Nós teremos então sobre os joelhos

Um livro que nos diga muitas cousas

Dos mistérios que estão para além das lousas,

Onde havemos de entrar antes de velhos.

Cesário Verde

Não começamos a fazer registros para imortalizar o que sentíamos ao ver nossa amada banhada pelo sol da manhã, para falar do que carregávamos n’alma, para proclamar nossa angústia. A humanidade começou a fazer registros porque nossas vidas estavam cada vez mais complexas.

Na argila fresca, fazíamos marquinhas em formato de cunha (Ah! Cuneiforme por isso!) para registrar quantas vaquinhas tínhamos no pasto, quantas jarras de trigo no depósito, quantas pessoas nas vilas. E quem-era-dono-do-quê. E quem fazia isso ou aquilo. E, pouco depois, o que se desejava. O que era sentido e, ah! sim, como se parecia nossa amada, banhada pelo sol da manhã.

Quando começamos a escrever – e a ler – a beleza era a última cousa que tínhamos em mente, mas, quando descobrimos que podíamos, de alguma forma, ter a beleza sempre ao nosso alcance, nunca mais (que sejam as musas louvadas) paramos de escrever. E de ler. O que temos hoje nas mãos – livros, apostilas, maquininhas-de-ler-livro (estas, sim, as novas plaquinhas de argila) – é fruto do nosso aprendizado: o belo pode ser registrado. Em muitos sentidos, guardado e revisitado.

É o que fazemos quando relemos a explicação do Veríssimo de como Rodrigo Cambará (não o capitão, mas o médico) faz um pé descalçar o outro. Quando lemos sobre o vestido amarelo-limão que manchou a mão do narrador de Salinger. Ou sobre a beleza do cabelo de Josephine, a terceira mulherzinha de Louise May Alcott. Ou sobre o amor de Caio por Caetano e João.

O belo, para a minha boa amiga Veronica, está no entendimento de que esse é “o melhor dos tempos (...), o pior dos tempos”. Para o Juca, na dor da criatura cujo pai nunca deu um nome e, para a Julia, nos versos intensos de Mário Sá-Carneiro, aquele que amou vívida e dolorosamente sem as amarras do tempo e do espaço. Para o Char, o belo está no escritor francês que se lembra da vida comendo delícias açucaradas. Para a Maliu, nas tardes do Paulo Mendes Campos que não voltam nunca mais e, para a Laura, no samba do Chico, que crê mais no perdão do que na despedida.

Para mim, no meio de tantas coisas como soldados da Primeira Guerra Mundial, baleias e a Paris do começo do século XX, o belo está na poesia dos grandes espaços que esse cara chamado Cesário Verde escreveu no século XIX. Escreveu pouco e por poucos anos, e registrou o belo a cada estrofe. Ele odiou e amou a vida que tinha, carregou o mundo nas costas, resistiu à tentação de jogar tudo para cima – burguês e empresário com alma de poeta e boêmio.

Minha vida de leitora é, cada vez mais, um registro do encantamento com as palavras alheias, com a beleza que é resignificada a cada instante e a cada linha. A beleza que meus livros obrigam a permanecer. O belo, para mim, está na textura da almofada, na cor das frutas, na nova iluminação das ruas da velha Lisboa, no gelado da água, no adjetivo novo para um velho sentimento. Essa sou eu, que gosto do pequeno, do detalhe, do cheiro do cabelo de alguém. Como Cesário, sou um monte de cousas vivendo uma vida que não estava nos planos (como se a de alguém estivesse) e, seguindo o exemplo dele, não enlouqueço (demais), não saio gritando pela rua (quase nunca) e aguento firme (mais ou menos) porque, quando tudo parece estar perdido (quase sempre), o belo está ao meu alcance: estico o braço e a Sônia Nolasco me fala sobre os amores das meninas dos anos 1960.

Nas próximas semanas, espero ser capaz de falar e ler sobre a vida do leitor, a minha vida, a sua, sobre o que buscamos e encontramos, sobre o que perdemos, sobre o que camuflamos em descrições rebuscadas, sobre nosso riso desbragado no metrô, sobre nosso chorinho sentido durante os finais rocambolescos.

O que importa na sua vida de leitor? Onde você busca o belo? Quem é seu Cesário Verde?

Escreve pra mim e me conta? Juro que espalho pra todo mundo.

Fal Azevedo, escritora e tradutora (fal.drops@gmail.com).

PS: Quando pedi a ajuda da minha amiga Andréa, uma incansável leitora, para a coluna, ela me respondeu citando Whitman – para ela, o pai de todo o belo do mundo: “What good amid these, O me, O life?”