Descrição

“Eu sou isto: esta terra, e a tenho no sangue. Veja minha cor: parece que a terra soltou tinta em mim e em você também. Esse país é o quinhão dos homens pretos, e todas as vezes que tentaram tirá-lo de nós podamos a injustiça a golpes de facão.” O país é o Haiti e quem fala é Manuel, o protagonista de Senhores do orvalho, de Jacques Roumain (1907-1944), traduzido por Monica Stahel, quase sete décadas depois de sua primeira e única edição no Brasil.

Manuel é um lavrador que volta a seu povoado, Fonds-Rouge, depois de quinze anos nas plantações de cana-de-açúcar em Cuba, período em que conheceu a auto-organização dos trabalhadores e participou de uma greve. Ao voltar para a casa dos pais, encontra-os vivendo privações severas num ambiente castigado pela seca. Manuel é recebido com uma cerimônia vodu de boas-vindas em que ocorre uma briga de loás (divindades do vodu), sinalizando a iminência de um conflito. O herói logo perceberá que a vizinhança é marcada por uma divisão entre grupos hostis, originada por uma antiga disputa de terras de família, que acabou em duas mortes.

O primeiro desafio de Manuel será procurar uma nascente de água para criar um sistema de irrigação que volte a tornar férteis as terras de Fonds-Rouge. O segundo é vencer a resignação e a desconfiança mútua no interior da comunidade e unir seus integrantes em torno do trabalho agrícola, requisitos para fortalecê-los frente aos inimigos que representam as elites mestiças: violentos guardas rurais e comerciantes exploradores. A possibilidade de cooperação é simbolizada pelo modo tradicional de organização coletiva do trabalho, pontuado por música e dança – o coumbite. Os conflitos se aprofundam quando Manuel se apaixona por Annaïse, do ramo rival da família, desencadeando um romance ao estilo Romeu e Julieta.

Senhores do orvalho foi lançado originalmente em 1944, pouco depois da morte do autor, e é considerado o romance fundador da literatura haitiana moderna, tematizando os elementos fundamentais do cotidiano do povo negro em sua luta por sobrevivência. Estão presentes a agricultura de subsistência, a religião vodu, a cultura africana reprimida pela elite mestiça e, sobretudo, a natureza violentamente devastada, que se eleva da trama com tanta força e complexidade quanto os personagens. Com estrutura aparentada à fábula e aos mitos fundadores, é também uma obra engajada, marxista, às vezes quase programática, sobre as possibilidades de emancipação de uma maioria oprimida pela via do trabalho.

A literatura de Roumain é reconhecida por ter introduzido uma voz haitiana própria, ao evocar os ritmos e sonoridades da língua crioula – uma elaboração buscada pelos intelectuais autointitulados indigenistas. Como observa no posfácio a pesquisadora Eurídice Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, “os dois elementos culturais mais fortemente rejeitados pelas classes letradas eram o vodu, considerado uma superstição a ser eliminada, e a língua crioula, considerado um patois, um dialeto que os falantes praticam mas do qual se envergonham”. Foi no vodu e no crioulo que os indigenistas encontraram a linguagem e a cosmologia particulares da literatura haitiana, que já nasceu moderna ao recusar as formas oficiais de comunicação.

Senhores do orvalho, traduzido em dezenas de línguas, inspirou dois longas-metragens, um homônimo, de 1974, feito para a televisão francesa, e outro intitulado Cumbite, de 1964, dirigido pelo mais importante cineasta cubano, Tomás Gutiérrez Alea. 

Autor(a)

Jacques Roumain (1907-1944), poeta, escritor, ensaísta, etnólogo e diplomata, nasceu em Port-au-Prince, no Haiti, numa família da elite. Filho de um fazendeiro, seu avô materno, Tancrède Auguste, foi presidente do Haiti entre 1912 e 1913. A partir de 1915, quando o Haiti foi ocupado pelos americanos, diversas famílias de origem negra como a sua, que até então detinham o poder político e econômico, tiveram de se afastar.

Assim, Jacques Roumain foi enviado à Europa para estudar. Ali teve contato com as vanguardas artísticas e intelectuais que se interessavam pela arte negra. Voltou para o Haiti aos 20 anos e desde então passou boa parte da vida na prisão (inclusive uma vez na França) ou no exílio por suas atividades políticas, entre elas a criação do Partido Comunista do Haiti, em 1934. Além disso, fundou três periódicos, entre eles a La Revue Indigène, que reuniu intelectuais defensores de uma revolução cultural autóctone. Manteve contato frequente com outros escritores engajados, como o cubano Nicolas Guillén, o martiniquês Aimé Césaire e o norte-americano Langdon Hughes. No Brasil, foi Jorge Amado o responsável, em 1954, pela publicação de Senhores do orvalho, sob o título Donos do orvalho, na coleção dirigida por ele, Romances do Povo.

Roumain foi também um importante etnógrafo, voltado para a formação ancestral da cultura haitiana, além de poeta e ensaísta. Antes de Senhores do orvalho (1944), publicou dois romances, La Montagne ensorcelée [A montanha enfeitiçada, 1931] e Les fantoches [Os fantoches, 1931], e o ensaio Les Griefs de l’homme noir [As dores do homem negro], de 1939, entre outras obras.

Em 1942, foi nomeado diplomata e passou a viver no México. Faleceu em 1944, poucos meses antes de ver Senhores do orvalho publicado, de causas não esclarecidas – à época, houve suspeita de envenenamento.

Ficha Técnica

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Ano de Publicação 2020
Número de Páginas
Encadernação e Acabamento
ISBN 978-65-86398-10-6
Escritor(a) Jacques Roumain
Tradutor(a) Monica Stahel
Ensaísta(s) Eurídice Figueiredo
Designer
Ilustrador(a)
Idioma Original Francês
tradutor ensaio

Saiu na Imprensa

"Senhores do Orvalho, uma obra fundamental da literatura haitiana."
José Godoy, Rádio CBN, 22/09/2020 

"Jacques Roumain, escritor, político e etnógrafo, morto em circunstâncias misteriosas, apresenta a narrativa de um exuberante Haiti, que ecoa natureza e histórias quase míticas."
Itamar Vieira Jr., Folha de S.Paulo, 25/09/2020 

"A diferença e semelhança entre a posição do narrador e a do autor transpassam este romance haitiano, mas também traz num só golpe todo o debate da ciência da literatura: Romain não é Manuel (protagonista de Senhores do Orvalho), mas Romain assume a matéria nacional do Haiti tal como Manuel: distante há muito tempo, reconhece-se na terra natal, mas guarda um desconforto com ela; ao mesmo tempo nostálgico e científico. Pela procura em estar de volta à sua terra, Romain surge para mim (leitor e crítico) como um narrador participante e espectador distanciado, não há como vê-lo de outro modo."
Caio Sarack, Estadão05/12/2020 

"Ao voltar para a casa de seus pais, ele encontra um povoado devastado pela miséria e pela seca: “tudo o sol havia lambido, apagado com sua língua de fogo”. Antes da morte de seu avô, as árvores de Fonds-Rouge eram densas, e a vizinhança vivia em harmonia. Unidos como os dedos da mão, reuniam-se para a colheita e o arado através da organização coletiva, conhecida como coumbite."
Leonardo Nascimento, Suplemento Pernambuco, novembro/2020

"Uma das obras fundadoras da literatura haitiana, 'Senhores do orvalho' é uma história de valorização da cultura negra do Haiti, de sua língua, sua paisagem, sua tradição e religião, o vodu."
Cadorno Teles, Ambrosia, outubro/2020

"O livro, de 1944, é tido como o marco inicial da moderna literatura haitiana. Escrito originalmente em francês por Jacques Roumain, 'Senhores do Orvalho' tem pontos em comum com o escritor brasileiro Graciliano Ramos, especialmente com Vidas Secas, publicado em 1938."
Redação, Estadão, 22/10/2020

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