Quando se deixa de amar, o amor vira outra coisa. Ou o amor continua a ser o que sempre foi e um sentimento alienígena o bloqueia. Eu não sei, nunca soube. Quando se deixa de amar alguém é que se percebe que a barba dele não faz cócegas; arranha e dá coceira. Que a voz dele não é tão grave e tão profunda quanto se pensava. Que as piadas dele são pura idiotice, que aquela toalha em cima da cama não é uma graça, é uma hecatombe nuclear, e que não, a mãe dele nunca foi bacana, onde estávamos com a cabeça?

Quando se deixa de amar, deixa-se de amar. Os beijos não são tão profundos, os sussurros, francamente, são irritantes, o gozo é rápido e bobo e onde estão minhas coisas, pelo amor de Deus, que eu quero voltar para a minha casa.

Quando se deixa de amar, o ex-amado mora longe, essa música é chata, esse requeijão é molengo, eu odiei o filme.

Se amar é um mistério, se não amar é um enigma, desamar é um caso para o querido Poirot (que jamais deixei de amar).

Esta semana, deixei de amar um livro. Eu o peguei em minhas mãos com o carinho de sempre. Oi, querido. Virei o danado para ver a foto do autor, olha que lindo, ele sorri para mim. Peguei minhas mexericas, porque estou fingindo que já estamos no inverno (ah, minha capacidade de negação é uma arte), e me deitei no chão da minúscula varandinha do quarto de minha mãe, o único quintal que temos.

E comecei a ler. E continuei a ler. E o primeiro capítulo do meu velho livro tão querido, tão amado, tão conhecido, tão doce, foi como uma daquelas noites em que vamos jantar com o namorado e, de repente, paramos para nos perguntar: que diabos eu estou fazendo da minha vida, por que estou saindo com esse bolha? Depois de três minutos no carro dele, tudo o que se quer é abrir a porta e sair rolando pela Marginal. Morte debaixo dum caminhão, sim. Ouvir mais meio segundo daquela conversa, não. Daí chega-se ao restaurante e, ao descer do carro, considera-se seriamente sair correndo pela avenida Rui Barbosa sem olhar para trás. E, instalados no restaurante italiano e dando goladas pouco catitas na caipirinha de vodca em busca da inconsciência, de repente considera-se viável pedir asilo na cozinha do restaurante por motivos de perseguição, não política, mas de chatice. Salve-me, senhor sous-chef, e passe aquela panna cotta para cá.

Deu para entender? O primeiro capítulo foi insuportável, interminável e quando, já na porta de casa, ele tentou me beijar, bati a mão no trinco e escorri para fora do carro.

Eu amava esse livro e me sentei na minha mantinha, no meio do meu ninho de gatos e almofadas, olhando frustrada para ele, sem reconhecê-lo. Quem é você e o que fez com meu livro amado?

Que diabos aconteceu aqui?

Quando foi que deixei de amar você? Como foi isso? As mesmas orelhas, o mesmo texto da contracapa, o mesmo tudo. A introdução, que sempre achei tão linda. O comecinho do primeiro capítulo. As palavras, a apresentação das personagens, os verbos bem trabalhados, a metáforas fofas, a trama que se inventa.

Está tudo igual e eu é que estou diferente? O livro não se reescreveu durante a noite, embaralhando suas linhas, confundindo suas tintas e figuras de linguagem, então, fui eu que mudei? Que revolução foi essa, silenciosa e malvada, que armaram meu cérebro e meu coração – que, aliás, costumam ser inimigos de morte jurada – para que eu fosse incapaz de deitar olhos de amor no meu volume tão, tão querido?

Já deixei de amar pessoas. Pessoas já deixaram de me amar. Dói como o diabo, é uma faca incandescente enfiada no coração, é uma taça de cristal estilhaçando dentro do peito. Ou é um alívio inacreditável, redentor, primoroso, salvador, libertador. Depende.

A leitura continuou por mais seis capítulos, cada um deles inacreditavelmente ruim. Por fim, desisti. Desmontei meu ninho de mafagafos e, depois de pensar, coloquei meu livro na estante, não na sacola de doações. Todo grande amor desmanchado merece uma segunda chance, todo, seja lá qual for o motivo de seu desmanche: um encantamento alhures, um tropeço de intenção, um golpe da razão, um soluço de vaidade, um mergulho nos mares da decepção.

Coloquei meu outrora tão querido livro na estante para, em alguns meses, dar uma segunda chance.

Para mim.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).