Quando se entra no Salon du Livre, em Paris, a primeira impressão é de que estamos numa Bienal do Livro de São Paulo mais vazia. Depois de uma hora essa impressão se dissipa e temos a certeza de que estamos numa Bienal do Livro de São Paulo bem mais cheia. A atmosfera é a mesma, estudantes correndo por todos os lados, palestras glorificando essa maravilha que é o livro, tietagem em hordas avançando sobre um escritor-celebridade para conseguir um autógrafo ou, melhor ainda, uma “selfie”,  contadores de histórias tentando entreter a molecada e organizadores dando entrevistas para emissoras de TV e rádio falando do sucesso do evento. Ou seja, igualzinho ao Brasil.

Brasil, aliás, homenageado no Salon com um belo pavilhão onde recebeu dezenas de escritores para falarem de suas obras e ajudarem as editoras a negociar direitos de tradução dessas mesmas obras. Além disso, o estande abrigou milhares de livros em francês e português de autores brasileiros que passaram quase despercebidos pelo público local que estava lá mesmo era para comprar Paulo Coelho.

Posto isso, falemos de algumas impressões do que é um Salon du Livre. Se o clima e o público lembram muito a Bienal, há particularidades bastante interessantes. Primeiramente, é uma feira mais cosmopolita. Se na Bienal vemos a presença de pavilhões nacionais representando editoras de seus respectivos países como Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha e, mais modestamente, China e alguns latino-americanos, no Salon estão presentes os países francófonos, ou seja, Canadá, Bélgica, Suíça e muitos africanos. Além deles, países do leste europeu e árabes, que têm comunidades numerosas na França, também apresentam suas produções. Desse modo, a feira espelha o que é a cidade de Paris, uma capital de amplo consumo de livros que sedia inúmeras livrarias e editoras voltadas para leitores falantes de diferentes idiomas.

Duas coisas chamam a atenção no Salon. Primeiro, a quantidade de títulos de histórias em quadrinhos. É inacreditável o número de obras em HQ de aventuras, fábulas, adaptações literárias, reportagens, eróticas, política e mangás em formatos dos mais simples aos mais luxuosos. A segunda é o predomínio absoluto do livro barato. Editoras grandes ou pequenas têm coleções inteiras com capas minimalistas que vão pouco além do título e do nome do autor. Olhando de longe, parece que vemos o mesmo livro, mas são milhares de títulos que recebem um tratamento bastante simples em busca do preço acessível. Assim, não há ousadia em formatos e design de capa. Os livros são invariavelmente pequenos, com papel barato e leve, jamais com capa dura, para que qualquer um possa carregá-los e lê-los nos trens de metrô, praças ou cafés. Edições luxuosas são destinadas aos livros de arte, que também têm apelo num país com tantos acervos importantes em museus e galerias, mas esses são para um público mais específico.

O Salon du Livre é o orgulho de um país que lê. Serve para negociar contratos, apresentar catálogos para outros mercados e demonstrar novos materiais e tecnologias de impressão e do livro digital, mas, julgando pelas enormes filas nos caixas e nas mesas de autógrafos, o que se faz no Salon é vender muito livro.

Fabiano Curi, diretor editorial da Carambaia.