Mais ácido e menos acidez para nos salvar das tragédias da política ou o encontro de Maiakóvski e Torquato Neto na Balada Literária

Outro dia, discutindo com o amigo Joca Reiners Terron via whatsapp (o tempora, o mores), caí em novo FlaFlu. Não era, felizmente, sobre futebol (ele é são-paulino e eu corinthiano: não faz sentido discutir com o atual campeão brasileiro). Nem sobre que tragédia focar (nas últimas semanas, o pensamento binário tomou conta até do luto pelas vítimas de Mariana e Paris). Nem sobre política (entre tomar partido de algum partido e uma Paratiana, fico sempre com a segunda opção). A discussão, a estender-se por linhas furiosas que incluíram até dolorosos erros de português, foi sobre qual a melhor banda psicodélica de 2015.

— Boogarins!

— Supercordas!

— Você não sabe nada sobre psicodelia!

— Você é um autoritário!

— A última vez que você tomou ácido ficou sem ritmo!

— Seus argumentos são clichês, você parou nos anos 60!

Passada a raiva com a troca de ofensas, comecei a rir. Dois pré-cinquentões desempregados e já meio cegos cuspindo fúria sobre as telas minúsculas de seu iPhones em plena tarde vazia por causa de grupos de rock desconhecidos liderados por vinteanistas: estávamos habitando um cartum de André Dahmer ou Ricardo Coimbra. Nem tudo estará perdido, pensei, se, em vez de islã vs. cruzados, PT vs. PSDB, Cunha vs. a rapa,

voltarmos aos tempos de Beatles vs. team Stones, arte figurativa vs. arte abstrata, Vargas Llosa x García Márquez, Borges x Cortázar, pontos corridos vs. mata-mata, ou o atual telecatch autoficção vs. metaficção (tema para futura crônica). Discussões que na verdade não têm o mínimo compromisso com a vitória, e sim com nuances, meio-tons. O juízo final para qualquer lado é ridículo. Não é preciso ser esperto pra entender o paradoxal fracasso expresso em uma vitória (o fim de uma discussão é a morte da conversa) se observamos o terror ao redor do Bataclan condensado nesta terrível manchete do UOL: "Mãe de homem-bomba diz que filho era uma panela de pressão". A poesia, sempre urgente e inexplicável, ilumina até os desvãos mais bárbaros do dito mundo civilizado.

 

Na última Balada Literária, enquanto que do lado de dentro do centro cultural B_arco o poeta amazonense Diego Moraes lia poemas de seu Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘Eu te amo’ no orelhão (da Corsário-Satã, um dos grandes — mesmo — títulos da temporada), do lado de fora uma roda fumaçosa assistia atenta a um duelo inusitado. De calções pretos, Paulo Lins descarregava sorrindo versos e mais versos de Augusto de Campos e Torquato Neto para cima de Giovani Baffô, de jeans crus, que, dono de memória prodigiosa, devolvia exaltado com quatro ou cinco quilométricas peças de Roberto Piva e Maiakóvski. A dicção dionisíaca do poeta pós-marginal carioca e do poeta maloqueirista paulistano faziam de concretistas e tropicalistas "parnasianos", no dizer de Heitor Ferraz, que assistia à refrega meio atônito (não deixava de ser engraçado que Paulo o chamasse de "baudelairiano", logo Heitor, tão drummondano). A poesia dita no meio da rua eliminava arestas entre escolas, e em atrito com o beat amazônico de Diego Moraes a ressoar lá de dentro do B_arco, parecia viva de novo — viva como a noite em que vi uma batalha dos bois dos mestres Siba e Maciel pelas esquinas de Olinda, armando inumeráveis rimas ofensivas de um pro outro até que a algum faltasse o ar, e a glosa ao mote, e a peleja ganhasse trégua, para a seguir transformar os xingamentos em ambíguos elogios.

 

Voltando à treta inicial, na rinha de rimas entre os fluminenses do Supercordas e os goianos do Boogarins, me desculpe Joca, mas eu diria que há vantagem para os primeiros: enquanto que as letras atmosféricas dos goianos se inserem na tradição sinestésica da lisergia, o bardo paratiense Bonifrate alia à psicodelia a filosofia e a política, lançando mão até da cosmogonia e do léxico guarani. Musicalmente não vou discutir que disco é superior, se Manual ou Terceira Terra, já que tenho os dois mixados na mesma playlist (bom lembrar que o guitarrista dos Boogarins toca em "Maria3", do Supercordas; são tão amigos quanto eram os Beatles e os Stones). Além de formar na renascença psicodélica mundial que, liderada pelo Tame Impala, tem sob seu leque Pond, Panda Bear e Django Django, entre outros, ambas as bandas ouviram muito Pink Floyd, Clube da Esquina, Violeta de Outono, rock rural setentista, pós-folk, e seguiram a corrente aberta por Júpiter Maçã, Os The Darma Lovers e Cidadão Instigado. Obviamente todos levaram uma vida doce sob os eflúvios dos Mutantes — a mais antropofágica das bandas brasileiras, a nos lembrar, a cada audição, que na música, como na poesia, e por extensão na vida, jamais poderá haver juízo, afinal.

 

*Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor de Mnemomáquina (romance, Demônio Negro), Sandiliche (infanto-juvenil, Cosac Naify), V.I.S.H.N.U. (HQ, Companhia das Letras), Céu de Lúcifer (contos, Azougue) e O Impostor (poesia, Ciência do Acidente), entre outros.