Lendo o texto da minha boa amiga Helena Costa (http://goo.gl/r2TeJs) a respeito dos programas de fim de semana com o pai dela. Acontece que o velho dela é meio parecido com o meu: dois caras não muito afeitos a programas infantis (do alto dos meus rabugentos quase-44, só posso concordar com eles). O pai da Helê resolveu a parada levando os pequenos à praia. Com meu pai, tínhamos dois destinos: a Cidade da Criança e os sebos. Não vamos falar sobre a Cidade da Criança, não hoje, não agora, porque nos últimos 20 dias tenho andado a um passinho de formiga do choro convulsivo. Não é hora de lembrar de xícaras rodopiantes, casa maluca, mãos sujas de tinta, casa dos espelhos, cadeirinhas-que-voam-pelo-céu (esqueci o nome daquilo), cachorro-quente e Coca-cola fria consumidos junto ao meio-fio. Juro. Hoje não.

O que nos deixa com os sebos. Meu velho tinha um mapa na cabeça com todos os sebos da cidade dos anos 1970 e 1980 e frequentava todos com o mesmo entusiasmo. Havia um que era meu favorito, uma arapuca na rua Sete de Abril, bem no centrão velho de São Paulo. O lugar parecia a casa de um daqueles acumuladores da TV e, ao contrário do prometido pela produção dos programas, não havia nem sombra de esperança de tentar dar ordem àquilo. Zero arrumação, zero critério, zero o que quer que seja. Os livros ficavam amontados em pilhas, dispostos de qualquer jeito no chão imundo de um galpão. Carroceiros despejavam seus tesouros de papelão no mesmo terreno (todos gente finíssima) e estavam lá para dividir café morno da garrafa térmica encardida com o dono do sebo e meu pai. As crianças Vitiello escalavam aquelas pilhas (na minha memória eram realmente montanhas). Eu escolhia uma, ia até o topo e começava a ler. Qualquer coisa.

Claro que isso fazia parte do projeto educacional do Velho Nelson, que tentava expor seus protegidos e chatinhos filhos ao que ele chamava de “mundo real”. E que era mesmo mundo real, vamos combinar. Ler o que passasse pela frente; bater papo com os carroceiros; comer cachorro-quente de misteriosa procedência; falar com educação com as moças que, cansadas da labuta na calçada, entravam no galpão para tomar água e descansar um pouquinho na sombra (estas, invariavelmente, perguntavam nossos nomes, quantos anos tínhamos e se gostávamos da escola, do papai e da mamãe). Resumindo, não ficar aporrinhando com “Pai, vamos embora”.

A razão pra tudo isso era que o velho tinha um plano e, olha, ele deu certo. No resto, sou um ser humano abjeto, mas nos itens supracitados sou uma belezoca. Além de falar com todo mundo de jeito mais gentil que posso, não aborrecer perguntando a hora de ir embora e não reclamar do cachorro-quente (meus amigos da 3ªB tão se acabando de rir nesse momento), eu leio qualquer negócio. Não quer dizer que eu goste, mas eu leio.

E foi nessa de “ler qualquer coisa do alto da pilha” que eu descobri. Um monte de coisas.

Carlos Zéfiro. Antes dos dez anos, eu era uma autoridade em Carlos Zéfiro. Todas aquelas tetas e paus me deixavam transtornada. Eu não sabia como se chamava o que eu sentia, mas adorava me sentir daquele jeito. Ninguém me disse que era feio e errado. A nossa era uma casa mezzo hippie, mezzo comuna, mãe parteira, pai sexólogo. Anos 1970, caras, década melhor não existiu, não fosse o pequeno inconveniente da ditadura espancar, exilar ou simplesmente matar a maior parte dos amigos da minha mãe. Ela também quase que foi. Mas sigamos. Carlos Zéfiro. Ninguém me ensinou que eu deveria ler aquilo escondido. Anos e anos depois, eu me encolhia de vergonha e horror – a vida já havia se encarregado do feio e do errado – ao lembrar que lia Zéfiro à luz do dia, na frente de sabe Deus quem e que, ao descer da pilha e mandar o famoso “Compra pai, por favor?”, o velho tirava o dinheiro do bolso sem piscar, sem comentários.

Vidas dos santos. Dizer que a minha era uma casa ateia é dizer pouco. Os Vitiello praticamente inventaram o ateísmo. Eu ia à missa com meu avô José Menino, ele mesmo um não católico, mas ir à missa com meu avô, creia, não tinha nada, nada, nada a ver com carolice. Meu contato com a religião (posto que durante a missa meu cérebro estava ocupado assistindo o Homer Simpson dançar tango com um chimpanzé... e olha que o Homer nem existia naquele tempo) era almoçar com o padre Mário aos domingos, o padre favorito da minha avó Cida, a única católica da família. Ah, a vida dos santos me fascinava. Nos anos 1970, os sebos de São Paulo eram inundados por livrinhos fininhos, de capa mole e feia, com a vida dos santos contada em letrinha bem miúda. Eu era uma alucinada. Cada livrinho um santo, cada santo uma aventura, muita dor, sofrimento, mãos queimadas, mortes prematuras, alucinações, vozes. Aquela gente sofria horrores em nome de uma fé que eu não conseguia entender, sentir, imaginar. Eu lia sobre afogamentos, jejuns, vidas de privação – quando não, perigos horríveis – intrigada com o que, realmente, movia aquelas pessoas. Nunca pedi para o meu pai comprar nenhum; aquela, sim, era uma leitura que me envergonhava.

Rei Arthur. Minha obsessão por Camelot, rei Arthur e, ora vejam, a história da Inglaterra, a lista de todos aqueles reis e suas maluquices, começou, sem dúvida, nos sebos. Parte da imensa fortuna que meus sobrinhos não herdarão foi e é gasta em romances sobre a corte do rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda.

Enciclopédia. Sim, sim, tempo houve em que o Google não era a fonte máxima de poder, conhecimento, sabedoria e glória. Eu adorava enciclopédias, com tantos assuntos mas todos tão or-de-na-dos. Adorava. Especialmente depois que minha mãe me ensinou que as enciclopédias foram inventadas por uns caras chamados iluministas que, desafiando o poder religioso da época, resolveram juntar todo o conhecimento humano em um conjunto de livros. Todo o conhecimento humano. Minha mãe não prima pelo comedimento. Nunca primou. De qualquer forma, eu adorava ver passarinhos, mapas, comida e fotos de velhos líderes num mesmo livrão.

Asterix. O velho tinha lá a coleção dele de Asterix. Mas né, qual é a graça de ler Asterix em casa, se você pode ler em meio ao caos? Eu adorava. Adorava os desenhos, cada soldadinho romano com uma carinha, uma barriguinha, um resmungo; o caldeirão, o Ideafix, as casinhas, os tais romanos. E quando não entendia uma piada (ou seja, sempre), descia da pilha, interrompia a leitura do meu pai, recebia minha explicação e escalava a pilha de novo. Asterix, para mim, tem cheiro de fritura e pó, e toda vez que leio sinto as pontas das capas de muitos livros me espetando as pernas, o equilíbrio precário na minha pequena montanha de papel, a imensa alegria de fazer um programa com meu pai.

Frequentar sebos me ensinou que podemos estar juntos sem precisar disparar milhares de palavras por minuto. Faço isso até hoje. Leio ou trabalho com meus amigos mais amores, em silêncio, na mesma sala, dividindo a mesma mesa, o mesmo momento e o mesmo ar. E, ainda assim, cada um é cada um, pensando, sentindo e querendo coisas diferentes.

Frequentar sebos era meu programa com o velho. Nós não tínhamos grande coisa em comum (fora a adoração pelo meu irmão e o Asterix), mas essa foi uma fase muito, muito boa. Frequentar sebos, sem dúvida, fez de mim uma leitora melhor. Mais tolerante, mais entusiasmada, mais disposta a correr riscos. Mais atenta a todas as formas incríveis que a literatura pode assumir.

Os livros ocupam um imenso espaço na minha vida. Esse amor foi construído em meio à tanta, tanta coisa. Sinto falta do meu pai, dos passeios de carro até o centro, das escaladas, dos livros que li. Dos livros que não li.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).