O tiro que Gravilo Princip deu em Francisco Ferdinando, em 1914, estremeceu as alianças e os tratados, os acordos e as piscadelas que serviam de muro de arrimo para a delicada paz na Europa, no começo do século XX. Países que, há décadas, rosnavam baixinho uns para os outros resolveram tirar satisfações com os vizinhos. Velhas promessas foram cobradas, alianças, refeitas ou terminadas e, voilà, 70 milhões de soldados foram enviados para o que viemos a chamar de Primeira Guerra Mundial.

Essa guerra não foi, sinto dizer, uma “guerra entre cavalheiros”. Os campos de batalha não foram tomados por senhores polidos usando pince-nez, conjurando uma nova batalha de Azincourt, vagando pelos prados franceses munidos de bacamartes bem azeitados.

Nossa visão, vá lá, romântica acerca da Primeira Guerra Mundial vem do triste fato de que essa foi uma guerra engendrada, ao mesmo tempo, com armas modernas e logística ultrapassada; um Frankenstein com desejos do século XX em um corpo do século XIX.

Parecido com a guerra da qual tomaria parte, Frederic Manning estava com um pé na margem e outro no bote, preso entre dois séculos. Filho de uma família abastada, bem educado e dono de uma saúde frágil, ele passou parte da sua existência às voltas com livros e viagens, e outro tanto empurrado pela família para ganhar a vida como um cavalheiro. Perambulou entre Sidney e Londres, participou de reuniões políticas e saraus literários, escreveu bons poemas e fumou como um danado até se alistar, com a avançada idade de 32 anos, e cerrar fileiras com rapazes que, exatamente como ele, tiveram de lidar com uma nova forma de conflito.

O corpo-a-corpo das guerras anteriores ainda existia; baionetas eram enfiadas em costelas inimigas em qualquer ocasião e com grande entusiasmo. Porém a distância, em uma escala jamais vista, também se tornou uma arma. Não estávamos mais falando de catapultas lançando petardos ocasionais, revoadas de flechas, tachos de azeite fervente. Havia bombas, agora, e morteiros e granadas e aviões: o inimigo, muitas vezes, deixava de ter rosto, cheiro, corpo. A morte podia ser pouco mais do que um deslocamento de ar, um estilhaço, um susto.

Uma guerra é feita de muitas coisas. De grandes tratados, inconformados estudantes sérvios, arquiduques alvejados em seus chapéus esquisitos, impérios se digladiando, gestos simbólicos, violação das mais variadas soberanias, comoção nacional.

Uma guerra é feita de muitas coisas. Paradas militares, cursos de ação, movimentação de tropas, intenções nem sempre honestas. Luxemburgos ocupadas, bélgicas invadidas, hungrias abiscoitadas, velhos ressentimentos, ódios novinhos em folha.

Em sua obra Soldados rasos, Manning não se esquece da guerra dos livros de história, a guerra ufanista, movida por grandes ideais; a guerra mesquinha e mercenária, alimentada por sede de território e poder. Ela está lá. Mas a guerra que ele viu e viveu — a guerra que experimentou anos de impasse, com soldados de ambos os lados avançando pouco mais de 15 quilômetros em qualquer direção, a guerra morosa, voraz, feita de fumaça e escuridão, a guerra que redesenhou a Europa e nossas vidas — essa está lá também.

É uma guerra de comida pouca, ratos enormes, trincheiras imundas, mochilas pesadas, baterias de canhões na retaguarda, companheiros mortos ou milagrosamente poupados e cansaço. Muito cansaço. Ela não é feita de grandes gestos e bandeiras. É feita por garotos mal-preparados e com saudades de casa. Rapazes famintos no fronte, com capacetes amassados, capas encharcadas e sempre uma dose de rum abaixo do necessário para espantar o medo.

A guerra de Manning não se esquece das grandes questões nacionais, mas o que ela precisa, no momento, é de água quente para fazer a barba, é de secar suas botas, urgentemente. Há lama por todo lado e latrinas a céu aberto. Algumas doses de camaradagem, atos cotidianos de heroísmo, certa amargura, muito rancor.

A guerra de Manning acaba de ver a morte, silenciosa e eficiente, alcançar o companheiro bem ao lado, sem que suspeitássemos que era o fim, o corpo dele colado às nossas costas, seu suor misturado ao nosso, sua respiração quase inexistente em nossa pele também fria, também desesperada.

Uma guerra é feita de um milhão de pedacinhos, carne em conserva, cartas vindas de casa, pequenas birras entre os rapazes, disputas de territórios metafóricos, simpáticos velhinhos franceses, dedos de vinho, doses de dor, um clarão no céu, um zumbido, um estrondo, um nada.

Fal Azevedo, escritora e tradutora.