don Giacomo, que é vêneto, e tem como resposta a imitação deste por Pasotti, que o chama Sior Zacomo. Imediatamente, Pasotti é interrompido, repreendido e corrigido pela marquesa, que não lhe permite caçoar do vêneto. Não por solidariedade humana, mas porque — como explica o próprio narrador — ela tinha nascido em Pádua (Padova), que fica, justamente, na região do Vêneto. Estabelece-se assim uma primeira linha de confronto, que provisoriamente chamarei de geográfica.

 

A velha marquesa, defensora intransigente do poder austríaco, oferece um almoço para oficializar o noivado de seu neto com uma escolhida sua, à revelia do rapaz. Este, visceral antiaustríaco, já está comprometido com uma pequeno-burguesa, filha de um professor universitário, relação que a velha condena com todas as forças. Assim se estabelece uma segunda e uma terceira linha de confronto: a de classes e a política.

 

Nesse caldo os personagens se movem, e o desenrolar do almoço é bem saboroso. Aparece inesperadamente em cena certo senhor Viscontini, afinador de pianos, que não consegue falar nada que não seja em dialeto e só é aceito à mesa para que o número de convivas seja 14, e não 13, por causa da ausência de Don Giacomo. No entanto, segundo o narrador, as vozes mais ouvidas são da convidada dona Eugenia e de um marquês, ambos de Milão. Eugenia não suporta a vida medíocre de Valsolda (percebe-se um ar de superioridade milanesa, que o próprio narrador menciona) e, em meio à conversa, ouve da marquesa uma alusão a certo corredor estreitíssimo da cidadezinha (por onde a convidada não passaria etc.); ouvindo a menção ao corredor e a frase do marquês, de que ele não é propriamente o chemin du paradis, Viscontini interrompe a conversa, claro que em dialeto, dizendo: Quell no! Propi no! ghe l’assicuri mi! (Isso não! Não mesmo! Eu é que sei!). Quando alguém sugere, sussurrando, que ele está louco, Viscontini continua em voz alta: Nient del tütt! Le dico che ona bolgira compagna non la mi è mai più toccata in vita mia (De jeito nenhum! Estou dizendo que na minha vida nunca aconteceu aperreação igual.) (p.29)

 

É dessa maneira que Fogazzaro muitas vezes apresenta os personagens: mais pelo jeito como falam do que pela descrição que faça deles. E aí é que a coisa se complica. Porque, se a tradução de dialetos em si já exige a tomada de decisões difíceis (e adiante veremos por quê), quando ele tem uma função tipificadora desse quilate as dificuldades se multiplicam.

 

A questão da tradução dos dialetos é um problema sem solução única, para não dizer sem solução, pura e simplesmente. Por isso mesmo, cada tradutor adota a sua, ou não adota nenhuma. Este, me parece, é o caso do tradutor da edição espanhola do livro, Fernando Molina Castillo (2012), que optou por deixar as falas dialetais no original e traduzi-las em notas. Confesso que essa solução, se assim se pode chamar, me passou pela cabeça, mas não a adotei. Uma das razões de minha recusa foi o grande número de ocorrências dialetais ao longo do romance: a quebra com notas tornaria a leitura truncada e cansativa. A outra foi que a percepção da sonoridade do dialeto (que me parece ser a única razão de transcrevê-lo) só seria possível para quem o conhecesse, e quem conhecesse o dialeto dificilmente estaria lendo a tradução. Por essas razões descartei essa medida.

 

Só se poderia falar em solução real se a expressão dialetal da língua de origem e a da língua de chegada fossem interligadas por uma mesma realidade sociocultural. Mas, por definição, um dialeto é a forma particular de expressão dos indivíduos de dada comunidade e só dela, e essa comunidade é caracterizada por traços próprios, que carreiam toda uma história de evolução linguística e vivência social arredias à totalização nacional. Ocorre que o que o tradutor tem em mãos para reproduzir aquele texto é justamente uma língua nacional, adotada e imposta com intuitos universalizantes e totalizadores em determinado momento da história de uma nação. Por esse motivo, duas línguas nacionais dialogam em pé de igualdade, enquanto uma língua nacional e um dialeto simplesmente não dialogam.

 

E aqui me ocorre um trecho de Gramsci:

Se for verdade que cada linguagem contém os elementos de uma concepção do mundo e de uma cultura, também será verdade que pela linguagem de cada pessoa será possível julgar a maior ou menor complexidade de sua concepção do mundo. Quem só fala dialeto ou compreende a língua nacional em graus diversos, necessariamente participa de uma intuição de mundo mais ou menos limitada e provincial, fossilizada, anacrônica em comparação com as grandes correntes de pensamento que dominam a história mundial. Seus interesses serão limitados, mais ou menos corporativos ou economicistas, não universais. Embora nem sempre seja possível aprender várias línguas estrangeiras para entrar em contato com vidas culturais diferentes, é pelo menos necessário aprender bem a língua nacional. Uma grande cultura pode traduzir-se na língua de outra grande cultura, ou seja, numa grande língua nacional, historicamente rica e complexa, pode traduzir qualquer outra grande cultura, ser uma expressão mundial. Mas um dialeto não pode fazer o mesmo.

 

[Antonio Gramsci, Il materialismo storico e la filosofia di Benedetto Croce, “I. Avviamento allo studio della filosofia e del materialismo storico, Nota III”, publicação Progetto Manuzio, online http://www.classicistranieri.com/liberliber/Gramsci,%20Antonio/il_mat_p.pdf, tradução minha.]

 

Não vou dizer tudo o que me ocorre sobre esse trecho, pois alongaria demais este artigo. Vou apenas tomá-lo como base para comentar que:

1) Talvez Fogazzaro subscrevesse essas afirmações, pois aos personagens que se expressam em dialeto ele atribui por certo uma visão mais “limitada” da vida.

2) Nessa linha também, Fogazzaro, quando insere um dialeto em seu texto escrito numa língua nacional, tem a intenção de estabelecer uma distinção. A distinção que se estabelece entre um vêneto e um lombardo, quando se expressam por meio de um dialeto, e entre estes e os que se expressam em língua nacional, é uma diferença de cunho cultural, social, quando não de classes.  

3) O que Fogazzaro talvez também percebesse (e não está nas palavras de Gramsci) é uma característica do dialeto que a língua comum e universalizante não tem: a insubstituível capacidade de expressar sentimentos. Esse é o espaço “limitado” que o dialeto sempre preencheu à perfeição.

 

Portanto, a tarefa de traduzir um dialeto exigiria a existência de outro dialeto que contivesse esse mesmo conjunto “limitado” e peculiar de informações. E isso, pela própria definição, não existe.

 

Minha atitude, que não chega a ser uma solução, parte de uma constatação e de uma pergunta. A constatação é que todo cidadão italiano é bilíngue. E a pergunta é a seguinte: qual das duas línguas ele considera a materna? Eu não hesitaria em responder que o dialeto, por ser este o instrumento espontâneo com que se exprimem comoções, raivas, enfim, as efusões de afeto. Essa relação com o dialeto pode estar bem mais atenuada nas novas gerações, mas ainda persiste. O dialeto é a língua que chega primeiro aos ouvidos com os sussurros maternos, é a língua falada em casa pela família, é aquela que contém expressões que ninguém mais tem, a que carreia os sabores e os cheiros de uma terra que não é a dos outros. Por isso, como sabem todos os que já viveram numa casa italiana, mesmo que os membros de uma família conheçam o italiano e o falem regularmente, é nos momentos de tensão, alegria ou briga que o dialeto vem à tona, espontâneo.

 

Partindo do caráter de “familiaridade” do dialeto, optei por traduzi-lo com características mais coloquiais em português. Não temos dialetos da forma como a Itália os tem, mas na verdade temos duas expressões bem distintas da língua portuguesa: a da norma culta e a do falar diário. Foi esta última que tentei usar sempre que possível.

 

Agora passo a um breve panorama dos personagens que Fogazzaro desenvolve usando expressões dialetais.

 

Um deles é o vêneto Giacomo, ou Zacomo, bastante presente em todo o romance. Uma das características de sua fala é a expressão dos ss, que soam mais ou menos como um x atenuado, quase um j. Mantive na medida do possível essa marca posta por Fogazzaro, assim como a pronúncia do u grafado como ü e dos ss milaneses, grafados duplos em lugar do simples.

 

Vejamos alguns exemplos:

– Continua sob vigilância – respondeu Biancòn. – Aliás, espere: tenho aqui um relatório quasse terminado – acrescentou com seu sotaque de Porta Tosa. (p. 122)
– Ó aqui, ó aqui! – exclamou em seu italiano de Porta Ticinese a senhora Peppina Bianconi, avançando com o café, toda sorridente. – O sor comissári! Mas que prazer em vê-lo! O café não é lá tão bom, mas é o primeiro! Pena que a gente não pode ir comprar em Lügan! (p. 125)
– Ô diabo! Falo ansim de brincadeira. O senhor entende bem, né, sor comissári! Só esse bendito homão aí é que não entende! Eu nem tomo café, imagina só! Só tomo água de malva por causa da tontura. (p. 125)
– Os jasmi? – exclamou dona Peppina. – Mas o sor Mairon é quem possui o mais lindo jasmineiro de Valsolda, caro sior! (p. 127) 

 

Impossível traduzir o verdadeiro sentido de um diálogo no qual Luisa abandona seu perfeito italiano para conversar com uma camponesa que, para fugir da fúria do marido, se escondera debaixo de uma vaca. Quem começa é Luisa:

– Ó Regina, cadê você?
– Aqui.
– Aqui onde?
– Aqui.
A voz trêmula vinha de baixo da vaca. A mulher estava exatamente ali, agachada.
– Então venha aqui para fora!
– Não xiora.
– Por quê?
– Medo.
– Venha para fora que seu marido quer lhe dar um beijo.
– Vou não.
Então Luisa chamara o homem lá dentro.
– E você, vai dar o beijo debaixo da vaca.
E o homem dera o beijo, enquanto a mulher, temendo ser mordida, gemia:
– Vê se não morde, hem! (p. 152)

 

Embora a fala do narrador esteja traduzida com o uso de mais-que-perfeitos que em língua portuguesa é eminentemente formal, as marcas distintivas do popular não são tão fortes a ponto de estabelecer o alto contraste que há no original. O difícil equilíbrio entre o popular e o regional muitas vezes acaba por forçar a uma solução pouco expressiva, pois não me parece válido traduzir a fala dialetal de um personagem italiano com características de caipira do interior do São Paulo, de sertanejo do Nordeste ou de gaúcho dos Pampas, pois esses são conjuntos que não têm intersecções entre si.

 

Por essa razão, concluo dizendo que a tradução do dialeto é indecidível, que não há sistema que o regule, e que as saídas encontradas dependerão em grau superlativo da visão pessoal que o tradutor tem do material com que está trabalhando.

 

Ivone Benedetti, tradutora