Para Sofia I. A. Stein,
melhor orientadora

Minha orientadora sabe muito bem quando estou e quando não estou preparada para encarar um livro. Todas as advertências dela são precisas. “Talvez seja melhor esperar um pouco, Camila”, ela diz. E acerta.

Pode não ser comum em outros cursos, mas é no de filosofia. A gente aprende a aceitar as recomendações de calma e paciência — dê uns passinhos cautelosos aqui, você vai precisar de tempo para domar aquele ali, muito cuidado com esse outro. Não conheço ninguém traumatizado ou com a autoestima arrasada. Pelo contrário. Pode ser Adorno, Leibniz ou Hegel, mas a gente entende que autores e livros têm seu momento. A gente se acostuma. E ninguém se ofende.

Observando bem, vejo que no curso de filosofia o respeito pelos orientadores é enorme. Porque, embora a gente possa definir filosofia e filosofar de várias maneiras, há diferentes modos de chegar, na academia, às obras mais complexas. É preciso alguns calos — e muito esforço — para destrinchar algumas delas. A aproximação gradual, muitas vezes com textos de apoio, é a melhor maneira de chegar lá. E é preciso entender não só as tentativas de respostas, mas também as perguntas — e então tome história da filosofia. De novo: talvez seja estranho para quem vê de fora, mas é normal para a gente. É uma ideia de percurso.

E é um aprendizado que exige humildade. Por isso a formação em filosofia pode ajudar um leitor (e crítico) de literatura. Vejo um sinal amarelo se acender quando leio uma análise que aponta como um defeito (por exemplo) as referências numerosas e a prosa cansativa do autor. Às vezes há fundamento, claro, mas nem sempre o problema está no livro. A diferença entre o hermético e aquilo que a gente ainda não consegue alcançar nem sempre é visível. Mas existe.

Sim, há uma diferença enorme entre ler filosofia e literatura. Mas progredir gradualmente com a segunda também me parece válido. Você dificilmente vai indicar um livro que é, como diz Antonio Candido, “pura estrutura verbal” para um pré-adolescente que está começando a se interessar pelo que há na biblioteca. Não faz sentido. Dê a ele um livro com um enredo criativo e você verá o interesse aumentar.

Não se trata de evitar o esforço a todo custo. Pelo contrário. Um bom livro, anote, sempre vai exigir esforço — se não de leitura, então de interpretação. Às vezes, no entanto, o mero esforço não basta, ou é vazio. Porque você ainda não chegou lá. Não adianta dar Virgílio ou Chaucer a um garoto de doze anos que nunca leu um clássico na vida. Há clássicos mais acessíveis.

Penso nos diários de Susan Sontag, alguém que levava as escolhas muito a sério. No prefácio do primeiro volume, seu filho David Rieff conta que ela “nunca precisou de gente que tentasse fazê-la relaxar”. A escalada não é fácil. O percurso de um livro a outro está repleto de desafios. Dificilmente é relaxante. Não à toa, os escritos revelam uma Susan jovem, já envolvida em uma busca maníaca pelo conhecimento, o que incluía o pouso obrigatório em alguns clássicos da literatura e da filosofia. É uma ideia de formação que parece, hoje, totalmente fora de moda.

O que exatamente Susan estava buscando? Numa entrada no diário, ela manifesta seu desejo de se “retirar para o intelecto”. Quão absurda a frase soaria hoje? De que maneira não irônica ela poderia ser dita? Provavelmente não poderia. Para funcionar, deveria conter ironia. Se não houvesse ironia no emissor, então o receptor da mensagem faria a sua parte. Talvez por isso a gente se sinta confortável para chamar um escritor ou filósofo de pedante. Porque nos parece um defeito. Porque nos parece mero exibicionismo sem sentido. Porque não estamos habituados a reconhecer que o caminho para isso (o conhecimento?) envolve uma dose maciça de humildade.

Talvez a resposta esteja na forma como utilizamos — ou como nos relacionamos com — aquilo que aprendemos. Os diários de Sontag, como observa seu filho, “foram escritos só para ela mesma”. Susan não estava, ao menos não de início, na vitrine. Aquilo que, nas palavras de Rieff, foi caracterizado como o “desejo ferrenho e incansável de expandir e aprofundar constantemente sua formação” era guardado para ela mesma. E causa admiração — justamente porque abria mão de uma plateia — a adolescente de quinze anos que escreve que leu “sem parar durante seis horas” um romance de Aldous Huxley. E que leria “Aristóteles, Yeats, Hardy e Henry James” no verão. Era uma busca consciente, exaustiva, autoguiada.

De acordo com David Rieff, Susan Sontag “era uma consciência do século XIX”, — século que, claro, fica mais distante a cada dia que passa. As coisas estão ainda mais diferentes. Até certa idade, nosso único objetivo é engolir o máximo de informações processadas a fim de vomitar tudo no vestibular. A busca genuína é uma ideia ultrapassada. Abandonamos a ideia de formação.

Porque, ao contrário do que se pensa, a dedicação aos livros raramente admite a ideia de superioridade. Ela exige que a gente reconheça as dimensões da nossa limitação. E é necessário se curvar ao conhecimento alheio, outra coisa que — o respeito ao mestre — a gente deixou de lado. Penso em Montaigne, que dedicou a vida aos livros em um tempo em que isso não parecia tão ridículo. Das cinquenta e quatro máximas que pintou no teto de seu gabinete para buscar inspiração, só uma era em francês. “Que sais-je?” (“O que eu sei?”), pergunta. Não era ironia.

É um ponto que David Foster Wallace levantou no monumental Graça infinita. Em dado momento, o autor critica as artes que “nos mostram como construir máscaras de tédio e de ironia cínica ainda jovens”. Buscas como a de Sontag não fornecem máscaras de espécie alguma. Só permitem que se olhe no espelho e se reconheça que falta muito, falta tanto, que o caminho é muito, muito longo. Longo, mas bonito.

Obrigada, professora.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.