Sim, a intensidade e a qualidade do seu mergulho na ficção têm impacto direto no aproveitamento daquilo que você lê. No nível mais raso, há o sujeito cuja experiência de leitura está atrelada à simpatia que é capaz de sentir (ou não) pelo protagonista. É o leitor que precisa torcer pelo personagem, mas apenas se ele se revelar à altura da torcida.

Para isso, o personagem em questão não deve ser extraordinário, o que arruinaria a verossimilhança, mas tem de equilibrar certas qualidades admiráveis com defeitos menores e facilmente perdoáveis. É alta a demanda por um herói comum: precisamos fingir que, com o devido esforço, também podemos ser carismáticos. Também podemos fazer a coisa certa. Também podemos domar e modificar aquilo que não nos convém — tampouco aos que estão próximos de nós.

Mais do que irritados, alguns leitores se sentem traídos quando um personagem não age, pensa e discursa de maneira sensata ou correta, ou quando apresenta características facilmente identificáveis como negativas. São leitores que se envolvem e se emocionam com um protagonista até as últimas consequências — ainda que, por outro lado, exijam da literatura o que ela não tem obrigação de dar.

Num tempo em que alguns defendem o fim das complexidades até na ficção, espera-se que os personagens cumpram uma cartilha das mais maçantes. Seus defeitos devem ser a consequência de um trauma ou de uma situação adversa — a carência gerada pelo abandono —, e sua domesticação precisa estar ao alcance de uma luta interna. Uma luta árdua e contínua, mas bem-sucedida. Não há lugar para o puro e simples mau caráter. Ou para o irracional e o ilógico. Ou para o protagonista medíocre e cheio de falhas que, sem levar em conta o esforço ou a vontade, não consegue deixar de ser o que é. Se for mulher, sinal amarelo: uma personagem do sexo feminino já não tem autorização para ser fraca, incompetente, pirada ou femme fatale.

Também na literatura há uma diferença entre a simpatia (que nos faz aplaudir o óbvio, aquilo que todo mundo deseja e espera enxergar) e a empatia (a tentativa de ver o mundo a partir de uma posição diferente, nem sempre ideal). A primeira diz respeito àquilo que o personagem tem em comum conosco, ou àquilo que podemos igualar, se desejarmos, ou àquilo que aprendemos a valorizar dentro de um contexto conhecido, e portanto reconfortante. A segunda abre espaço para a surpresa, para o imponderável, para a complexidade.

(Numa palestra disponível no YouTube, uma pesquisadora da Universidade de Houston, Brené Brown, diferencia enfaticamente a simpatia da empatia. Brown definiu a empatia como a capacidade de “colocar-se na perspectiva do outro”, de “reconhecer a perspectiva do outro como verdadeira” e a ausência de julgamento. Já a simpatia seria nosso desejo imediato de agradar e confortar.)

Mesmo que o autor faça o melhor que pode com aquilo que tem, o resultado final vai depender, para o bem e para o mal, da percepção do leitor. Há um tipo de leitor que atua como entidade divina, ora distanciado, ora próximo, e acredita que julgar é seu dever principal. Outro se dispõe a mudar de lugar e a ocupar qualquer outro, por mais desconfortável ou deslocado que pareça.

“O homem é feito assim, bom e mau, e depois é sempre desgraçado”, diz o servo chamado Efix no ótimo Juncos ao vento. Na boca de um personagem simples e inculto, a frase ganha uma ressonância ainda mais poderosa — e verdadeira. Os personagens de Grazia Deledda são extremamente inquietantes, Efix em particular. Não é fácil entender a maioria deles. Do humilde servo ao rico comerciante, do sobrinho perdulário às tias desafortunadas, todos têm interesses e defeitos em permanente desequilíbrio.

Isso porque Juncos ao vento, assim como toda a boa literatura, não serve para que o leitor possa apaziguar as contradições e respirar aliviado diante de um mundo ordenado — mocinhos e vilões nos seus devidos lugares, injustiças apontadas de forma inequívoca, relações claras e fáceis. As águas são mais profundas, e quem não sabe nadar se afoga.

Argumentar contra um livro a partir das fraquezas e falhas de um personagem (trapaceiro, cruel, machista, mentiroso, covarde, imbecil) não é, em qualquer circunstância, uma crítica aceitável. Cabe tudo na literatura. Pode funcionar ou não, uma vez que o resultado depende, sempre, de uma infinidade de detalhes correlacionados, mas cabe. E, se as pessoas não estão aí para satisfazer as expectativas umas das outras, personagens tampouco — ou muito menos. Se a literatura não puder abordar livremente nossas imperfeições, não sei o que irá.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.