Sites como o norte-americano Goodreads e o brasileiro Skoob são os produtos ideais de uma época em que nos mostramos desesperados por organizar, programar e rotular. E expor. Agora, diferente da catalogação do acervo da biblioteca de uma comunidade ou de uma universidade — em que aquilo que é de todos está acessível a consultas —, é o privado que se torna público.

Como facilitadores que são, os sites oferecem uma porção de vantagens. Cadastrando cada um de seus livros, você dispõe de um aparato engenhoso que permite controlar a movimentação das estantes — o que deixa suas prateleiras e o que elas absorvem. Com a nota e os comentários, é possível recordar sem esforço a impressão deixada por um conto ou romance. A lista de desejos ajuda a programar os próximos passos. Uma espiadinha no perfil alheio pode revelar novos (para você) autores e títulos. O principal problema, é claro, é a privacidade. Enquanto alguns usuários bloqueiam suas atividades — querendo acreditar que apenas os amigos têm acesso ao vai e vem de sua biblioteca —, outros não se importam em dividir cada mínima descoberta ou avanço. E é aí que mora o problema.

Na esteira do Goodreads e do Skoob, cresce o número de blogs, sites e vlogs pessoais que contabilizam e declaram, como num inventário maluco, cada página lida. As estantes são mostradas de uma ponta a outra. Pouco ou nada é preservado. Todas as aquisições e cortesias são expostas e assinaladas para que não haja equívocos. Todas as impressões são divulgadas. Cada mês rende um balanço inacreditável do que passou pelas mãos de quem administra o espaço. É um procedimento adotado de forma acrítica e automática, mais ou menos como em um jogo de imitação em que não há tempo para reflexão — o que vale é superar o outro. Por um lado, ninguém leva em conta o que há de amador e deselegante em listar títulos e autores, o que seria uma falha constrangedora, mas menor. Por outro, o que é mais grave, ninguém entende que tanta (digamos) transparência pode comprometer o que há de mais básico e fundamental na experiência de leitura.

Mais do que qualquer outra atividade cultural, penso que a leitura respeita um ritmo individual e orgânico — o que é o mesmo quer dizer que possui uma dimensão privada. Você já experimentou (é claro) a sensação de abrir um livro no momento exato. Quando você precisava compreender e acomodar contradições, lá estava a biografia de George Eliot. Quando você se cansou da metafísica, lá estava Fernando Pessoa e o assombroso “Tabacaria”. Nada disso é sobrenatural. Nada disso é o destino. É um ritmo interno que foi ouvido e respeitado. Um anseio que já estava ali se fixou naquelas letras e então encontrou um catalisador. E nem tudo deve ser discutido, explicitado e revelado.

Poucas coisas me deixam mais desconfortável do que a ideia de catalogar e expor cada leitura, por mais breve ou inócua que tenha se revelado — sinto que estou colocando à disposição os padrões mentais, as oscilações e as incertezas que constituem uma parte essencial do processo de descoberta e de aprendizado, e que respeitam, ao mesmo tempo, meu ritmo particular. A mesma coisa com os recantos da estante, sobre os quais não penso em jogar uma luz. A bibliofilia também é uma arte; também é solitária. O sujeito que preserva seus livros sabe que muitos deles, de muitas formas diferentes, são tesouros pessoais. Alguns nos pareceram determinantes sem que isso precise ser escancarado. Alguns têm um valor afetivo impossível de ser descrito. Alguns têm um significado que vai muito além de uma capa bonita.

É claro que nem tudo é secreto, e que muito do prazer da leitura vem da troca. Sem nossa propensão ao debate, a ouvir e a argumentar, não haveria clubes do livro — não haveria tanta gente disposta a discutir e compartilhar, na internet e fora dela, aquilo que tem lido. Nesse caso, as redes sociais em geral e as voltadas para os livros em particular têm a vantagem de servir de (a) palco para discussões (b) bons guias. Como sempre, vale o bom senso. Ninguém precisa escancarar cada centímetro das próprias estantes para captar ou dar dicas.

Gosto da boa e velha caderneta onde rabisco impressões ligeiras e sem nexo aparente numa letra semi-ilegível. Gosto dos sublinhados e dos grifos que quase ninguém vai ver. Gosto das pilhas de livros desorganizadas que ameaçam despencar. Gosto de topar com um volume esquecido no fundo da estante. E gosto de me movimentar furtivamente entre esse e aquele.

Assegurar que algo aí permaneça oculto é uma forma de autopreservação. A leitura, como você sabe, floresce melhor no silêncio. O capítulo que folheio antes de apagar a luz da mesa de cabeceira, o que compro e o que troco e o que doo e o que empresto, o inventário completo das minhas estantes, a forma como cada exemplar veio parar aqui em casa, as dedicatórias e os autógrafos, as leituras iniciadas e abandonadas e retomadas, os títulos que compõem algo parecido com uma lista de desejos, os presentes que guardo com carinho, certas coisas, ou muitas coisas, pertencem a mim e só a mim.

Em época de ruído excessivo, malandro é o que lê quietinho.

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.

*Imagem: Andy Lamb