Livros de bibliotecas públicas passaram e passam por muitas mãos — e mochilas, casas, cômodos, camas, poltronas, pisos, mesas. Estiveram e estão expostos a tudo, sobretudo a cheiros. Muitos deles. Mais do que as anotações, os sublinhados e os papéis esquecidos dentro das páginas, são os cheiros absorvidos pelos livros compartilhados que me intrigam.

Todo mundo tem um cheiro único. A gente dificilmente se dá conta do nosso. É uma mistura do nosso cheiro natural e daquilo que usamos para deturpá-lo — perfume, sabonete, xampu, desodorante, sabão e amaciante de roupas e o que mais que tenha poder de alterar o resultado final, que normalmente se confunde com o cheiro do ambiente em que a gente passa mais tempo. Nunca é uma coisa só. Meus livros, é claro, têm o meu cheiro, o cheiro da minha casa. Eu não sei bem qual é. Só percebo algum cheiro nos meus livros em duas ocasiões: quando algo de muito grave acontece a eles, algo da ordem de um banho de café, ou quando os empresto para outras pessoas e eles reaparecem rescendendo a baunilha, Rexona, talco, picles, enxaguante bucal ou alpiste.

Todo mundo adora elogiar cheiro de livro novo, algo que, digam o que quiserem, carece de variedade. Não há mais do que vinte tipos, e todos são bem marcados — das páginas vagabundas de papel reciclado, que têm um odor característico, àquela espécie de Chanel Nº 5 que quase toda edição de luxo, possivelmente pela qualidade da impressão, desprende. O que atrai as pessoas é o cheiro da novidade, aquele cheiro que carece de personalidade e que desaparecerá em poucos dias. É aí, no entanto, que o livro vai ganhar suas notas próprias, nem sempre definitivas. Graças a seu dono e às escolhas de seu dono. Ou de seus muitos donos.

Nunca paramos para debater o cheiro do livro manuseado, seboso, engordurado, esquecido no bolso, na mochila, na mesa de cabeceira, o livro que rolou daqui para lá, o livro largado no sofá, o livro deixado no balcão da cozinha, o livro que passou tempo demais na gaveta. O livro que cheira a naftalina. A incenso. A cebola. A cloro. A lustra-móveis. A vinagre. A chop suey. A cola em bastão.

Passamos algumas ou várias horas com um livro nas mãos. Costumamos carregá-lo conosco a outros lugares para que possamos continuar a leitura mesmo fora de casa. Com a proximidade constante, é natural que ele absorva nosso cheiro, o cheiro das nossas coisas, o cheiro do ambiente que acabamos de deixar.

Tenho muito em comum com Jean-Baptiste Grenouille (ver O Perfume, de Patrick Süskind) sem, felizmente, o toque macabro. Cheiro qualquer coisa antes de comer ou beber. Todas as minhas memórias — de lugares, momentos e pessoas — também são compostas de odores, e não apenas como detalhe secundário. Farejo quem quer que seja, discretamente, sempre que cumprimento com os dois ou três beijinhos. É inevitável.

Muita gente desenvolveu a mesma mania, mas, talvez por considerarem a coisa toda meio primitiva ou animalesca, poucos admitem a importância que atribuem ao olfato. Incompreensível, já que o olfato é um sentido tão bom quanto qualquer outro.

É fácil encontrar um significado literal na expressão que diz que determinado alguém não fede e nem cheira. Para o seu gosto, algumas pessoas terão um cheiro muito tênue, quase inexistente. Inodoras. Mesmo assim, se emprestasse um livro para um sujeito cujo cheiro você mal e mal consegue sentir, ele, o livro, voltaria cheirando a alguma coisa. Qualquer coisa.

Se você emprestasse um livro para a minha tia, uma senhora que jamais aciona menos de trinta vezes o spray do perfume, cabelos, pescoço, ombros, tssschhhhh, atrás das orelhas, nos braços, tssschhhhhhh, como se fosse laquê, você iria se arrepender no momento em que o recebesse de volta. (Reza a lenda que quando você está na mesma casa que a minha tia e ouve um “tssschhhhhhh, tssschhhhhhh” você não consegue saber se é o esguicho do perfume ou o guizo até que seja tarde demais.)

Quando o pusesse de volta na estante, mesmo que colecionasse algo em torno de 15 mil títulos, você encontraria o livro antes emprestado para a minha tia graças ao odor. Cheiraria a casca de laranja em decomposição, jasmins pisoteados por Baphomet e o mais puro enxofre segregado por Satã em pessoa. Continuaria a cheirar mesmo que você o esfregasse com um pano embebido em água benta.

Boatos dão conta de que Gabriel García Márquez se inspirou no perfume de minha tia para compor a cena em que Melquíades quebra um vidro de uma substância obscura em Cem anos de solidão, no que Úrsula acha que está diante do “cheiro do demônio”. Os boatos não foram confirmados.

Ponho a culpa da minha insanidade olfativa na minha tia. Querendo ou não, meu olfato foi violentamente sacudido de seu estado de sonolência desde que ela me pegou no colo na maternidade em um longínquo outono de 1988 e eu, suponho, depois de dilatar as narinas e arregalar os olhos, depois de tomar consciência daquele horror, dei uma gostosa gorfada.

Se minha tia desaparecesse em um filme de suspense, cães farejadores não poderiam seguir seu rastro de Ô de Lancôme a partir do reconhecimento de uma peça de roupa sem colocar suas pobres vidas em risco. Consta que as malas da minha tia matariam pelo menos três cachorros treinados para encontrar drogas num aeroporto. Todos morreriam no ato, revirando os olhos e espumando, soltando ganidos lancinantes. É o perfume. O maldito perfume que impregna tudo, do alfinete à colcha.

Você entendeu meu ponto. Cheiros. Eles importam. Podem ser bons, podem ser horrendos. No geral, cheiros bons, quando concentrados, se tornam nauseantes.

Por que nunca falamos dos cheiros dos livros usados? Livros manuseados por mulheres, mais do que os manuseados por homens, às vezes têm cheiro de hidratante para as mãos. De olhos fechados e sem utilizar o tato, é possível confundir livros de fumantes inveterados com um cinzeiro. Às vezes um livro não parece ter cheiro algum até que você vire as páginas bem rápido, quando então é possível sentir as notas de creme Nívea, de cobertura de bolo, de xixi de gato.

Livros de biblioteca variam. Os mais velhos aparentemente já não têm o poder de reter odores, já que agora são o produto final, e imutável, de uma mistura letal de fragrâncias — cheiro de página velha, que, como você sabe, só pode ser definido por ele mesmo, ou seja, cheiro de página velha tem cheiro de página velha. Não há notas discerníveis pela narina humana em livros que passaram décadas demais mofando em uma biblioteca. Os exemplares mais novos ainda absorvem alguma coisa, o que pode ser bom ou ruim.

O cheiro de outras pessoas no seu livro pode sair logo ou pode não sair nunca mais. Tudo depende. Se você gosta do cheiro desprendido, ele perderá a intensidade em poucos dias, até o exemplar voltar a se integrar ao ambiente. Se você detesta, ele continuará a exsudar por meses, sem trégua. Ficará ali até que o livro finalmente seja descartado, continuando a feder como uma carcaça de peixe podre numa caçamba de lixo.

Gosto do cheiro com que alguns livros emprestados retornaram. Outros, bem, digamos que a pessoa poderia ter guardado o livro com ela e fingido que o perdeu. Não por acaso, o cheiro é a minha maior preocupação quando devolvo um livro que alguém gentilmente me emprestou. Tomo muito cuidado, é claro, mas nunca se sabe. Fico apreensiva, o que é, acredito, o resquício de uma criação meio neurótica. Será que está limpinho? Há algo errado? Dá para notar o cheiro de detergente de eucalipto do dia em que folheei o livro depois de lavar a louça? Moço, você pode cheirar esta lombada, por favor?

Camila von Holdefer, crítica literária e acadêmica de filosofia.