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Na literatura francesa, o desmascaramento do teatro social é tema desde o século xviii, com autores como Voltaire e Sade, passando pelo século xix, com Balzac e sua monumental Comédia humana, e chega deliciosamente às vanguardas do século xx neste livrinho de Max Jacob. Se outra tradição francesa, a dos romances epistolares, foi capaz de cristalizar a base da filosofia de um Jean-Jacques Rousseau — em Nouvelle Héloïse —, ou de abalar todo o edifício da moral cristã com um livro como o escandaloso e cínico Relações perigosas, de Choderlos de Laclos, a aventura de Max Jacob é mais modesta, e de algum modo, mais divertida. O conjunto das cartas, em sua maior parte independentes, dão ao leitor a sensação de intimidade, de espiar pelo buraco da fechadura das relações humanas — e é impossível, já neste século xxi, não identificarmos na prolixa viúva Gagelin uma velha tia do interior — ou a sogra, ou nossa mãe — a dar conselhos escusos e interesseiros.

 

É assim, na intimidade da correspondência selada, que brotam as ambições de um jovem um tanto medíocre, botando a carreira maçante à frente do encontro com uma pobre amada, ou um pai furioso com o filho, que dissipou irresponsavelmente o último ano de estudos. O que o leitor descobre, ao ler o comentário a essas cartas, entretanto, é que a alegação moral desses atos é um poço sem fundo da própria imoralidade — e ficamos assim sabendo que o pai está furioso não com o desempenho pífio do filho, mas porque este lhe tomou a amante.

 

Esse exercício de ocultar e mostrar poderia ser uma maçante pregação sobre os valores torpes da sociedade contemporânea, se não viesse, como vem, embebido do humor mais fresco das vanguardas do século xx, que fazem rir de nervoso das personagens típicas e tontas, das nossas tias do interior, de nós mesmos.

 

Ana Lima Cecilio, editora