Este texto, escrito por Fal Azevedo, trata sobre o autor do livro 'Soldados rasos', Frederic Manning. Inédito no Brasil, ele é vendido exclusivamente em nosso site.


 

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Quando a Primeira Guerra Mundial explodiu, o australiano Frederic Manning não era mais um garoto. Contava com provectos 32 anos e era conhecido nos círculos literários de Londres como um poeta menor e um crítico literário de qualidade. Asmático e frágil, Manning se alistou em busca de inspiração, de experiências, de justiça. Ele era esse tipo de homem.

 

No fronte francês, o soldado Manning não protagonizou grandes atos de heroísmo ou cenas de amor desesperado; não frequentou reuniões secretas, nem salvou o mundo. Levou a existência pouco glamourosa de todo soldado, arriscando a própria vida diariamente no fundo de trincheiras infectas; fumou demais, lutou para conquistar poucos metros de território, obedeceu a ordens quase sempre sem sentido, comeu pouco e mal, encheu a cara sempre que teve uma chance e observou, com olhos perspicazes, o mundo de homens que o cercava — os outros soldados, os civis das equipes de apoio, os oficiais, os estrategistas.

 

Ele aprendeu a aguçar os ouvidos quando o ar sibilava, anunciando a trajetória dos morteiros pelo ar, e a ver terror e beleza nas cores do céu noturno iluminado por explosões. Tomou notas mentais sobre o tamanho e a aparência das ratazanas, fez o que pôde para não se esquecer do frio e do sabor dos enlatados, comemorou cada precioso pacote que recebia dos amigos, e esperou.

 

Ele esperou.

 

Finda a guerra, Manning voltou para a Inglaterra, para sua casa, para seu círculo de amigos e para a sua literatura. O amigo e editor Peter Davies, impressionado com suas histórias nas trincheiras francesas, pediu repetidas vezes que ele as colocasse no papel. Conforme a década de 1920 avançava e a saúde de Manning se deteriorava, os pedidos de Davies tornaram-se mais e mais incisivos; Manning, finalmente, resolveu então contar uma história sobre a Primeira Guerra Mundial.

 

Em 1929, Peter Davies lançou quinhentas cópias de The middle parts of Fortune: Somme & Ancre, 1916, mas sem trazer o nome de quem o escrevera. Um ano depois, o mesmo livro voltou ao mercado, agora em versão editada e com o nome do autor, um certo Private 19022 — pseudônimo que reunia o número de identificação de Manning no exército e a palavra “Private”, um trocadilho com a palavra em inglês para “soldado” e o verso de Shakespeare que cita as private parts (ou as “partes privadas”) da Fortuna, em Hamlet. A obra só foi creditada a Manning em 1943, oito anos depois de sua morte, e apenas em 1977 o livro chegou ao mercado em sua forma integral.

 

Ao contrário de outros romances sobre a guerra, Soldados Rasos não tem amores rocambolescos, cenas heroicas, grandes gestos, discursos inflamados antes de cada batalha decisiva. A guerra de Manning é a guerra de um poeta: gestos fluidos, tensos, diretos, ação e reação.

 

O narrador apresenta Bourne (o alter ego de Manning), aquele que é o guia do leitor pelas trincheiras escuras e enlameadas. A ele cabe apresentar um tempo e um espaço através de frases ritmadas e definitivas e relacionamentos baseados no que apenas se adivinha, desenrolando lenta mas inexoravelmente um registro, franco e despido de qualquer pretensão, do cotidiano de rapazes que lutam pela fronteira instável, fugidia, demarcada a giz.

 

O leitor é um observador assim como Bourne, mas a este não é dado o luxo do distanciamento. Nós, leitores, não o conhecemos: ele é um mistério, assim como o mundo que o cerca. De onde veio, exatamente, quem é sua família, qual sua ocupação, quais são suas intenções? Não se sabe. Apenas aprendemos, a cada página, a apreciar sua retidão, sua agudeza na observação do cotidiano duro e incerto que divide com seus companheiros: as marchas, o cansaço, a visão do sangue, as relações humanas, o cotidiano bizarramente inalterado, mesmo em tempos de violência, a morte. Sabemos da solidão, dos laços que o unem aos companheiros, de como ele encara todo um mundo que, real e metaforicamente, deixa aos poucos de existir, sem que os envolvidos percebam.

 

A guerra de Manning não é a aquela dos livros de História. Ela é o embate entre o que foi e o que terá que ser. A guerra de Manning existe, mas não é grandiosa; ela é real — como Bourne, você e eu.

 

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com)